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Araştırmanın Dayanakları

Belgede Toplumsal bir tip: Kanaat önderi (sayfa 126-133)

Essas refl exões sobre a globalização do ensino jurídico podem dar uma nova direção para a formulação de uma agenda de reformas no Brasil. Um dos prin- cipais problemas das faculdades de direito no Brasil é a captura do ensino e do pensamento pela profi ssão. Os professores de direito são em grande medida horistas e exercem uma dupla função professor-profi ssional. E, invariavelmen- te, a função de professor perde espaço para a de profi ssional. A lógica de suas profi ssões se impõe na sala de aula. Há um sequestro intelectual do ensino jurídico, que passa a servir aos interesses das ‘causas’ judiciais em pauta. Nesse contexto, pesquisa acadêmica nunca foi prioridade de fato — salvo raras exce- 23 Cf. Duncan Kennedy, vídeo, Global Dialogue on the Future of Legal Education, disponível

em: http://www.youtube.com/watch?v=eldHmK4wYcc .

24 Apesar de existirem críticas pertinentes, é importante notarmos também que no passado a relação entre faculdades de direito se dava em grande parte em termos de exportação de conteúdo e profi ssionais do Norte para o Sul. Hoje, estamos vivenciando uma situação mais horizontal entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente, Centro e Periferia. Vemos isso no surgimento de novas iniciativas que agregam faculdades de direito de diferentes partes do mundo, como, por exemplo, como a Law Schools Global League (cf. Oscar Vilhena, vídeo, Global Dialogue on the Future of Legal Education. Disponível em: http://www.youtube. com/watch?v=cYmGgtlaaAg.)

ções. A pouca cultura de publicação existente é quase que inteiramente focada em livros-textos (“manuais”). Tampouco existe uma preocupação com práticas pedagógicas. Uma premissa comum é que se você é um ótimo advogado, você é naturalmente um ótimo professor.25

Essa lógica perversa também defi ne os termos da relação professor-aluno. Estudantes no Brasil são em grande parte expostos a uma educação enciclopé- dica, com longas aulas expositivas. O direito é usualmente descrito e ensinado como um conjunto de proposições abstratas com lógica, método e linguagem próprios e sem conexões diretas com a realidade. Na sala de aula, argumen- tos de autoridade são prevalentes. Há pouca preocupação com rigor analítico, pesquisa empírica ou pensamento crítico26 ou criativo. Os alunos em geral não

aprendem a pensar sobre as diferentes formas pelas quais o direito dá vida às instituições de nossa sociedade e como estas podem ser reorganizadas de um número infi nito de diferentes formas. Igualmente, há pouco interesse em fomentar nos alunos a pesquisa ou discussões sobre temas socialmente rele- vantes que não estejam na pauta dos tribunais.

Outro lugar em que a captura do ensino jurídico pela profi ssão se mani- festa no Brasil é, durante a faculdade, no estágio profi ssional. A cultura, em grande parte alimentada pela profi ssão, é que estágio é essencial, muitas vezes praticado desde o início do curso. Essa cultura impacta direta e negativamente o foco do estudante em sua formação acadêmica. A faculdade passa a ser vista como um problema, do qual o aluno tem que se livrar o mais rápido possível. Falta dedicação em sala de aula e tempo no escritório. A pretensão de unir dois universos — academia e prática — acaba por não integrar nenhum.

Nesse meio, há uma premissa não dita que a razão de ser das faculdades de direito é somente formar advogados. Isso se concretiza, por exemplo, no favorecimento de determinados índices para suposta aferição da qualidade das faculdades de direito (e.g. exame da OAB). Essa visão é um equívoco. O ensino jurídico deveria ser enxergado como algo muito mais complexo. A faculdade de direito não é apenas um local de treinamento para o exercício de uma pro- fi ssão. Ela deve formar cidadãos capazes de compreender, interagir, criticar e também modifi car a estrutura social em um mundo globalizado. Para essa árdua tarefa, o mero treinamento “profi ssional” é inadequado.

Essa realidade contribui para um cenário de constante crise no ensino ju- rídico no Brasil. Contudo, tal como nos EUA, essas discussões em grande par- te repetem argumentos antigos. Isso difi culta a compreensão de que vivemos uma nova crise. Uma crise que não conhece fronteiras, que não diz respeito 25 Cf. Diogo Coutinho, Vídeo, Global Dialogue on the Future of Legal Education, disponível

em: http://www.youtube.com/watch?v=4XgKUdAvajQ. 26 Id.

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apenas ao ensino jurídico nos EUA, na Europa ou na América Latina (apesar de ter repercussões e consequências diversas em diferentes locais). Os elementos que constituem essa nova crise impõem novos desafi os ao Brasil, o que nos convida a refl etir como o ensino jurídico brasileiro também deve ser repensado à luz desses novos desafi os e dada nossas particularidades.

Acreditamos ser possível vislumbrar uma direção para uma nova agen- da de reforma do ensino jurídico no Brasil. Primeiro, as faculdades de direito devem migrar para um modelo no qual alunos e professores tenham como principal foco a faculdade. Um experimento é acabar com a jornada dupla para ambos. Alunos e professores poderiam ser tempo integral. Isso ajudaria a mi- tigar os efeitos da captura das faculdades de direito pela profi ssão jurídica e muitos de seus efeitos perversos.

Segundo, a estrutura curricular deve ser menos rígida. O conjunto de cur- sos obrigatórios deve ser diminuído em prol de um maior número de eletivas. Os professores devem ter fl exibilidade para ensinar, e os alunos para escolher, entre um leque de temas diferentes e atuais. O pretenso controle estatal do que é ensinado em sala de aula, além do viés questionavelmente autoritário, é base- ado em uma falsa premissa regulatória sobre as formas possíveis de controlar a qualidade dos cursos superiores. A mera previsão dos cursos obrigatórios para faculdades de direito não defi ne o que é ensinado, tampouco sua qualidade. Dois cursos com mesmo título podem ser ensinados de formas drasticamente diferentes e com qualidades altamente discrepantes. Além disso, a proposta de uma estrutura curricular mais fl exível é condizente com a constatação de que nossa realidade globalizada impõe novos e complexos desafi os para profi ssio- nais do direito. Esse experimento possibilita que alunos e professores possam focar nos desafi os intelectuais que afetam o país, a região e o mundo.

Terceiro, os escritórios-modelos devem ser substituídos por clínicas. O atual formato dos escritórios-modelos na maioria das faculdades de direito no Brasil tem em geral pouco planejamento pedagógico, é pouco estimulante para os alunos e tem benefícios sociais duvidosos. Um formato baseado em clíni- cas proporciona um amplo leque de diferentes experiências profi ssionais aos alunos sob a supervisão de professores. Por exemplo, entrevistar e aconselhar clientes, representá-los perante órgãos estatais, conduzir pesquisas e escrever diferentes pareceres e documentos, investigar e analisar documentos e fatos, desenvolver habilidade de negociação e colaboração com outros profi ssionais.

Para que essas experiências sejam signifi cativas, talvez seja importante que, em primeiro lugar, as clínicas não sejam obrigatórias, mas sim facultativas. Clínicas envolvem um alto grau de comprometimento e profi ssionalismo com uma causa alheia, além de uma boa dose de criatividade. Esses elementos não podem ser exigidos de alunos pouco estimulados. O argumento de que clínicas

são essenciais para a formação de advogados e, portanto, devem ser obriga- tórias para estudantes de direito, perde força quando aceitamos que faculda- des de direito não formam apenas advogados. Em segundo lugar, o trabalho desempenhado nas clínicas deve fazer sentido dentro de uma faculdade. Isto é, ele deve ser acompanhado de momentos de abstração e refl exão crítica. Para isso, as clínicas devem ser acompanhadas de um curso, com orientação criteriosa, durante o qual alunos e professor discutiriam livremente temas per- tinentes aos trabalhos desenvolvidos na clínica.

Por último, deve haver um esforço para internacionalizar os corpos do- cente e discente das faculdades de direito no Brasil. O ensino jurídico deve perder seu caráter provinciano. Devem-se adotar medidas que permitam e fa- cilitem que alunos em instituições de prestígio em outros países tenham uma experiência acadêmica signifi cativa no Brasil. A oferta de cursos em inglês — bem como em oturos idiomas — é importante nesse sentido. A disponibilização e atualização de informações e pesquisas na internet em inglês e português constitui outro exemplo banal, porém relevante.

Em relação aos professores, é importante que mantenhamos as portas abertas para profi ssionais de outros países. Em especial, mas não apenas, aos brasileiros que cursam parte de sua trajetória acadêmica no exterior. Vivemos um momento paradoxal onde um contingente cada vez mais signifi cativo de profi ssionais brasileiros altamente qualifi cados enfrentam sérias difi culdades para regressar ao Brasil e contribuir para o aprimoramento das faculdades de direito. Empecilhos irrazoáveis e corporativistas devem ser abandonados.

À medida que o país consegue atrair alunos e professores de qualidade para suas instituições, todos aqueles envolvidos nessas instituições ganham. Trocas de experiências, de pontos de vistas, de formação de uma rede de con- tatos mundial são exemplos claros de benefícios da internacionalização de nos- sas faculdades de direito. O mundo está se globalizando. As principais universi- dades do mundo estão seguindo. O Brasil não pode fi car para trás.

Conclusão

O último grande embate sobre o papel do direito e do seu ensino aconteceu nas décadas de 1970 e 1980, quando um momento de rebelião crítica — Critical Legal Studies Movement — denunciou, entre outras coisas, a face hierárquica da educação jurídica.27 Desde o Critical Legal Studies Movement, os termos do

27 Uma forma de entender a denúncia de que a educação jurídica é uma forma de treina- mento para a hierarquia é como a proposição de que as faculdades de direito criam um ambiente no qual os estudantes se submetem à, e internalizam a, ideologia da profi ssão principalmente através de uma serie de relações particulares entre os estudantes e seus superiores, primeiro os professores de direito e depois os sócios seniores dos escritórios de advocacia. Os estudantes pouco a pouco são ensinados a pensar que eles irão ter satisfa-

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debate sobre a crise jurídica pouco evoluíram, embora a dinâmica socioeconô- mica tenha se alterado substancialmente.

O século XXI introduz mudanças profundas na sociedade. O surgimento de novas tecnologias, a diversifi cação do comércio, as migrações crescentes e a emergência de novos atores globais no mundo em desenvolvimento contri- buem para acelerar a dinâmica de interação social em nossos dias. Tudo isso gera novos e mais complexos problemas e demandas sociais.

A difi culdade da academia e da profi ssão jurídica em lidar com esses pro- blemas e demandas constitui a nova crise do ensino jurídico. O Global Legal Education Forum representou um esforço para mapear os principais elementos e desdobramentos dessa nova crise. O trabalho está longe de terminar. A partir dessas e outras discussões, devemos avançar na formulação de uma agenda compartilhada de reforma da educação jurídica com um conteúdo institucional concreto. Esse artigo foi um novo esforço nesse sentido.

Referências

ASSOCIAÇÃO DE DOUTORANDOS EM DIREITO DA HARVARD LAW SCHOOL. Disponível em: <http://www.youtube.com/user/SJDHarvardTube>.

COUTINHO, Diogo. Global Dialogue on the Future of Legal Education. Disponí- vel em: <http://www.youtube.com/watch?v=4XgKUdAvajQ>.

FLAHERTY, Colleen. 2 Years for Law School?, Inside Higher Ed. Disponível em: <http://www.insidehighered.com/news/2013/08/26/president-obama-calls- -cutting-year-law-school>.

FRANK, Jerome. “Why not a Clinical Lawyer-School?”, 81 U. Pa. L. Rev. 907 (1932-1933), p. 915.

KENNEDY, Duncan. Global Dialogue on the Future of Legal Education. Disponí- vel em: <http://www.youtube.com/watch?v=eldHmK4wYcc>.

______. Legal Education as Training for Hierarchy, in D. Kairys, ed. THE POLITICS OF LAW, 1982, 2nd ed. 1990, 3d ed. 1998

ção em ser os agentes de seus superiores no mundo corporativo, ao invés de pensarem em si próprios como agentes políticos e morais livres. Cf. Duncan Kennedy, Legal Education as Training for Hierarchy, in D. Kairys, ed. THE POLITICSOF LAW (1982, 2nd ed. 1990, 3d ed. 1998).

POST, Robert. Global Dialogue on the Future of Legal Education. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=EWskffWYKmo>.

SEGAL, David. ‘Business of law schools is crazy’. Disponível em: <http://www. youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=afIhC1AKOQE>.

SPENCER, A. Benjamin. “The Law School Critique in Historical Perspective”, 69 Wash. & Lee L. Rev., 1949 (2012).

VILHENA, Oscar. Global Dialogue on the Future of Legal Education. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=cYmGgtlaaAg>.

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