Rodrigues (1983, p. 229) polemiza a idéia de que as sociedades atuais são negadoras da morte, fazendo uma alusão à constante apresentação da finitude humana nos meios de comunicação:
Não obstante nossa argumentação, tudo o que estamos dizendo poderia ser aparentemente contestado se ligássemos um aparelho de televisão. Este simples gesto poderia, à primeira vista, demolir todas as acusações de ocultação e negação da morte, dirigidas contra nossa cultura. Um gesto tão simples, que talvez tenha esta função de demolição como um dos seus deveres ocultos: como afirmar que existe todo um esforço social para escondê-la, como sustentar que só pode ser descrita através de eufemismos, como declarar que a educação das nossas crianças ignora a realidade da morte, como dizer que nossa sociedade quer expulsá-la, se os nossos jornais relatam e dissecam dezenas de mortes diariamente, se ela exerce fascínio e é ambicionada mercadoria jornalística [...].
Para Rodrigues (1983), as mídias alastram a impressão de um grande barulho e de uma intensidade ao se falar sobre a morte. O autor faz questionamentos sobre que tipos de morte são apresentados nos meios de comunicação e conclui que são simplesmente mortes que ocorrem sobre a tela da
televisão ou sobre um papel de jornal, mas que elas são incapazes de perturbar o ritmo da vida cotidiana. Tais mortes não levam o homem a pensar na decomposição humana, não o deixam frente a reflexões sobre a sua existência e não transformam as relações sociais. “São mortes excepcionais, pouco prováveis, violentas, acidentais, catastróficas, criminosas, ou que atingem pessoas importantes e excepcionais. Em suma: não são mortes” (RODRIGUES, 1983, p. 229).
O morto que é retratado nos meios de comunicação é desconhecido da maior parte dos espectadores, um estranho, não passa de uma pessoa qualquer. Para o público, o morto apresentado na mídia não atinge diretamente o seu cotidiano e não causa problemas à sua individualidade – a distância não permite a concretização da morte e deixa-a no âmbito dos acontecimentos inatingíveis. A tragédia é esquecida com a mesma facilidade com que entrou nas casas dos públicos. Não existe proximidade que faça com que haja um desgaste na relação entre o homem e a morte midiática; tal relação ocorre com distanciamento.
Pelo contrário, Morin (1997) explica que o homem sacia os seus desejos de sadismo, os quais são reprimidos pela ordem social, contemplando a morte nos meios de comunicação. Os desejos de crueldade e os assassinatos reprimidos pela ordem social podem ser personificados através dos fait divers13 apresentados na mídia. Conforme as palavras de Morin (1997, p. 114, grifo do autor):
À proliferação das violências imaginárias se acrescenta a vedetização das violências que explodem na periferia da vida cotidiana sob formas de acidentes, catástrofes, crimes. A imprensa da cultura de massa abre suas colunas para os fatos variados, isto é, para os acontecimentos contingentes que só se justificam por seu valor emocional.
Para o autor, através da cena midiática, o homem vivencia, com toda a segurança, a experiência da insegurança; presencia passivamente a guerra, vivencia passivamente a experiência do homicídio e “sofre” inofensivamente a experiência da morte. A violência na mídia não existe somente pela necessidade do
13Dejavite (2001) salienta que o termo fait divers, que foi introduzido Barthes, significa fatos diversos,
que estão relacionados a escândalos, curiosidades e bizarrices. Morin (1997) reflete fait divers nos meios de comunicação: “A imprensa da cultura de massa abre suas colunas para os fatos variados, isto é, para os acontecimentos contingentes que só se justificam por seu valor emocional” (MORIN, 1997, p. 114, grifo do autor).
homem de fazer a experiência do homicídio, mas pela sua necessidade de viver a morte, de conhecê-la. “Os grandes criminosos são, portanto, literalmente, os bodes expiatórios da coletividade” (MORIN, 1997, p. 115).
A presença de fait divers no espaço da imprensa se justifica pelo valor emocional que eles têm para os espectadores. Vivenciando os crimes, as tragédias e a morte através da mídia, os espectadores encontram os seus sonhos menos conscientes. As estruturas dos fatos variados estão relacionadas com as estruturas do imaginário do homem (MORIN, 1997).
O escancaramento da morte na cena midiática, na opinião de Rodrigues (1983), não passa da confirmação do tabu da morte. O autor diz que o que os meios de comunicação fazem não passa da venda para cada espectador dos seus sentimentos mais íntimos, que estão reprimidos no fundo de cada alma.
Dando a impressão de dizer o que não pode ser dito, os media dão a seus espectadores a impressão de sentir o que não pode ser sentido e, em lugar das perguntas sem respostas que toda morte comporta, oferecem respostas para as quais não houve perguntas – respostas que não se destinam a silenciar toda indagação, a abolir antecipadamente toda reflexão sobre o evento terminal da existência humana e sobre essa existência mesma. Por detrás desse rumor silenciante, mais uma porta se abre, pela qual a morte poderá ser integrada ao circuito econômico do lucro, colocando-se em vitrines, transformando-se em apelo para a venda das mercadorias da indústria cultural (RODRIGUES, 1983, p. 230).
Castells (1999) concorda com as idéias de Rodrigues (1983) quanto à lógica de que a apresentação excessiva da morte, na cena midiática, serve para reforçar o escamoteamento dela da sociedade. De acordo com o pensamento de Castells (1999), é tendência predominante das sociedades ocidentais o apagamento da morte do convívio social e fazer com que ela se torne inexpressiva pela sua repetição na cena midiática – sempre na forma da morte do outro. O homem contempla a morte do outro nos meios de comunicação e se distancia da sua própria morte. A sua própria morte acaba ficando no campo do inesperado.
A morte do outro se apresenta para o homem como uma possibilidade de experimentação da morte em vida. É a possibilidade de testar a morte sem estar tratando da própria morte (KOVÁCS, 1992). A possibilidade que o homem tem de se deparar, nos meios de comunicação, com o outro morrendo faz com que ele tenha a
sua individualidade fortalecida. O ser humano, ao contemplar a derrocada do outro, realiza a sua necessidade de passar por experiências de morte durante o seu viver e, ainda, sai como soberano na lógica de que é eterno durante a sua existência.
Para Barbosa (2004), na contemporaneidade há uma nova forma de ver a morte e essa representação é guiada pelos meios de comunicação. Os meios, na concepção da autora, mostram como devem ser os rituais diante da morte, os lugares de preservação da lembrança e os aspectos que devem ser levados em consideração em relação à finitude. Eles levam a morte até as casas dos espectadores, mesmo que a morte seja proibida nesse ambiente, e constroem o imaginário da morte, fazendo com que ela se torne pública.
Como já foi exposto neste trabalho, durante a Idade Média ocorriam mortes públicas, que eram antecedidas por reuniões de grande número de pessoas no quarto dos moribundos para presenciarem as últimas lamentações. Na contemporaneidade, como os rituais de morte são interditados pela sociedade, não há mais espaço para muitas lamentações e despedidas sobre a morte de um parente que faleceu. Assim, a experiência da morte se dá na cena pública através da contemplação da morte do outro. A morte ganha formato de espetáculo midiático. Na mídia não há mais leito, não há mais sofrimento. Os rituais ganham espaço com seu caráter mais dramático e excessivo. A vivência da morte, no espaço privado e tranqüilo do leito, dá espaço à contemplação do espetáculo midiático. Perante a cena da mídia, a comoção é aceita e permitida. É permitido chorar, não só pelas pessoas próximas, mas pelo desconhecido.
No mundo contemporâneo, marcado pelo individualismo, a morte deixa de ser gradativamente familiar e próxima, para ser cada vez mais a morte do outro. [...] Diante da cena midiática é espetáculo banal, mesmo que os gestos ritualizados devam ser dramáticos. O que importa são os instantes que antecedem ao desfecho previsível. Seja a crueldade, o assassinato frio e calculista, seja a doença interminável. Ambos interrompem uma trajetória (BARBOSA, 2004, p. 3).
Barbosa (2004) salienta que a televisão, nas suas transmissões cotidianas, constrói duas perspectivas de mortos: o morto comum, que é objeto da violência corriqueira, e o morto notável, que teve a sua vida dotada de atos evidentes. A
autora enfatiza que são as mortes de pessoas notáveis que aparecem como objetos das cerimônias da televisão. É destacada como espetáculo midiático a trajetória do morto quando era vivo, sendo mostrada como algo exemplar, que merece ser lembrada e cultuada. É característica do discurso midiático o enaltecimento das características “positivas” do grande morto, a ponto de torná-lo um herói diante do público, o que pode causar identificação.
A morte de alguém comum, para ganhar espaço midiático, tem que ser uma morte fortuita, uma ruptura, que tenha aspectos que possam tocar na intimidade do ser humano. A morte midiática não é corriqueira, ela é imprevisível, violenta e tem que significar uma ruptura.
No caso da morte violenta, a mídia explora o espetáculo da brutalidade que ocasiona a morte. Diante de um quadro de guerra urbana e de desigualdade social, que leva cotidianamente à proliferação da morte, os meios de comunicação têm um conjunto de elementos a sua disposição para construção de um espetáculo (BARBOSA, 2004). Toda a violência, que vai ocasionar a morte, passa a fazer parte do enredo midiático.
Os meios de comunicação dão aos espectadores a oportunidade de fazer a experiência da morte no cotidiano. Tal experiência tem a garantia de ser distante, de não bater momentaneamente à porta de quem a contempla, de não perturbar, o que faz dela perfeita. A apresentação da morte na cena midiática oportuniza ao público a discussão de um tema que lhe é ao mesmo tempo caro e maldito, que lhe causa sensações boas e ruins; uma verdadeira polêmica para histórica. Nada melhor para o homem que acessar a morte através do jornal ou pela televisão, assim ela fica longe de seu cotidiano.
Como mencionado antes, os mortos dos meios de comunicação são pessoas distantes do cotidiano dos espectadores. Ou são as super estrelas, os grandes mortos, que fazem parte do mundo dos sonhos, ou são pessoas que morreram em situações incomuns, mas são desconhecidos, anônimos, distantes. O sujeito, ao ver essas mortes, fica fortalecido; sai mais forte como indivíduo; foi o outro que foi atingido pela finitude humana. O consumo da morte na mídia faz uma mediação entre o homem e algumas das angústias que cercam a sua vivência. Consumir a morte na mídia vai muito além da simples contemplação de veiculações de meios de comunicação; é uma forma encontrada pelo espectador para “trabalhar” com um tema delicado e polêmico.