Para falar do início efetivo da prática da apropriação na arte brasileira faz-se necessário uma contextualização do momento histórico.
A década de 60 começou com a inauguração de Brasília, que pode ser vista como o coroamento dos ideais desenvolvimentistas, moderno e da vontade construtiva. Mas para tal feito, Juscelino Kubitschek, o então presidente do Brasil, valeu-se da alta inflação e do pesado endividamento público. Após JK, a presidência foi assumida por Jânio Quadros (1961) e logo em seguida por João Goulart (de 1961 a 1964). No governo de Goulart, a inflação assumiu aspecto de crise colocando em choque as classes de maior e menor renda. Pressionado tanto pela esquerda como pela direita, seu governo foi deposto em abril de 1964, após um golpe promovido pelos militares. A classe de maior renda e de direita venceu essa batalha. Iniciava a chamada ditadura militar. O general Castello Branco, eleito indiretamente pelo congresso, foi o primeiro a assumir o poder. Seu governo rompeu relações diplomáticas com Cuba e reaproximou-se dos Estados Unidos; reduziu o salário do trabalhador; acabou com a autonomia sindical; lutou para combater a inflação; cassou políticos populistas e realizou prisões de lideres de esquerda. As oposições só ocorriam dentro da área militar, deixando a população à margem. Para dar um ar de legalidade ao seu poder, os militares criaram alguns decretos: os Atos Institucionais. O AI-1, criado logo após o golpe, determinou e legitimou a eleição indireta para a presidência e deu aos militares poderes para alterar a constituição, suspender direitos políticos e aposentar compulsoriamente qualquer pessoa que tivesse atentado contra a segurança do país e o regime democrático. Os Atos Institucionais números 2, 3 e 4 foram criados no governo de Castello Branco e asseguraram a continuação dos militares no poder e a extinção de partidos políticos. O presidente também colocou em vigor a Lei da Imprensa, que restringia o acesso à informação, e a Lei de Segurança Nacional, cerceando as liberdades civis.
Em março de 1967 o general Costa e Silva assumiu a presidência. Seu primeiro ano de mandato foi relativamente calmo. Em seu governo promoveu o estancamento da política
77 antiinflacionária e a retomada do crescimento econômico. Essa retomada do desenvolvimento provocou certa liberação do regime. Com muitos parlamentares afastados da cena política, os estudantes acabaram ocupando boa parte do espaço da oposição.
O ano de 1968 foi marcado por diversos movimentos de contestação no mundo, geralmente formados por estudantes, artistas e intelectuais, culminando na revolução de maio de 68 na França. No Brasil não foi diferente e o ano foi marcado por diversas manifestações contra o regime. Os episódios mais conhecidos aconteceram no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em junho de 68 os estudantes saíram às ruas do Rio de Janeiro numa passeata que acabou sendo reprimida à bala pela polícia. Revoltada, a população começou a atirar objetos pelas janelas dos prédios. Essa manifestação, que ficou conhecida como sexta-feira sangrenta, teve um saldo de 4 mortos, 20 feridos e 1000 detidos, e reproduziu em menor escala os acontecimentos de Paris. A violência da repressão a essa passeata fez com que o governo recuasse, permitindo uma nova passeata sem interferência policial. Desta vez juntaram-se aos estudantes, artistas populares (como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil), religiosos, intelectuais e professores, formando o, até então, maior ato público contra o regime militar: a Passeata dos 100 mil. Já em São Paulo, os episódios mais marcantes deste ano foram a invasão e depredação do Teatro Ruth Escobar e espancamento dos atores da peça Roda Viva por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC); e a batalha da Rua Maria Antônia onde estudantes da Faculdade de Filosofia da USP (que eram de esquerda) enfrentaram os estudantes da Universidade Mackenzie (que eram de direita) num confronto que levou à intervenção da polícia, à morte de um estudante secundarista e ao fechamento da Faculdade de Filosofia da USP.
Diversas manifestações seguidas de repressão ocorreram no ano de 1968, até que no dia 13 de dezembro deste mesmo ano foi decretado o Ato Institucional mais repressivo de todos, o AI-5. Este Ato concedia ao Presidente da República o poder de fechar o Congresso Nacional; suspender o direito político de qualquer cidadão por até 10 anos; cassar políticos; suspender ‘habeas corpus’; impor censura prévia à imprensa e às artes; julgar crimes políticos em tribunais militares; proibir qualquer manifestação de natureza política, aplicação da liberdade vigiada, etc. O AI-5 representou um significativo endurecimento do regime militar.
Em agosto de 1969 o presidente Costa e Silva sofreu uma trombose cerebral tornando- se incapacitado de exercer a presidência. Uma junta de ministros militares de linha-dura assumiu o poder no mesmo mês. Logo em seguida, dois grupos que defendiam a luta armada
78 (a ALN e o MR-8) seqüestraram o embaixador americano no Brasil Charles Burke Elbrick que foi solto em troca da libertação de 15 presos políticos que seguiram para o exílio no exterior.
Em outubro de 1969 o general Emílio Garrastazu Médici assumiu a presidência, dando início ao período mais obscuro e repressivo da ditadura militar. Seu governo combateu e derrotou a luta armada. Para isso, deu total liberdade ao aparato de repressão, o que ocasionou uma intensa atividade de tortura, morte e desaparecimento de presos políticos. Mas o governo Médici ficou também conhecido pelo chamado ‘milagre econômico brasileiro’. Com os empréstimos concedidos por outros países o governo investiu na indústria e em mega-projetos de infra-estrutura, como a hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a Rodovia Transamazônica. Houve um grande crescimento econômico para a classe média, o que acabou gerando maior poder de compra e financiamento de bens de consumo. Tornou-se comum as pessoas terem televisão e geladeira em suas residências. O presidente tornou-se popular e grande parte da população o associava à prosperidade, já que a censura e a repressão nos porões dos quartéis não vinham à luz devido ao controle de informação.
Sucedendo a Médici na Presidência, o general Ernesto Geisel tomou posse em março de 1974, trazendo de volta ao poder parte do grupo que integrou o governo do ex-presidente Castello Branco. Junto ao chefe do Gabinete Civil, o general Golbery do Couto e Silva, Geisel elaborou um projeto político, conhecido como distensão, que consistia na devolução gradual, lenta e segura, do poder aos civis, do processo de redemocratização. Para tanto, era necessário convencer os dois lados: “enquadrar os militares radicais e estender uma ponte à sociedade civil” (PILAGALLO, 2004: 86). Os militares de linha dura desafiavam a ordem de desativar o aparelho de repressão e o confronto com Geisel se deu após dois assassinatos sob tortura nas dependências do II Exército, em São Paulo. O primeiro dos assassinatos ocorreu em 25 de outubro de 1975: o jornalista Vladimir Herzog, diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, foi morto em uma cela dos porões do DOI-CODI depois de ter se apresentado para prestar depoimento. A versão oficial apresentada pelos militares era de suicídio por enforcamento, mas nem Geisel e nem a população acreditaram nessa versão. Indignada, a população se manifestou publicamente contra o regime, reunindo mais de 8000 pessoas num culto ecumênico de 7º dia na Catedral da Sé em São Paulo. O segundo assassinato nas dependências do II Exército ocorreu no início de 1976: o operário Manuel Fiel Filho morreu em circunstâncias semelhantes a Herzog. Geisel mandou exonerar o general Ednardo DÁvila
79 Mello, que era o comandante do II Exército, e colocou em seu lugar o general Dilermando Gomes Monteiro, que era mais comprometido com a abertura política. Com recuos e avanços, o presidente conseguiu impor o ritmo que julgava adequado para a redemocratização. Em 01 de janeiro de 1979, Geisel decretou a extinção do AI-5. Em março deste mesmo ano tomou posse o último presidente do ciclo militar, o general João Baptista Figueiredo, que levou adiante o compromisso assumido por Geisel da abertura política.