Uma sala de aula transnacional tem que superar alguns obstáculos: a autocrí- tica dos alunos em relação à matéria, os problemas tecnológicos, os distintos métodos de ensino de diferentes tradições jurídicas e os diferentes estágios de formação e amadurecimento de graduandos. Este último elemento é ainda mais acentuado quando a sala de aula transnacional envolve tradições como as do Brasil e dos EUA. Por aqui o aluno de Direito é na sua maioria muito
jovem, recém-egresso de um ensino de segundo grau. Por lá o aluno já é um indivíduo mais maduro, com formação superior e, na grande maioria das vezes, investindo do seu próprio bolso nas altas anualidades cobradas pelas escolas de Direito.
Quando um aluno com essas características se engaja em uma disciplina comparativa, tendo aulas com professores que usualmente não falam o seu idioma nativo, é preciso muito comprometimento e até certo grau de paciência para superar os naturais obstáculos. O primeiro, de autoavaliação, consiste na refl exão que todos fazem sobre a necessidade de se estar estudando outra tra- dição jurídica. Esse questionamento é normal, e muitos acabam desistindo logo nas primeiras aulas. Por isso, a habilidade do professor convidado ou adjunto é essencial para, num primeiro momento, focar na explanação a importância e a relevância de se estudar outra tradição jurídica. Essa breve introdução faz com que os alunos percebam a utilidade prática e as oportunidades profi ssionais que podem ser abertas para o acadêmico que decidiu investir o seu tempo e o seu dinheiro em uma sala de aula transnacional.
O segundo obstáculo é o tecnológico. Avançamos muito nos últimos anos em matéria de tecnologia, mas nem sempre é possível, ao menos no Brasil, contar com um serviço de internet rápido, efi ciente e confi ável para fazer com que a aula transnacional transcorra sem nenhum percalço. Logo, não são raras as vezes em que a conexão é estremecida, em que há a necessidade de remar- cação de uma ou outra aula e, mais importante, é preciso muita paciência para que todo e qualquer problema tecnológico não iniba as potencialidades do inovador ensino transnacional.
Um terceiro obstáculo está em superar as diferenças entre métodos de ensino. O método de ensino que exige do aluno americano tantas horas de dedicação é o socrático. A sua principal característica é transferir o foco e dinâ- mica das aulas do professor para o aluno. Baseia-se em perguntas e respostas, reservando ao professor as funções de organizador, interrogador, mediador e avaliador dos debates por ele provocados em sala de aula. Trata-se de aborda- gem um tanto quanto diversa da que utilizamos nas faculdades de Direito no Brasil. Quando o professor assinala material de leitura, pelo grau de amadure- cimento, comprometimento e investimento que o aluno norte-americano tem, ele mesmo cobrará do professor a interação socrática.
Relembre-se que a característica fundamental do método socrático não é apenas o de perguntas e respostas, mas estas fl uem naturalmente depois da análise de pressupostos fi xados pelo próprio interlocutor, no caso, o aluno. Para tanto, é fundamental que os alunos se preparem com antecedência, lendo, processando e, o mais importante, analisando o material previamente indica- do. Assim, na prática, as aulas começam com o professor escolhendo um dos
SALA DE AULA TRANSNACIONAL 135
alunos e perguntando sobre os fatos de um determinado caso, partindo sem- pre da premissa de que todos leram o material com antecedência. Com base nas respostas, o mestre formula outras perguntas e, dessa forma, sem lecionar diretamente qual é o direito, o sistema estimula cada um a pensar sobre qual a norma aplicável, a racionalidade da sua aplicação e a sua efi cácia dentro do sistema jurídico.
Na sala de aula transnacional o desafi o é ainda maior: envolve a compre- ensão de textos de tradições jurídicas distintas e a discussão sobre casos com soluções nem sempre usuais ao que o aluno está acostumado. Como qualquer jurisdição que se baseia na common law, a extração das leis dos casos concre- tos é uma constante e, como tanto, parte essencial no ensino jurídico norte- -americano. Quando a transnacionalidade envolve lecionar um sistema de civil law para acadêmicos da common Law, essa lógica deve ser adequada.
A tradição de basear o ensino jurídico no Brasil em livros extensos de dog- mática que se apresentam na forma de cursos é de pouco valia como instru- mento de ensino para acadêmicos do common law. Ganha relevância então a seleção de casos, ou mesmo a criação de casos hipotéticos que possam esti- mular os alunos do outro lado do mundo a se interessarem pela sala de aula transnacional. Nem sempre esse material está disponível em inglês, outro gran- de obstáculo. Portanto, exige-se do professor estrangeiro dedicação extra de pesquisa de materiais em inglês, ou ainda a criação desse material.
O material de casos ou de problematizações criadas é fundamental para o sucesso de um curso transnacional. Os acadêmicos do common law são treina- dos para resumir esses materiais e casos selecionados pelo professor em bre- ves memorandos. Os resumos são padrões, e orientam os acadêmicos também em suas vidas profi ssionais. Não podem ser mais extensos do que uma página e contêm o título do caso (o nome das partes), uma ou duas frases com os fatos, o resumo dos acontecimentos processuais até a situação em que se encontra o processo, as questões jurídicas levantadas, a decisão e racionalidade de sua aplicação, a norma legal criada e, se for o caso, um resumo do voto vencido. Esse exercício constante e repetitivo desenvolve a habilidade de identifi cação e enfrentamento dos problemas e deve ser ao máximo fomentado pelo profes- sor estrangeiro que se dispõe a enfrentar uma sala de aula transnacional.
No entanto, a common law americana não é constituída apenas de casos. Pelo contrário, atualmente boa parte do direito norte-americano é legislado. Quando este é o caso, a intenção do legislador, retratada pelos registros por escrito dos debates parlamentares de cada lei, é parte integrante da análise acadêmica e prática na interpretação do direito aplicável. Outros recursos como a norma mais específi ca, jurisprudência, analogia, costumes e doutrina, também são utilizados, porém com pesos distintos, principalmente a última,
tida como fonte secundária. Portanto, as avaliações acadêmicas possuem uma característica peculiar e forma estrita. Nesse aspecto, com boa dose de pre- paração, o professor de uma sala de aula transnacional ensinando direito bra- sileiro para acadêmicos de outras nacionalidades tem espaço para aprimorar muito as técnicas de ensino que podem depois reverter para o seu magistério na faculdade com a qual mantém vínculo no Brasil. Em outras palavras, a expe- riência com a sala de aula transnacional, se bem aproveitada, pode contribuir para o aprimoramento das técnicas de ensino do professor de Direito nos tra- dicionais cursos jurídicos do país.