• Sonuç bulunamadı

Önderliğini/Liderliğin Bileşenleri

O comentário com o qual abri o texto está equivocado, primordialmente, por confundir o tópico de pesquisa com a metodologia. Direito e Desenvolvimento é um tópico. O que agrega os pesquisadores de Direito e Desenvolvimento sob um mesmo teto é uma preocupação comum: o desenho das instituições de um determinado país pode contribuir para promover desenvolvimento? O modo como se vai responder a essa questão, todavia, vai depender da metodologia adotada. Alguns vão adotar a análise crítica do direito (Critical Legal Studies) para mostrar que há uma relação de poder por trás de propostas de reforma institucional, e que tais propostas em geral tendem a favorecer os grupos que as promovem (sem necessariamente promover desenvolvimento). Outros irão adotar Direito e Economia, analisando se algumas provisões geram incentivos

para atores racionais se comportarem de maneira efi ciente, ou não. Nesse sen- tido, um pesquisador brasileiro pode, obviamente, fazer Direito e Desenvolvi- mento e Direito e Economia ao mesmo tempo.

Um exemplo ilustrativo dessa diferença pode ser observado durante minha contratação na Faculdade de Direito da Universidade de Toronto, em 2006. Assim que cheguei, quatro colegas me levaram para almoçar. Todos ti- nham lido ao menos dois capítulos da minha tese de doutorado, que eu ha- via submetido à Faculdade no momento da minha candidatura. No almoço de boas-vindas, descobri que eles me consideravam uma adição ao grupo de pes- quisadores de Direito e Economia da faculdade. Para eles, minha tese de douto- rado, que discutia que tipos de incentivos tinham guiado o comportamento de diversos atores durante o programa de privatização no Brasil, era um trabalho de Direito e Economia. Eu, por outro lado, nunca tinha defi nido minha pesquisa como Direito e Economia. Fiquei curiosa com a classifi cação inusitada e decidi investigar a questão.

Depois de perguntar a vários colegas, descobri que havia divergências sobre o assunto. Vários acreditavam que meu trabalho não deveria ser clas- sifi cado como Direito e Economia, dado que eu não me concentrava na efi - ciência econômica e na discussão de provisões específi cas do aparato re- gulatório. Ao invés disso, meu trabalho capturava a dinâmica política por trás do desenho institucional adotado no Brasil. Ou seja, era um trabalho de “economia política”. Outros achavam que meu trabalho compartilhava muitos dos pressupostos de Direito e Economia, como a racionalidade dos agentes e a resposta a incentivos. Havia, além disso, outros pontos para sustentar a ideia de que eu tinha escrito uma tese de direito e economia. Primeiro, minha orientadora no doutorado é economista por formação e é vista como uma pesquisadora de Direito e Economia. Segundo, havia mais um economista no meu comitê, que, assim como minha orientadora, era formado em economia e produzia primordialmente trabalhos em Direito e Economia. Ou seja, eu tinha sido basicamente supervisionada por dois professores que fazem Direito e Economia.

Até hoje não sei se minha tese de doutorado deve ou não ser classifi cada como um trabalho de Direito e Economia. Vale notar que todos na Faculdade concordavam que eu fazia Direito e Desenvolvimento, ou seja, que eu inves- tigava se certos arranjos institucionais afetavam índices de desenvolvimento. A controvérsia era sobre o método que eu usava para responder a essa per- gunta. Enquanto uns diziam que meu método era Direito e Economia, outros afi rmavam que se tratava de um trabalho de Economia Política, que tem uma metodologia próxima de Direito e Economia, mas com um enfoque distinto. Vale ressaltar que ninguém sugeriu que minha tese podia ser classifi cada como

ENSINO JURÍDICO E PESQUISA EM DIREITO NAS AMÉRICAS 127

Análise Crítica do Direito (Critical Legal Studies). Em suma, havia uma diferença muito clara entre o tópico da minha pesquisa e a metodologia utilizada. Todos concordavam que o tópico era Direito e Desenvolvimento e era por isso que eu tinha sido contratada. A questão da metodologia não tinha sido determinante na minha contratação e ninguém parecia muito preocupado em defi ni-la com precisão.

Boa parte dos trabalhos que fi z depois de terminar o doutorado não ado- tam pressupostos tão fortes de comportamento racional e respostas a incen- tivos. E ninguém veio me cobrar algum tipo de coerência metodológica nesse sentido. Ao contrário, meus colegas de Direito e Economia reconhecem que minha análise de reformas judiciais e reformas da polícia no Brasil não se encai- xa tão bem no modelo do agente racional auto-interessado. Para eles, parece razoável assumir que um governo federal que esteja vendendo empresas de infraestrutura esteja operando dentro de uma racionalidade econômica. Já a violência policial e a violação de direitos humanos por parte da Polícia Mili- tar em diversos estados brasileiros seguem uma lógica muito distinta daquela seguida pelo agente racional auto-interessado. Nesse contexto, a economia é bem menos útil do que a sociologia, a história e a antropologia. Esse é o desa- fi o de quem quer estudar Direito e Desenvolvimento ou qualquer outro tópico substantivo de pesquisa: buscar a metodologia que pareça mais adequada para o tema investigado, ciente de que essa metodologia pode (e deve) variar de tema para tema.

Por diversas vezes, presenciei debates no Brasil em que o autor adotava a metodologia de Direito e Economia e o primeiro comentário que recebia era uma crítica generalizada à metodologia. “Não somos atores racionais como mostram fulano, sicrano e beltrano.” Sim, verdade. Não somos atores puramen- te racionais, nem puramente sociais, nem puramente nada. A metodologia é um corte da realidade. Portanto, a pergunta não é se a metodologia é perfeita ou imperfeita. A pergunta é se a metodologia parece adequada para respon- der à questão específi ca na qual o autor focou sua pesquisa. Somente ao se fazer essa análise de adequação da metodologia para cada caso concreto é que vamos conseguir deixar o diálogo avançar. A outra alternativa é concluir que todas as metodologias são falhas. Daí só nos resta desistir de toda essa empreitada acadêmica e ir para casa assistir novela.

Minha proposta é que a pesquisa jurídica no Brasil se preocupe mais em avaliar se o encaixe entre metodologia e objeto de estudo está funcionando. Adotar uma metodologia é simplesmente tentar achar mais um elemento que contribua para a montagem desse grande quebra-cabeça que são as ciências sociais. Só assim podemos tentar avançar: discutindo se um projeto de fato encontrou ou não mais uma peça do quebra-cabeça.

Conclusão

Salvo algumas exceções, o comentário com que iniciei o texto parece repre- sentar, de maneira acurada, alguns pressupostos antiquados que ainda guiam a pesquisa jurídica no Brasil. A ideia central deste pequeno ensaio foi sugerir que parte desses pressupostos parecem ser apenas reminiscências de um passado não muito longínquo no qual não havia pesquisa interdisciplinar nas faculdades de direito no Brasil. O que fazer com essas “Ideias Fora do Lugar”? Formulei três propostas concretas para tentar fazer com que esse esforço interdiscipli- nar siga um caminho um pouco mais promissor.

Vale notar que tais propostas não apregoam uma importação “pura” das ideias e práticas de outros países. Assim como Schwarz, acredito que existe a possibilidade de essa importação distorcida ganhar vida própria, e gerar algo genuinamente brasileiro.4 Mas para que essas ideias ganhem vida própria em

solo estranho, é preciso que se mantenham “suas pretensões” de origem. É com o intuito de manter essas pretensões que formulei as sugestões aqui apre- sentadas. Só assim podemos ter esperança de que elas possam fomentar uma mudança revolucionária na academia brasileira, seguindo a mesma trajetória das ideais liberais e do movimento abolicionista no Brasil.

Referências

SCHWARZ, Roberto. As Ideias Fora do Lugar. In: Ao Vencedor as Batatas: For- ma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977. (5ª ed., revista. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, 2000.), pp. 23-26.

4 “Pouco ajuda insistir na ... clara falsidade [das ideias liberais]. Mais interessante é acompa- nhar-lhes o movimento, de que ela, a falsidade, é parte verdadeira. Vimos o Brasil, bastião da escravatura, envergonhado diante delas (...) e rancoroso, pois não serviam para nada. Mas eram adotadas também com orgulho, de forma ornamental, como prova de moder- nidade e distinção. E naturalmente foram revolucionárias quando pesaram no abolicionis- mo. Submetidas à infl uência do lugar, sem perderem as pretensões de origem, gravitaram segundo uma regra nova, cujas graças, desgraças, ambiguidades e ilusões eram também singulares.”Roberto Schwarz, “As Ideias Fora do Lugar”, em Ao Vencedor as Batatas: Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977. (5ª ed., revista. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, 2000.), pp. 26.