2. BÖLÜM: MUKÂTAA AKDİ
2.3. Akdin Bedelleri
2.3.2. Ecr-i Misil
2.3.2.1. Ecr-i Misil Mukâtaanın Tespiti
A) A iniciativa privada tem preferência por parcerias mais lucrativas
Segundo G6 foram realizados alguns contatos com empresas, tendo algumas se interessado em participar do Projeto. Porém, o informante questiona a disposição dessas empresas em trabalhar a cadeia produtiva da madeira, mesmo fazendo parte dela e podendo ter alguns benefícios.
As grandes empresas já exportam também. Então elas têm seu próprio
mercado, as vezes nem interessa processar alguma coisa mais elaborada aqui
não [...] já tem o seu mercado certinho de madeira fora. Então, no meu ponto de vista, é um dos pontos críticos do setor madeireiro (G6).
Quando iniciou o processo tinha madeira na região, o preço da madeira era uma coisa e com o tempo o processo foi se alterando, já não havia mais madeira como havia antes. O pessoal [os empresários] está exportando mais madeira
do que para o mercado interno (G3).
Observa-se que na região existe pouco interesse dos empresários em trabalhar para o mercado interno. Além disso, as empresas privadas do município não respondem às demandas sociais locais. Algumas considerações de Nogueira podem ser nesse caso apreendidas, quando critica a atuação do Estado nas intermediações dos interesses. Segundo o autor, o aparelho do Estado, fragmentado, fica aprisionado pelos vários privatismos (lobbies, grandes empresas, tecnocracia e funcionalismo), dessa forma, permanece incapacitado de dar condições a setores estratégicos (educação, ciência, tecnologia) e continuar na coordenação do desenvolvimento193.
O distanciamento das empresas no Projeto é citado por G6 como um dos pontos falhos. Dentre as causas desse distanciamento ele cita os interesses da iniciativa privada em gerar lucro sem preocupação com o coletivo e o fato da proposta do Projeto não ter sido direcionada de modo que interessasse a esses empresários.
[a falha do Projeto] foi a história de você estar muito distante da empresa que
vai gerar negócio, de trazer, de dar condições para efetivamente se interessar,
se beneficiar com a geração de negócios. Ficou muito subjetivo, na parte só
de idéias(G6).
Foram esses dois lados: um a própria disposição dos empresários, marceneiros e serrarias em estar desenvolvendo em prol da coletividade, não existiu essa característica, e outro, na proposta do Projeto não direcionou para isso aí [...]. Tentava muito se resolver algumas coisas junto às entidades, mas não tinha o
envolvimento dos empresários para a tomada de decisão (G3).
As madeireiras, que detém os recursos naturais locais, possuem um outro circuito de comercialização que é externo à região. Esse é um dos entraves identificados que impediram o sucesso do Projeto. A estrutura econômica consolidada para este setor não privilegia a cadeia para o mercado interno.
Conforme já apontado, foi identificada na região uma alta concentração de plantios florestais, porém, observou-se que está concentrada para poucos empresários. Esse dado também foi apontado pelos entrevistados:
Está nas mãos dos grandes responsáveis [a madeira da região]. Eles não pensam em fazer coisa pra pobre (G2).
193
Este entrevistado representa o Sindicato Rural do município, possui uma pequena serraria, e acrescenta em relação à madeira, que existe a dificuldade da produção em qualidade para o seu uso em esquadrias, por exemplo. Acrescenta que existem outros empresários de outras cadeias envolvidos também: “o fabricante de ferro não quer de madeira, o fabricante de tijolo não quer de madeira”. Segundo ele, poderia sim ser o lugar certo para o Projeto, “mas muitos interesses estão envolvidos, principalmente o econômico, este não deixa as coisas acontecerem. Eles compram toda a madeira, eles compram toda a terra, eles plantam. São grandes empresários da madeira na região” (G2).
Na verdade nosso potencial madeireiro aparente está nas mãos de grandes
empresas e geralmente é para uso e consumo próprio [...]. Têm em larga
escala as serrarias. Algumas beneficiam, outras produzem, outras exportam. Mas é no setor de pallets (G2).
Segundo este entrevistado ainda existe a falta de incentivo no plantio da madeira, principalmente do governo, motivo pelo qual falta matéria prima e conseqüentemente aumentam os preços do material. Ele avalia que um dos motivos do Projeto não ter sido executado foi o custo da madeira na região.
Na época quando vieram com o Projeto aqui, o custo não era problema [...] hoje a coisa mudou, o custo da madeira é o que mais representa [...] Hoje eu
garanto que construir casa de madeira aqui é quase impossível (G2).
B) A iniciativa privada não estava atuando diretamente no Projeto
Segundo Bourdin, a parceria público-privado constitui uma outra maneira de abordar a governança. “É uma expressão acertada que assume duplo valor: conta com o sol liberal na sua eira e com a chuva voluntarista na sua horta”194. Se o termo “parceria” designa o tipo de relações entre atores que decidem trabalhar juntos com transparência e confiança, no âmbito da constituição dessa parceria público-privado não há uma clareza de objetivos e interesses. Bourdin aponta que se as sociedades públicas fixam objetivos de lucro para alguns de seus segmentos, as empresas privadas ficam sujeitas a contratos de concessões muito onerosos que as obrigam a privilegiar objetivos típicos do serviço público.
Dessa forma, era imprescindível a parceria com esse setor (serrarias e reflorestadoras), no sentido de garantir objetivos e privilégios comuns a todos os agentes. Porém, essa parceria
194
não se constituiu, o que pode ser associado: primeiro, ao interesse desses agentes em produtos para a exportação que agregam baixo valor à madeira de plantios florestais ao invés de implantação de projetos e políticas para o desenvolvimento local, e segundo, ao próprio Grupo Gestor, que não privilegiou parcerias com esse setor.
Os interessados em desenvolver a cadeia produtiva da madeira, as empresas, não estavam freqüentando. Fizeram duas reuniões e os
empresários não demonstraram interesse suficiente em estar participando. Estavam mesmo desacreditados. Se interessariam se tivesse alguma proposta
que interessasse a eles (G7).
Segundo o Grupo HABIS, durante o processo de implantação do Projeto no município de Itararé, a estratégia geral para a proposição de diretrizes de políticas públicas para habitação social, utilizando a disponibilidade de plantios florestais e de serrarias na região privilegiou a formação do Grupo Gestor, por meio de adesão voluntária, sendo convidados para participação diferentes segmentos em diversos eventos e situações. Tal estratégia refletiu na composição do Grupo, no qual predominaram técnicos do quadro permanente da Prefeitura (dois arquitetos e uma assistente social), pessoas pertencentes a alguns segmentos da sociedade (um artesão em madeira, dois pequenos empresários, sendo que um deles era produtor rural), o SEBRAE e a equipe de pesquisadores. Em sua formação não participaram alguns setores estratégicos, que não aderiram ao Projeto, tais como representantes de reflorestadoras e de serrarias.