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DEVLETÇİLİK POLİTİKASI DOĞRULTUSUNDA BALIKESİR’DE TARIM ALANINDA YAŞANAN GELİŞMELER (1929-1938)

DÜZENLEMELER VE UYGULAMALARI (1923-1938)

4. DEVLETÇİLİK POLİTİKASI DOĞRULTUSUNDA BALIKESİR’DE TARIM ALANINDA YAŞANAN GELİŞMELER (1929-1938)

A partir da negritude, Aimé Césaire fala a respeito do branco colonizador, ele desconstrói a ideia de colonização como processo civilizatório e de evangelização necessária aplicada aos povos primitivos não-brancos (Césaire, 1971, p. 5-79). Para Césaire, a colonização foi um processo violento cujos efeitos se estenderam em outras formas de subjugação, um neocolonialismo depois do seu fim, refiro-me em termo de “tempo” (datação histórico-política) (Hall, 2003, p. 101-128). Restringindo-me ao colonialismo inglês e português, ou melhor, ao branco inglês e ao branco português, quem seriam esses colonizadores?

Albert Memmi, ao “retratar o colonizado e o colonizador”, aborda a questão de uma maneira genérica, no entanto, muitas de suas análises cabem, aos colonialismos: ibérico e anglo-saxão, apesar de distintos. Especialmente, quando se refere a sutil persuasão, além, da imposição direta praticada pelo colonizador com o intuito de introjetar no colonizado a idéia de que ele é inferior. Por outras palavras, sua inferioridade seria um dado natural, portanto, inquestionável, nesse caso, seria prudente para o colonizado se conformar (Memmi, 1989, p. 83). Dessa forma, seria natural o antagonismo colonizador-colonizado. Seria um dado da

12 Adiante, voltarei ao tema, neste capítulo, no item, A parte negra do branco e os limites para “manipulação” do

natureza o lugar de superioridade que o colonizador ocupa. Nessa perspectiva, esvazia-se a construção histórico-cultural-econômica desse antagonismo.

O colonizador torna-se bem-sucedido quando introjeta no colonizado “o complexo de dependência”, “complexo de inferioridade” (Fanon,s/d[1952],p.37-39). No caso, o colonizado seria uma criança dependente, enquanto o colonizador seria um ser “superior”, adulto, independente e sem parâmentros, sua medida seria a si próprio. Um ser narcísico enamorado pela sua própria imagem (Bento, 2002b), enamorado pelo seu próprio ser social. O retrato do colonizador, aparentemente, reflete a si mesmo. Digo “aparentemente”, porque, na realidade, o branco, diante do espelho, não enxerga nada, pois sua imagem não é refletida no espelho, o branco é um Drácula13. Um personagem sedutor que possui o corpo desejado por todos “não-

Dráculas”. Corpo que o próprio não consegue observar diante do espelho, corpo que o próprio não consegue perceber da mesma maneira que os “não-Dráculas”, os não-brancos.

Quanto ao colonizado, ao se colocar diante do espelho, enxerga o colonizador. Enxerga-se como colonizador. Assim como todos os não-brancos, “não-Dráculas”, como africanos, negros que, quando estão vivendo o processo de branqueamento, enxergam-se como brancos, isto é, vivenciam um forte processo de rejeição de si (Fanon s/d[1952]). Porém, no caso do não-branco, é diferente. O negro, mesmo quando nega a si mesmo, consegue enxergar o Outro, o humano, o branco. O negro enxerga o branco como humano ao rejeitar a própria humanidade.

Por outro lado, o branco, ao focar os olhos somente para si, ao não enxergar o negro como humano, humanidade reflexo de si, ao não enxergar o negro como o outro lado do espelho, acaba por não enxergar a si mesmo. A imagem do branco refletida no espelho não é sua própria imagem, no máximo é uma foto14, uma figura congelada, petrificada, imóvel. Imagem que não envelhecerá ou morrerá. Enquanto o negro possui como parâmetro o branco, o branco não possui parâmetro por ser sua própria medida, ou branco é o próprio parâmetro de si, uma medida de si mesmo15, cega (Martins, 2006, p. 28).

O branco em virtude de não se enxergar16 impossibilita-o de ser, inclusive, parâmetro

de si. Ele somente enxerga o não-ser, o Outro não-branco. Significa isso que o branco se enxerga pelo contraste daquilo que “Não-É”. O que equivale dizer, colonizado, africano, negro, “desumano”. O branco ao atribuir somente a si a humanidade, ao não enxergar o Outro

13 Voltarei neste tema no Capítulo 4.

14 Neste caso a metáfora seria o branco como fotografia e não o branco como Drácula. 15 Cf. O branco Narciso no Capítulo 4.

16 Falo de cegueira no sentido metafórico que atribui José Saramago no Ensaio sobre a cegueira. Ao utilizar o

termo, não pretendo menosprezar ou diminuir pessoas portadoras de necessidades especiais, maiores informações sobre o tema cegueira Cf. Martins, 2006.

como humano, evidencia que possui uma imagem distorcida do Outro, e de si mesmo. Portanto, possui uma “espécie de cegueira”, descrita no belo romance de José Saramago Ensaio sobre a cegueira. “Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem; cegos, que, vendo, não veem” (Saramago, 1995, p. 310).

O branco que não se enxerga (Santos, 2002, p.226-235), o branco como uma imagem distorcida de si e do Outro é o branco colonizador, é o retrato do colonizador (Memmi,1989, p. 21-50). Padrão cultural, físico e moral que levou o colonizado, e ainda, leva muitos negros a desejarem ser como ele, ou melhor, ser ele. Abreviando, o que significa ser branco fruto da colonização, afinal? Poderia esboçar como resposta ser “cego” sobre si e, ao mesmo tempo, possuir uma imagem distorcida a respeito do Outro. A cegueira a respeito de si e a distorção a respeito do Outro é aquilo que o negro ambiciona quando deseja ser branco. Isso é um dos significados realista do que é ser branco fruto da herança colonial. Para finalizar, diria que um grande passo será dado quando o branco enxergar-se e enxergar os Outros. Enxergar no Outro, por exemplo, o negro, a si mesmo, o humano.

3.1 A escravidão e a estereotipação do branco português

O modo de produção escravista e o negro explicam porque somos uma nação que simboliza o atraso (Schwarcz, 2007, p. 36), de forma oposta, os Estados Unidos representavam o modelo de desenvolvimento. Para Florestan Fernandes, a escravidão teria “deformado” o negro:

(...) A escravidão deformou seu agente de trabalho, impedindo que o negro e o mulato tivessem plenas possibilidades de colher os frutos da universalização do trabalho livre e em condições de forte competição imediata com outros agentes humanos. Como escreve Caio Prado Jr., “realmente a escravidão, nas duas funções que exercerá na sociedade colonial, fator de trabalho e fator sexual, não determinará senão relações elementares e muito simples. O trabalho escravo nunca irá além do seu ponto de partida: o esforço físico constrangido; não educará o indivíduo, não o preparará para um plano de vida humana mais elevado. Não lhe acrescentará elementos morais; pelo contrário, degradá-lo-à, eliminando mesmo nele o conteúdo cultural que porventura tivesse trazido do seu estado primitivo”. Em síntese, a escola da escravidão não formou, apenas, o agente do trabalho escravo: deformou-o. (...) (Fernandes, 1978, Vol.1, p. 52).

Maria Aparecida Bento inquire Florestan Fernandes: A escravidão não teria também “deformado” o branco? (Bento, 2002a, p. 49). O patrimonialismo, o clientelismo, a aversão ao trabalho manual, o preconceito social, o preconceito racial, a mentalidade arcaica da

burguesia17 seriam heranças da escravidão (Campos, 1999, p. 32). Nesse sentido, o nosso

subdesenvolvimento seria fruto de nosso traço iberista, tropical, católico. De sua parte, Maria Aparecida Bento leva-nos a observar o impacto da colonização para além do negro, já que nos estimula a analisar o efeito do modo de produção escravista para sociedade brasileira de forma geral (Nogueira, 2010, p. 40).

Porém, quando se refere à escravidão, fala-se de “escravo”; quando se fala de escravo associa-se diretamente ao negro. Ou se preferirem, a palavra escravo é entendida como sinônimo de negro. Dessa maneira, a escravidão seria um fenômeno que diz respeito somente ao negro, automaticamente, resulta no esquecimento do colonizador, do escravizador, ou mais concretamente, do branco. Além disso, naturaliza o negro como escravo, ou descendente de escravo, diferente de considerá-lo um humano que em determinado momento histórico foi escravizado. Dagoberto José Fonseca discorre a respeito:

(...) Essa redução ao paradigma da natureza do escravo tem o sentido de manter a escravidão no imaginário social das populações. Portanto, quando se afirma que na África já existia a instituição da escravidão, busca-se informar ideologicamente que o Europeu não fez nada de errado, a não ser manter o africano em sua natureza. (...) (Fonseca, 2008, p. 30-31).

A lógica de raciocínio que naturaliza o negro como escravo, ao mesmo tempo, leva de forma sutil no decorrer do tempo o esquecimento do opressor. O esquecimento é o primeiro passo, o segundo passo é a invisibilização do branco no papel de escravizador. Por isso, a imediata associação de escravidão à deformidade do negro, esquecendo-se dos outros “prováveis” deformados como o branco e o indígena18.

O processo de invisibilização do branco e o “escanteamento” do indígena leva à super- visibilização do escravizado, tornando-o o principal responsável pelos males da nação brasileira. Em contrapartida, a invisibilização do escravizador torna-o personagem secundário, portanto, com menor responsabilidade. Por outro lado, se procurarmos visibilizar o branco, enxergaremos o branco português. Ele é o escravizador. O português que representa um colonialismo “fraco”, mentalidade arcaica e império periférico (Ribeiro, 2003). Ser atrasado é a característica comum entre o branco português e o negro africano. São atrasados, porém, em categorias distintas: o branco é o escravizador e o negro o escravizado.

A modernização brasileira trará outros personagens, faço menção ao fenômeno da imigração europeia no século XIX. Diante do novo contexto, o branco português escravizador deve se modernizar, se integrar a sociedade industrial emergente, superar sua antiga condição

17 et al.

18 A respeito do indígena tratarei mais adiante, neste Capítulo, no item 7.1 O branco brasileiro ser não-hifenizado

social (Cândido, 2001, p. 269-283), ou correrá o risco de se tornar estereótipo, caricatura, etnia. Um personagem folclórico, um “tuga”19 resquício do passado (Hasenbalg, 2005, p. 82). O português, da mesma forma que o africano, representa um período histórico pré-capitalista que o projeto desenvolvimentista rejeita quando possui a lógica de rompimento com o passado (Brandão, 2005, p. 10). A consequência da imigração europeia será a invisibilização e estereotipação do branco português (Fonseca, 2012), do branco colonizador pioneiro. Passa-se a visibilizar “o branco imigrante”, o branco italiano, por exemplo. Na medida em que se focaliza o branco da imigração e se invisibiliza o branco da colonização (pioneiro), esquece- se do branco que simboliza o atraso. Ele torna-se resquício do passado.

A visibilização do branco imigrante fortalece a ideia de que o Brasil, finalmente, estava sendo povoado por “branco-mesmo”, caso dos italianos20. Nossa nação estava a

caminho do desenvolvimento, pois, finalmente recebia em sua terra o branco, o símbolo do progresso (Schwarcz, 2007, p. 28-37), símbolo da “sociedade desejada” por algumas de suas elites brancas. O ideal do branqueamento contribui para esquecimento do branco português ou sua transformação em estereótipo. Em resumo, diria que o ideal do branqueamento é um projeto de nação que se deseja branca (Munanga, 2004, p. 61; Sodré, 2010, p. 327). Se fosse possível mudar a história, escolher o colonizador, alguns fantasiavam que o Brasil seria melhor desenvolvido, se tivesse sua colonização britânica, dessa forma, seríamos os “Estados Unidos da América do Sul”. No entanto, o projeto de colonialismo inglês e o português eram diferentes (Holanda, 1995; Souza, 1998), o que resulta em nações pós-coloniais distintas, além de outras razões.

Quanto aos negros, eram pessoas e grupos indesejados, já que não combinavam com a sociedade capitalista industrial emergente. Seu próprio corpo simbolizava o resquício do passado. Diferente do branco, pois, na Europa central, encontram-se aqueles grupos étnico- raciais desejáveis para povoar o Brasil. No que diz respeito ao negro, inexistem grupos e pessoas desejáveis, são todos malvistos. Se, por um lado, o branco português representava o atraso, por outro, o branco italiano simbolizava o progresso21. No caso dos africanos, de

qualquer parte, significavam atraso, todos eram mal conceituados, sem exceção. Isso poderia fazer com que algumas das novas gerações de negros optassem por se tornar branco, caso o fenótipo permitisse. No vigor do ideal do branqueamento, muitos queriam ser brancos

19 Maneira pejorativa que o colonizado refere-se ao colonizador português.

20 O tema será abordado com maiores pormenores, neste capítulo, no item 7. O branco-branco, o branco

imigrante.

21Em verdade, o “branco italiano” não era o branco mais desejado pela intelligentisia para povoar o Brasil. Eles

preferiam os alemães. No entanto, por falta de brancos de maior hierarquia (numa comparação entre os próprios brancos), o italiano serviu ao propósito simbólico de representar o progresso no contraste com o negro.

(Ramos, 1995[1957]b, p. 234-235), quando branco, queria ser ainda mais branco, ser branco- branco, isto é, branco-mesmo.