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Em um processo de inúmeras leituras e releituras do documento curricular, realizaram-se análises mediante o confronto com os Estudos Culturais e o multiculturalismo crítico, na tentativa de reconhecer e identificar o sujeito projetado e as principais características e concepções de Educação Física e prática pedagógica veiculadas pelo texto oficial.

Visando a uma maior explicitação do sujeito que se pretende formar, o mesmo procedimento foi utilizado para agrupar os objetivos da Educação Física e as expectativas de aprendizagem expressas no documento.

Durante a análise documental, identificamos alguns elementos que caracterizam a proposta e aspectos que a distingue de outros currículos. Assim, a partir do referencial teórico (Estudos Culturais e multiculturalismo crítico) e após realização da análise do documento é que definimos alguns eixos que inspiraram a procura por um relato de prática que pudesse ser utilizado para interpelar os professores participantes da pesquisa:

a) Função da Educação Física; b) Seleção dos temas de estudo;

c) Leitura/Interpretação e Ressignificação; d) Aprofundamento e Ampliação,

e) Diferentes significações (valorização dos representantes das práticas corporais);

f) Problematização das relações de poder; g) Registro e Avaliação.

A segunda fase do estudo foi realizada com professores de Educação Física que atuam na Rede Municipal de Ensino de São Paulo e que voluntariamente colaboraram com a investigação. Foram selecionados aqueles que alegam basear-se e desenvolver trabalhos de acordo com as Orientações Curriculares da SME/SP e que participaram de alguma ação de formação continuada oferecida pelo órgão que tenha abordado o documento.

Primeiramente, elaboramos uma carta-convite contendo as intenções, relevância, critérios e forma de participação da pesquisa39. Enviamos para os contatos que tínhamos recolhido nos cursos de formação durante nossa participação no Grupo Referência40. Os convites foram direcionados para professores pertencentes a todas as Diretoria Regional de Ensino – DREs41 de São Paulo, totalizando 263 contatos. Recebemos o retorno de 35

professores42 relatando o interesse em participar da reunião.

A adequação de um ou mais dias que contemplasse a maioria dos professores não foi algo simples de realizar, muitos apresentaram dificuldades devido à reposição de aulas referentes à greve realizada no primeiro semestre e à alta carga horária de trabalho durante a semana. Portanto, organizamos a reunião em um sábado à tarde em uma sala na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP, inicialmente prevista para a participação de 13 docentes43. No entanto, na data combinada apenas quatro

39 Ver Apêndice.

40 Outros colegas que participaram do Grupo Referência também nos disponibilizaram os contatos que

tiveram acesso durante os processos formativos.

41 No total treze, Diretorias de Ensino: Butantã, Campo Limpo, Capela de Socorro, Freguesia do

Ó/Brasilândia, Guaianases, Ipiranga, Itaquera, Jaçanã/Tremembé, Penha, Pirituba, Santo Amaro, São Mateus, São Miguel.

42 Inferimos que o baixo retorno pode estar relacionado a uma série de fatores como: endereço eletrônico

desatualizado, resistência em trabalhar com a proposta, desinteresse ou mesmo receio em ser participante de uma investigação, impedimentos pessoais, dentre outros.

43 Na semana da reunião encaminhamos aos professores um e-mail relembrando o dia e horário

professores compareceram44. Em respeito aos docentes presentes, provenientes de regiões diferentes da cidade de São Paulo, realizamos a reunião da forma planejada45.

Participaram do trabalho, a moderadora, o observador e um professor convidado. O papel da moderadora foi introduzir o assunto, garantir que o diálogo não se afastasse muito do tema, intervindo no sentido de facilitar as trocas e manter os objetivos do trabalho (GATTI, 2005) e que os diversos participantes tivessem a oportunidade para se expressar (FLICK, 2004). Tentamos proporcionar um ambiente tranquilo para que as diferentes opiniões emergissem sem nenhum tipo de pressão para entrarem em acordo.

Antes de iniciar o encontro, explicitamos genericamente os objetivos e procedimentos da pesquisa. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido46. A reunião foi gravada em vídeo e em áudio como forma de evitar qualquer imprevisto que surgisse em um dos equipamentos. Durou em torno de duas horas e meia.

Perante o baixo número de participantes, resolvemos realizar entrevistas ao invés de marcar um novo encontro com grupo focal, pois, assim, conseguiríamos adequar melhor os dias e horários para dialogar com outros docentes. Enviamos novamente um e-mail convidando aqueles professores que demonstraram interesse em participar e para mais alguns contatos que obtivemos. Cinco entrevistas foram efetuadas47, e, em uma

delas, dois professores pertencentes a uma mesma escola participaram conjuntamente. Os locais para a realização das entrevistas foram aqueles que melhor atendiam os docentes e nos quais pudéssemos conduzi-las com tranquilidade e sem interferências. Foram realizadas em salas reservadas nas escolas em que atuam ou na biblioteca. Utilizamos nas entrevistas o mesmo material disparador das discussões do grupo focal e os mesmos equipamentos de gravação.

Todas as falas foram transcritas e retornaram aos docentes via correio eletrônico para corroborarem as ideias ou realizarem modificações que julgassem necessárias, antes de começarmos as análises. Por fim, conseguimos com o grupo focal e as

44 Recebemos alguns e-mails (de forma tardia e posteriormente a realização do grupo) justificando a falta

devido as reposições de greve que, muitas vezes, segundo esses docentes eram marcadas e melhor organizadas em última hora e por imprevistos pessoais.

45 De acordo com a literatura o grupo focal é constituído geralmente por seis a doze participantes. 46 Ver Apêndice.

47 Vale destacar que no total foram realizadas seis entrevistas, no entanto, uma delas não foi utilizada no

relatório, pois após a sua realização o docente não retornou os contatos realizados via e-mail e telefone para ratificar a transcrição das falas. Portanto, interpretamos que o docente preferiu se retirar do processo da pesquisa.

entrevistas contemplar as diferentes regiões de São Paulo, zonas norte, sul, centro, leste e oeste.

Em relação ao instrumento para disparar as discussões e coletarmos os dados, utilizamos o relato de experiência intitulado Projeto Futebol Soçaite48. Solicitamos aos docentes primeiramente a sua leitura na íntegra para posteriormente encaminharmos as problematizações. A partir dos eixos elencados com base na análise documental, elaboramos questões baseadas no relato de experiência para serem discutidas pelos professores.

a) Função da Educação Física

O professor do relato de experiência utilizou algumas atividades de ensino para conduzir o projeto de estudo, como por exemplo: - a organização de grupos para a construção de novos formatos do jogo; - entrevista com praticantes de futebol; - pesquisa na internet; - investigações sobre as características da manifestação corporal; - assistência a filmes, dentre outros. Em relação as atividades adotadas para conduzir as aulas, elas são condizentes com a função da Educação Física na escola? Em qual sentido? Qual o objetivo da EF escolar?

b) Seleção dos temas

O professor relata que olhou certos elementos para escolher a prática corporal a ser estudada, ele aponta para a relação com o Projeto Pedagógico e fatores que encontrou no seu mapeamento inicial (campos de areia e grama sintética, observou que vários alunos, familiares, vizinhos frequentavam esses espaços, tanto por meio de escolinhas de futebol como por meio de seu aluguel). O que vocês pensam sobre os elementos que o professor se baseou para escolher a prática corporal? Concordam ou discordam com tais elementos? Em quais aspectos? E por que?

- Subtema - trabalho com a produção de diferentes grupos culturais.

No projeto da escola o professor relata que os docentes daquela instituição entenderam que era importante trabalhar aspectos relacionados as problemáticas de consumo, preconceito social e de gênero. O professor de Educação Física elegeu o futebol soçaite, ele poderia eleger outras manifestações para trabalhar essas

48 O relato foi retirado do livro Ensino de Educação Física de Marcos Garcia Neira. Trata-se de uma

experiência desenvolvida em uma escola de Ensino Fundamental de São Paulo. Adaptamos o texto retirando os trechos em que o autor do livro tece comentários sobre a experiência pedagógica.

problemáticas? Se isso acontecesse na sua escola, quais opções poderiam ser desenvolvidas? Há alguma restrição? Qual e por que?

c) Leitura/Interpretação e Ressignificação

Após conversa com os alunos sobre a temática, o professor dividiu a turma em grupos para que eles criassem formas de organizar a prática corporal, foco de estudo, na escola. Um grupo apresentava sua proposta de vivência e o restante dos alunos ficou com a responsabilidade de analisá-la. Essa atividade prosseguiu durante o projeto, junto com outras, como investigações, discussões. O que vocês pensam sobre esta atividade adotada pelo professor? Para vocês o que o professor pretende com isso? O que lhe chama a atenção e por que?

d) Atividades de Aprofundamento e Ampliação

Em certo momento o professor traz um texto com a história da modalidade e em outro momento apresenta um trecho do filme “Boleiros” em que um ex-jogador de futebol relata sobre as dificuldades de lidar com o fim da carreira. Qual a opinião sobre essas atividades desenvolvidas pelo professor? O que os alunos estão aprendendo com isso?

e) Diferentes significações (valorização dos representantes das práticas corporais);

Em certo momento do relato o professor propôs aos alunos uma entrevista com praticantes de futebol (do soçaite e de outras modalidades, professores de escolinha, mulheres praticantes). O que vocês destacam nessa atividade adotada pelo professor? Para vocês por que será que o professor pensou nessa atividade?Concordam ou não com a atividade proposta? Em qual sentido? Por que?

f) Problematização das Relações de Poder

Durante o trabalho com o futebol o professor deparou em determinados momentos com opiniões diferentes entre os alunos (sobre a participação restrita de certos grupos como público feminino e aqueles em desvantagens sócio-econômico) e situações de menosprezo durante as vivências por quem não jogava de acordo com as expectativas de alguns alunos, a divisão desequilibrada entre as equipes. A partir dessas constatações o professor buscou desenvolver certas investigações com os alunos

para entenderem essas questões. Qual a opinião de vocês em relação à postura do professor? Por que olhar para essas questões?

g) Registro e Avaliação

Durante o trabalho o professor elaborou e utilizou de certos registros (caderno de Educação Física, anotações, cartazes, construção de um livro de regras do soçaite “da sala”, gibi, dentre outros). O que vocês destacam nesse processo? Na opinião de vocês por que o professor procurou registrar o processo? qual o sentido de registrar o trabalho? O que vocês pensam sobre a avaliação em Educação Física?