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DÜZENLEMELER VE UYGULAMALARI (1923-1938)

3. İZMİR İKTİSAT KONGRESİ KARARLARI DOĞRULTUSUNDA BALIKESİR’DE TARIM ALANINDA YAŞANAN GELİŞMELER (1923-1929)

3.4.1. Çiftçinin Kuraklıkla İmtihanı

Ao estudarmos Botucatu entre os anos de 1928 a 1934, identificamos nos jornais locais, discursos que realçavam as mudanças, reformas e melhoramentos das infraestruturas urbanas naquele período eram identificados enquanto medidas que modernizariam a cidade. Entretanto, entendemos que a modernização da cidade de Botucatu é um processo mais amplo que os anos por nós escolhidos para essa análise. Inicia-se antes de 1928, com o alinhamento e nivelamento das principais ruas e criação da Avenida Floriano Peixoto e estende-se além de 1934, visto que a cidade ainda receberia no final de 1930 a criação de sua Radio Difusora, bem como havia a discussões para a criação de um “campo de aviação”, símbolos da modernidade das cidades do interior paulista na década de 1930.

Entendemos que haviam vários elementos em Botucatu e em discussão por meio de seus jornais que identificavam como necessários ou como decorrência da modernização da cidade. Dentre eles, destacamos os melhoramentos na infraestrutura urbana (distribuição de água e esgoto, a busca por profissionais como engenheiros para solucionar o problema), a expansão dos bairros, a energia elétrica e os aparelhos eletrônicos, o cinema, as casas comerciais e suas vitrines, as indústrias e também, a ferrovia e suas estruturas.

Dentre nossos objetivos, investigarmos as relações entre ferrovia e cidade no interior paulista, mais especificamente, Botucatu e a Estrada de Ferro Sorocabana. Optamos por um recorte temporal entre os anos de 1928 a 1934, período o qual a companhia ferroviária estava colocando em prática seu projeto de reformas e ampliação de sua estrutura ferroviária. A cidade de Botucatu abrigou novas edificações relevantes para a operação ferroviária naquele momento: como as oficinas e depósito de máquinas para o reparo do material rodante, bem como teve os prédios do armazém e da estação ampliados e reformados. Neste sentido, nosso objetivo seria compreender a perceplão por parte dos jornais de Botucatu sobre tais melhoramentos ferroviários, sobre a própria companhia e seu funcionamento: estas estruturas e a presença da ferrovia, eram discutidas pelos jornais sob a perspectiva de que ambas engendravam ou transmitiam uma sensação da “modernidade”?

Para podermos discutir com melhor embasamento o conceito de modernidade para ambos os jornais, elencamos algumas leituras que tratam sobre o tema, mais precisamente para aqueles que dialogam com as reformas e espaço urbano. Contudo, como em nosso caso consiste na discussão no interior paulista, voltamo-nos primeiramente para discutir sobre os elementos que engendraram e intensificaram o desenvolvimento urbano do Estado de São

Paulo. Desde a formação dos patrimônios religiosos, até aqueles formados ou desenvolvidos pela economia cafeeira. Nesse movimento, também ressaltamos a presença da ferrovia, dos imigrantes como mão-de-obra rural e urbana, bem como na criação de estabelecimentos comerciais e industriais, até a ação do próprio Estado na organização e execução de projetos que visavam a integração e urbanização do território paulista.

Ao analisarmos as matérias, notícias e crônicas do Jornal de Notícias, Correio de

Botucatu e Folha de Botucatu, percebemos que havia uma discussão sobre a cidade, entre as

quais, aquelas que envolviam reformas e ampliações das infraestruturas urbanas entendidas pelos periódicos enquanto necessárias ou como consequências da “modernização” da cidade. Dentre elas, ressaltamos o calçamento das ruas e avenidas, o serviço de água e esgoto, por exemplo. Também havia uma preocupação e debate sobre os locais de uso público e privado no que se refere à estética urbana, como praças e os estabelecimentos comerciais de Botucatu, e a relação destes com a aparência da cidade, sobretudo, quando localizados na área central. Os jornais estudados também faziam algumas referências quanto aos produtos comercializados, os espaços de entretenimento como os cinemas e as indústrias da cidade.

Nesse processo, conseguimos identificar uma carga simbólica sobre essas edificações ferroviárias e infraestruturas urbanas, que compunham uma “experiência urbana”. Resultante inclusive pelo contato com espaços de sociabilidade (como cinemas) produtos e tecnologias que modificavam não apenas a aparência e a estética da cidade, mas também transformavam os costumes e hábitos dos cidadãos. Ao nos defrontarmos com estas discussões, percebemos nos jornais de Botucatu, um discurso que evoca a modernidade. Buscamos identificar as relações dos jornais com grupos sociais e políticos, tanto em nível municipal e estadual. Uma expressão à que se atribuía sentidos diversos, sendo em alguns momento contraditórios e em noutros, em consonância com desejos e valores de grupos econômicos e sociais (empresários locais ou de ferroviários) os quais os jornais representavam e/ou buscavam se identificar.

Ambos os jornais caracterizam a criação de novos bairros e a expansão da área urbana como uma consequência do “progresso” de Botucatu. Como exemplo, a necessidade de ampliar a ligação entre os bairros mais periféricos com o centro da cidade, no caso da Vila Maria e a estação da Estrada de Ferro Sorocabana. Ao discutirem as razões para a construção de vias que interligassem esses dois espaços, o Jornal de Notícias ressalta a necessidade de criar largas e grandes avenidas que interligassem as regiões mais distantes com o centro e a as áreas principais da cidade, como a estação. Como justificativa, o Jornal visava a melhoria no tráfego de mercadoria e automóveis em direção à estação, principalmente por dois motivos: devido a ampliação dos armazéns da Estrada de Ferro Sorocabana na cidade; e a Vila Maria

ser um bairro onde estava localizado indústrias, residências da classe operária e um crescente número de estabelecimentos comerciais. O Correio de Botucatu também se manifestou sobre a necessidade de interligar a Vila Maria com a área central da cidade. Contudo, seu discurso para justificar a construção da via estava no ideal de conforto para a população, em decorrência do aumento do número de habitantes daquela região. A ideia de modernidade para o Correio estava muito entrelaçada com o valor de conforto, bem como aqueles referentes à higiene e a estética, como quando comenta sobre a pavimentação das ruas e o ajardinamento das praças públicas.

Esse tripé de valores (higiene, estética e conforto) caracteriza a ideia de modernidade para o Correio de Botucatu. Ao comentar sobre a inauguração do Cine Cassino, destaca no novo prédio justamente sua estética e arquitetura, a higiene e conforto das instalações e do interior do espaço moderno, identificando o novo local de entretenimento como estando a “altura do progresso” de Botucatu. O mesmo ocorre quando trata sobre o Mercado Municipal e as estruturas ferroviárias, na ocasião das reformas e ampliações dos armazéns da Estrada de Ferro Sorocabana, caracterizados enquanto “pardieiros”, que não estavam mais em acordo as demandas da cidade, sobretudo no que se refere a estética urbana desejada pelo jornal. Ao tratar da construção do prédio da estação, identifica sua estrutura e arquitetura como elementos que intensificam e que compõem a transformação da imagem de Botucatu como cidade “moderna”, devido à estética da nova estação.

Em consonância com esses valores, o Jornal de Notícias também destaca a nova estrutura do Cine Cassino, mas ressalta os equipamentos utilizados a projeção dos filmes. Por representar os comerciantes e industriais locais, ressalta as instalações e as máquinas utilizadas para reforçar uma imagem de cidade “moderna”. O mesmo acontece quando da inauguração do Cine Paratodos e na matéria apresentada pela Folha de Botucatu, sucessora do Jornal de Notícias. Além de exaltar o prédio e sua arquitetura, destaca as “modernas e grandes concepções cinematográficas que assombram pela técnica, pela grandiosidade, pela riqueza, pela audácia e pela beleza que nela se contém”. Discurso que visa exaltar os empresários de Botucatu, que por meio de suas iniciativas e empreendimentos, ajudavam a promover a “modernização” da cidade. Assim como no conjunto de matérias que tratavam sobre algumas indústrias locais, a Folha de Botucatu preocupava-se em ressaltar o processo de produção e o funcionamento dos equipamentos destes estabelecimentos, identificando estes enquanto transformadores da cidade e que, segundo a Folha, reforçam uma imagem de Botucatu “moderna”, ou seja, industrial.

A proximidade do Jornal de Notícias e da Folha de Botucatu com os comerciantes e industriais também pode ser observada quando tratam da Estrada de Ferro Sorocabana, principalmente sobre o serviço rodoviário. Ao tratar enquanto uma exigência “moderna”, o

Jornal de Notícias ressalta a maior facilidade e rapidez no despacho de mercadorias e

principalmente, no menor preço cobrado no frete, fator que beneficiaria diretamente os comerciantes e industriais que utilizavam a companhia ferroviária. O mesmo quando comenta sobre a inauguração do novo prédio da estação e destaca a fala do prefeito Carlos Cesar, ex- presidente da Associação Comercial de Botucatu. Tanto o Jornal de Notícias como a Folha

de Botucatu identificam o comércio e as indústrias como elementos que transformam e

“modernizam” a cidade, visto as ações de seus proprietários nas reformas dos estabelecimentos, na comercialização de produtos ou na produção industrial que alcançam e levam o nome de Botucatu a outras cidades.

Já o Correio de Botucatu, ao tratar das novas estruturas ferroviárias ou dos desdobramentos da interação ferrovia e cidade, como em relação à greve dos ferroviários, utilizam destes fatos para legitimar sua posição política partidária. Principalmente a partir de 1933, quando o diretor do jornal assume a administração da prefeitura, utilizando da organização e projetos da companhia ferroviária para legitimar a gestão de Deodoro Pinheiro a frente do governo municipal, por exemplo.

Por outro lado, a Estrada de Ferro Sorocabana, ao executar seu projeto de reformas e ampliações de suas estruturas, fazia-a a partir de um planejamento pré-estabelecido. Sendo assim, priorizava as regiões com maior demanda, sobretudo aquelas nas zonas de nova produção, como Alta Sorocabana. Entretanto, não conseguimos identificar a percepção da companhia sobre Botucatu, com exceção da construção das oficinas e depósito de máquinas na cidade. Mesmo sendo um segundo plano no projeto da empresa, a escolha por construir tais imelhoramentos ferroviários em Botucatu, deveu-se as infraestruturas que a cidade oferecia naqueles anos, como escolas, habitações e o próprio movimento comercial.

Em vias de conclusão, ambos os jornais dialogavam, pensavam e desejavam uma cidade “moderna” e em constante “progresso”. Seja devido a presença da ferrovia e de suas estruturas, as reformas das edificações com outro padrão arquitetônico, seja devido ao movimento comercial e industrial, que colocava novos produtos à disposição dos clientes locais e possibilitava novas experiências. Todavia, cada jornal devido ao seu posicionamento editorial ou por colocar-se como porta-voz de grupos sociais e políticos, valorizava distintamente esse processo e que reconhecia como “modernidade” ou qualificativos da imagem de uma Botucatu “moderna”.

Ao pensarmos o conceito de modernidade como um “campo aberto” em possibilidade de reflexões, transformações e de interações com a sociedade e o homem, como disserta Marshall Berman, este trabalho também se encontra em aberto. Há muitas lacunas ao pensar a “modernidade” e a cidade de Botucatu: como aquelas referentes à valoração que seria concebida pelos grupos sociais menos favorecidos no interior desse processo de mudança; sobre há presença ou não da especulação imobiliária e seus desdobramentos; a fiscalização sobre costumes e hábitos contrários aos desejados por aqueles que detinham o poder local, por exemplo. Questão aberta até mesmo no que se refere à própria ferrovia enquanto artefato simbólico da modernidade em concorrência com outros, como os automóveis e as discussões sobre aviação. Questões outras ainda podem ser estabelecidas, devido à amplitude de problemas e a complexidade de se pensar uma história urbana, bem como da relação entre cidade e ferrovia.