BÖLÜM II KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.7. Eleştirel Düşünme
2.7.1. Eleştirel Düşünmenin Tarihçesi
Sabe-se que o corpo expressa “obrigatoriamente” os padrões culturais e sociais como, por exemplo, os estilos de ritmo, as manifestações de dor, os valores estéticos de um grupo. Entre outros exemplos fornecidos por Mauss, em seu Manual de Etnografia, ele escreve, “um belo Maori é um quadro vivo de uma arte consumada e tradicional” (1993, p. 106). Assim, uma dança, uma reza, uma atividade esportiva qualquer é sempre o resultado de uma força extragenética, ou seja, o resultado de um processo de inscrição histórico- cultural da sociedade sobre o corpo do indivíduo.
Portanto, entendo que as técnicas corporais são tradicionais e eficazes, por isso podem ser analisadas como um elemento de transmissão cultural dentro da comunidade ucraniana. Segundo a teoria de Maus (2003), essas técnicas apontam para um caminho que não se limita ao aspecto sensório- motor corpo, mas para uma consideração além da mecânica e física, como uma teoria anatômica e fisiológica, para um tríplice ponto de vista do indivíduo psicológico e sociologicamente visto. A teoria aprofunda a noção antropológica da movimentação do corpo e encontra meio para justificar a razão dos movimentos numa perspectiva social, daí a minha escolha pela teoria antropológica e não de um psicomotricista3 para o estudo do corpo e seu movimento.
A noção de técnica de corpo passa pela ideia de que os homens, no decorrer de suas vidas em sociedade, conseguiram servir-se de seus corpos, muitas vezes, mantendo suas tradições seguras. Esse ato de movimentos corporais passou entre gerações e se manteve numa tradição segura e consolidada por tais sociedades. Nesse sentido, retomo Mauss (2003) quando o autor ressalta que toda técnica tem sua forma própria, todo corpo tem sua própria atitude e toda sociedade tem seus próprios hábitos. O que me permite inferir que, na sociedade ucraniana, esse tipo de movimento específico adveio de seus hábitos, mantendo o domínio das tradições com danças típicas.
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Ao se falar sobre o corpo e seus movimentos, há de saber que existem muitos estudiosos que, com diversas exposições e descrições da movimentação corporal, tratam o assunto. Alguns desses estudiosos, os psicomotricistas, Beresford (2004), Cunha (1994) e De Meur & Staes (1991) buscam investigar a movimentação corporal para enveredarem no caminho desenvolvimento humano. Essa linha de investigação psicomotora não me traria a solidez esperada, uma vez que os caminhos que regem os estudos da psicomotricidade fazem reflexões sobre os aspectos sensoriais e motores do ser humano.
Nesse contexto, observei que a dança ucraniana tem lugar de destaque entre as realizações culturais daquele povo. As imagens de dança revelam o caráter nacional do povo ucraniano, refletido nos fenômenos tirados diretamente de sua vida e do seu trabalho, uma vez que existe dança só para as moças, a chamada dança dos ventos, em que é representada a luta contra a tempestade. Outras são exclusivamente infantis, que procuram imitar os movimentos da natureza, ou expressar certas lendas do país, a sua grande maioria é executada por rapazes e moças. Os seus movimentos são rítmicos, harmoniosos e modestos, além das danças em grupos que se caracterizam pela delicadeza, elegância e graça das moças enquanto os rapazes têm movimentos heroicos, expansivos e livres.
Outras danças contam a história da Ucrânia, portanto é necessário, nessa tese, mostrar o contexto histórico desse país e seu povo no capitulo 1, para agora entendermos o porquê de algumas danças como a Zaporojetz na foto a seguir, que homenageia camponeses, pescadores e caçadores armados que formaram o exército dos Cossacos para defender a Ucrânia dos invasores inimigos. Muito conhecidos pela destreza no manejo dos sabres, os cossacos eram, no entanto, cristãos fervorosos. Jamais partiam para os campos de batalha sem antes invocar sua Padroeira, Nossa Senhora de Potchaiv.
Outro exemplo é a dança Dóstchek, na foto a seguir tradicional dos Montes Cárpatos, região de Ternópilh, de onde emigraram muitas famílias ucranianas para o sul do Brasil. A dança Dóstchek conforme foto abaixo apresenta as moças que, num belo dia de verão, trançam guirlandas, dançam e gracejam. Nem a rápida chuvinha que começa a cair, irá conter o seu humor e sua disposição, ou seja, mostra o jeito de ser da mulher ucraniana que migrou para o Brasil.
É importante examinar, nessa parte da pesquisa, os modos de andar do meu povo ucraniano, a posição dos braços e das mãos, tudo isso é uma idiossincrasia social. Por essa razão, observei que o repertório do grupo Vesselka tem danças típicas que se destacam pelo seu valor histórico, sendo todas de caráter tradicional que ressaltam a delicadeza das meninas e a força dos meninos, conforme nos relata Dailane, a bailarina do grupo: “Nas danças ucranianas os homens quando dançam individualmente é para conquistar uma moça, e as moças mostram sua delicadeza aos homens girando”.
A dança a que minha entrevistada se refere é a Polzunetz, na foto a seguir, é a mais popular dança da região de Kiev, capital da Ucrânia. Espécie de competição entre os rapazes, respeitando a regra que os obriga a permanecerem agachados até o final da dança, tornando-se perdedor aquele que se levantar.
Nesse sentido, no olhar sobre o corpo, analiso o uso de suas técnicas para além da produção da subsistência, pois vejo carregado de símbolos que pode revelar crenças, costumes e valores. Por meio do corpo, considerando-se certos limites, posso analisar como a tradição cultural está sendo transmitida de geração a geração. Exemplo disso está na dança Previt figura a seguir em que os dançarinos saúdam o público com o pão e sal (elementos-símbolo de abundância e fertilidade), é a abertura de qualquer apresentação.
Fonte: Grupo Poltava – dança Polzunetz
Segundo os costumes ucranianos, ao se visitar alguém pela primeira vez, leva-se o pão e o sal, como forma de se desejar fartura aos donos da casa. Ainda, os pais dos noivos oferecem aos noivos esses elementos, com a mesma intenção, de que nada lhes falte. Porém, nos dias de hoje, observei que não se tem mais essa tradição de se levar pão e sal ao visitar alguém, vê-se tal costume apenas nas apresentações dos grupos de danças.
Portanto, é necessário entender que nenhuma técnica corporal é desprovida de sentido e significado. Segundo Escobar (1997, p. 63), o sentido apresenta-se como sendo de natureza pessoal, ou seja, as representações do indivíduo sobre determinado aspecto da vida humana. Já o significado refere- se à natureza social das representações humanas, em suas visões coletivas. Portanto, compreender quais as representações simbólicas dessas práticas corporais presentes em rituais populares possibilitam entender as marcas da sua tradição cultural que se expressam através do corpo, da sua gestualidade e da sua estética.
Conforme o relatado pelas entrevistadas, é possível observar que Prudentópolis vem, com o passar dos anos, elaborando códigos, comportamentos e uma linguagem comum que mantém o imaginário social vinculado à manutenção das tradições ucranianas, resultando na maneira de como querem ser vistos pelos outros.
Portanto, conforme Mauss (2003), para compreender a relação que procura estabelecer o movimento corporal com a cultura de uma sociedade, é necessário entender a noção da natureza social do habitus, palavra do latim que exprime infinitamente melhor que hábito, o adquirido (vale destacar que uma reflexão sobre o sentido do habitus, será feita no próximo item desse capítulo). O termo não assinala os hábitos metafísicos, a memória misteriosa. Esses hábitos são variações que vão além de apenas indivíduos e suas imitações. Nessas maiores variações “É preciso ver técnicas e a obra da razão prática coletiva individual, lá onde geralmente se vê apenas a alma e suas faculdades de repetição” (MAUSS, 2003, p. 404).
Em outras palavras, na arte de utilizar o corpo humano, os fatos da educação sobrepunham imitação. Há muitas crianças que imitam os adultos por terem maior facilidade e outras menos, no entanto, todas são submetidas à mesma educação em uma sociedade, assim, o que se passa é uma imitação
prestigiosa em que as crianças imitam atos bem-sucedidos dos adultos que ela viu ser efetuado por pessoas que se colocam como autoridade sobre elas. As crianças ucranianas são inseridas no grupo de dança ucraniano logo cedo, a Dança Zabava Ditei é executada pelas crianças que, desde cedo, aprendem a cultivar as tradições, segundo as mulheres entrevistadas encantando a todos com sua graça e mantendo assim a sua origem ucraniana.
Dessa forma, o ato se impõe de fora, do alto, mesmo que seja um ato essencialmente biológico, relacionado ao corpo. Nessa perspectiva, o indivíduo assimila a série dos movimentos de que é composto um ato executado diante dele ou com ele pelos outros. É dentro da noção de prestígio da pessoa que faz o ato ordenado, provado, autorizado, em relação ao indivíduo imitador, que conseguiremos identificar todo elemento social. Ainda, no ato imitador, encontram-se os elementos psicológicos e biológicos que são indissolúveis.
“Chamo técnica um ato tradicional eficaz (e vejam que nisso não difere do ato magico, religioso, simbólico). Ele precisa ser tradicional e eficaz. Não há técnica e não há transmissão se não houver tradição”. (MAUSS, 2003, p. 407). O autor tenta evidenciar que a razão da tradição está na transmissão de suas técnicas, muito provavelmente uma transmissão oral. O ato das técnicas deve ser observado como um ato de ordem mecânica, física ou físico-química que é efetuado com esse objetivo, ou seja, esse é o trato das técnicas do corpo que é o primeiro e o mais natural instrumento do homem: o mais natural objeto técnico – o corpo. Nessa perspectiva, o corpo do homem é considerado naturalmente seu primeiro instrumento, ou seja, é o seu objeto técnico e meio técnico mais natural. É fato que, antes de observar as técnicas de instrumentos, há um conjunto de técnicas do corpo posto em um ambiente de organização ideológica que se necessita ver e analisar. Mauss afirma que:
No interior desse agrupamento de fatos, o princípio permitia uma classificação precisa. Essa adaptação constante a um objeto físico, mecânico, químico, (por exemplo, quando bebemos) é efetuada numa série de atos montados, e montados no indivíduo não simplesmente por ele próprio, mas por toda a sua educação, por toda a sociedade da qual faz parte, conforme o lugar que nela ocupa. (MAUSS, 2003, p. 408)
Em suma, significa dizer que temos um conjunto de atitudes permitidas ou não, naturais ou não as quais atribuiremos valores diferentes ao olharmos os símbolos no exercício do comportamento em sociedade.
Trata-se de um adestramento, de adaptações do corpo, o que nos leva a concluir que o uso que fazemos de nosso corpo, nas mais diversas atividades, não configura um desempenho “neutro”, natural e espontâneo, mas, em grande medida, um uso cultural, relacionado diretamente com o grupo ao qual pertencemos e isso é perceptível nos grupos de danças ucranianas, cujo objetivo, antes do espetáculo, é preservar as tradições ucranianas, ensinando valores e jeito de ser ucraniano.