Após a definição dos vales de interesse para o estudo, foram realizadas nove temporadas de campo, cada uma delas com cerca de cinco dias de duração, para a identificação e caracterização de perfis aluviais e o estabelecimento dos eventos deposicionais ocorridos em cada um dos sete vales. Durante os trabalhos de campo, os vales foram percorridos das cabeceiras escolhidas até a foz de cada um no Rio Pomba. O Rio Pomba foi percorrido em seu trecho entre a sede do município de Santa Bárbara do Tugúrio e o distrito de Vista Alegre. Os perfis aluviais identificados foram descritos com o auxílio de fichas de campo previamente elaboradas, destacando-se a tipologia do depósito, sua posição em relação ao rio atual (desnível em relação à lâmina d’água); seu contexto espacial no vale (altitude e distribuição montante/jusante), à composição granulométrica, à presença de estruturas deposicionais e à espessura das fácies, incluindo o tipo de transição entre as mesmas (gradual ou abrupta). Nas fácies de seixos, observou-se o tamanho médio dos clastos, sua litologia, grau de arredondamento e distribuição na fácies (orientação ou granocrescência). Observou-se, ainda, a presença de estruturas sedimentares e de possível deformação pós-deposicional do depósito que pudesse indicar comportamento flexural ou resultante de falhamento.
Os níveis deposicionais de cada vale foram identificados pela relação entre dados de altitude e desnível para o rio atual, arranjos laterais e verticais e dados sedimentológicos dos perfis aluviais descritos. Depois de identificados, os níveis aluviais foram representados em perfis estratigráficos síntese, os quais expressam as características do nível deposicional observadas em todo o vale, fornecendo uma sobreposição de informações adquiridas com a observação de diversos perfis relativos a um mesmo nível deposicional. Por meio de perfis transversais, representou-se a disposição dos níveis aluviais no vale. A escassez de depósitos alinhados
transversalmente tornou necessária a elaboração de ―perfis transversais síntese‖, os quais não podem ser situados exatamente, pois refletem a superposição de dados coletados em diferentes porções do vale. Todos os vales foram divididos em trechos que mantivessem certa homogeneidade em termos de disposição dos depósitos, e, para cada trecho, foi elaborado um perfil transversal síntese. Os depósitos foram representados, ainda, em sua disposição longitudinal ao longo do vale, tendo sido representados em planta e dispostos sobre o perfil longitudinal do curso d’água.
Posteriormente, foram estabelecidas comparações entre os vales pertencentes ao mesmo compartimento morfológico da área de estudo (porção dissecada, pertencente ao Planalto de Campos das Vertentes; porção central da área de estudo, na qual os altos cursos dos canais drenam o planalto e os baixos cursos drenam a depressão; e porção suavizada, pertencente à Depressão do Rio Pomba), e entre os pares de vales pertencentes a porções distintas da área. A partir dessas comparações, e objetivando responder às questões centrais que motivaram esse estudo, foram selecionados três dos seis afluentes do Rio Pomba em estudo para que tivessem seus níveis deposicionais datados. A justificativa da escolha desses três vales e dos níveis deposicionais datados em cada um deles será apresentada posteriormente à caracterização dos níveis deposicionais de cada curso d’água. Um perfil de cada nível escolhido foi descrito mais detalhadamente e teve amostras de seus sedimentos coletadas para a datação absoluta. Para a escolha dos perfis, foi levada em conta a representatividade destes em relação aos demais referentes ao mesmo nível deposicional, sua localização no vale, a disponibilidade de material datável (quartzo na fração arenosa) e as condições de coleta. Para a datação dos sedimentos, foram coletadas amostras da fração arenosa o mais próximo possível do contato com a fácies de seixos (não foram feitas coletas em lentes arenosas pertencentes à fácies de seixos, nem nas porções superiores dos depósitos). O topo dos depósitos aluviais sofreu maior alteração por processos erosivos e pedológicos durante o Quaternário que a base dos mesmos, por isso não deve ser coletado para datação absoluta por LOE. Além disso, observou-se a necessidade de se manter um padrão na coleta quanto à porção da fácies fina a ser datada. Isso porque, uma vez que o período de deposição de finos pode durar até milhares de anos em um mesmo nível deposicional, a idade obtida a partir da datação da base da fácies arenosa responde quando se iniciou o período deposicional, ao passo que a datação do topo dessa fácies corresponde à idade do final daquela fase deposicional. Nessa situação ficaria inviabilizada, portanto, a comparação das idades obtidas para níveis
consecutivos. Apenas nos casos das planícies nas quais a base do depósito encontra-se sob a lâmina d’água não foi possível, obviamente, seguir esse padrão.
Para garantir a coleta dos sedimentos sem que estes fossem expostos à luz solar, utilizou-se tubos de PVC (5 mm de diâmetro e 30 cm de comprimento) envoltos por sacos plásticos pretos. Os tubos, previamente identificados, foram inseridos horizontalmente por percussão, utilizando-se uma marreta de borracha, de modo a não danificá-los (Figura 8).
Figura 8: Identificação do tubo de PVC e posterior coleta de amostra para datação por LOE.
As amostras foram enviadas ao Laboratório de Vidros e Datação da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC) para sua datação absoluta via LOE. A preparação e análise das mesmas foram feitas pelo método SAR.
Os sedimentos das duas extremidades do tubo de PVC foram excluídos, uma vez que podem ter sido expostos aos raios solares durante a coleta. O material da parte central dos tubos foi tratado sob luz vermelha de baixa intensidade.
Nos procedimentos laboratoriais, grãos de quartzo com 88-180 µm são separados após tratamento químico com H2O2 (20%), HF (20%), por 45 minutos, e HCl (20%), por 2 horas,
para que sejam eliminados a matéria orgânica, os óxidos e hidróxidos de ferro e os carbonatos. As medições LOE, com estímulo infravermelho, são realizadas nas amostras e a ausência de cristais de feldspato é verificada. As curvas de luminescência são registradas com o DayBreak Nuclear and Medical Systems Inc., modelo 1100 Series, Automated TL/OSL Systems.
Todas as irradiações são realizadas com uma fonte de 60Co, com uma taxa de dose de 312 Gy h-1 e para os experimentos de esvaziamento (bleaching) as amostras são expostas diretamente
à luz solar durante 16 h. Os valores de paleodose são avaliados através de métodos de regeneração com alíquotas múltiplas (WATANABE et al., 2003). Sete alíquotas são analisadas, mas os valores extremos são excluídos e é calculado um valor médio a partir das outras cinco. O pré-aquecimento utilizado é de 150 °C por 10 min.
O conteúdo de radioisótopos nas amostras é determinado utilizando o sistema de espectroscopia (Inspector Portable Spectroscopy Workstation, Canberra), com detector de NaI (Tl), modelo 802-2 x 0.5 e cristal de 51 x 13 mm2. Cada amostra é mensurada por uma semana e seu peso é de aproximadamente 100 g. A dose anual é avaliada utilizando o resultado do conteúdo de radioisótopos, a equação de Bell (PRESCOTT e HUTTON, 1988) e as contribuições dos raios cósmicos foram avaliadas após Prescott e Hutton (STOKES, 1999) para cada local e é considerado 10% de incerteza.