MARÍLIA/SP LOCALIZAÇÃO
Indústria de Manufatura de Madeira Rua Duque de Caxias
Fábrica de Molduras em Mármore (2) Av. República e Duque de Caxias Fábrica de Macarrão e Balas Rua Duque de Caxias; Av. Castro Alves Fábrica de Óleos e Café Av. Bandeirantes e Av. Joquei Club
Fábrica de Óleo Castro Alves
Fábrica de Molho de Soja Av. Pedro de Toledo
Pastifício Marília Rua Rio Grande do Sul
Fábrica de Confecções, Fábrica de Esq. Metálicas Rua 9 de Julho; Av. Brasil
A produção industrial das empresas alimentícias, têxteis e de calçados visava primordialmente atender a demanda da escala local e regional. As empresas beneficiadoras de algodão e de casulos de seda, bem como as processadoras de óleo, destinavam a produção para o mercado nacional, sobretudo para empresas localizadas na cidade de São Paulo e na região metropolitana. Durante a Segunda Guerra Mundial, porém, a produção de têxteis e de casulos de seda também se voltou ao mercado externo, principalmente ao Japão e a países da Europa Ocidental.
De acordo com Lara (1991) e Mourão (1994), a inserção da produção das empresas industriais de Marília no mercado externo deveu-se em grande parte ao fato de a origem do capital ser majoritariamente de imigrantes japoneses e italianos, o que favoreceu a articulação entre as empresas envolvidas na exportação.
Outro aspecto que merece destaque, no que concerne à origem e estruturação da atividade industrial em Marília, é a atração que as empresas locais exerciam sobre grandes empresas. Como exemplo, podemos citar a aquisição de uma fábrica de bebidas, cujo dono era de Marília, por uma empresa que tinha, já na década de 1950, inserção no mercado nacional.
Em 1938, é fundada uma fábrica de bebidas por Ernesto Basta e seus irmãos, que produzia guaraná, gazoza e vinagre, localizada na Vila São Miguel. Em 1953, os proprietários começam a produzir cerveja, montando a Cervejaria Alta Paulista que, em 1955, é adquirida pela Companhia Antárctica Paulista, funcionando como uma subsidiária da Antárctica com a denominação de Cervejaria Bavária S/A, sendo que, em 1962, passa a usar a razão social Companhia Antárctica Paulista (MOURÃO, 1994, p. 81 apud LARA (1991, grifo nosso).
A empresa Sasazaki, do ramo metal-mecânico, hoje, com forte atuação no mercado nacional e internacional, originou-se na cidade de Marília, como uma iniciativa de imigrantes japoneses. Em 1943, a família Sasazaki, que se dedicava à atividade agrícola, mudou-se para a cidade e decidiu investir em atividades ligadas à indústria. Seus integrantes montaram “uma pequena
fábrica artesanal de balancinhos (produto agrícola usado na época) e de lamparinas a óleo e lampeões de carbureto (muito usados nos tempos da Segunda Guerra, quando havia racionamento de querosene).” Em 1958, a
sociedade amplia-se, “com a entrada de outros irmãos na Sassazaki Sociedade
Anônima Indústria e Comércio, na época já produzindo uma grande variedade de máquinas agrícolas” (MOURÃO, 1994, p. 81, 82).
No ramo alimentício, a primeira fábrica de balas instalada na cidade de Marília data do ano de 1945.
Santo Barion, filho de imigrantes italianos, instala, em 1945, junto com seus filhos, a Fábrica de Balas Cristal, que tinha como equipamento inicial dois tachinhos em fogo a lenha direto, uma pedra de mármore, um cilindro manual e uma mesa, onde trabalhavam dez moças embrulhando as balas a mão. Nessa época, como conta um dos fundadores, as balas fabricadas em São Paulo, pela Lacta, Pan, Falchi e outras empresas menores, dificilmente chegavam a Marília, o que vai permitir o crescimento rápido da empresa. Em fins de 1946, os Barion compram um prédio na rua XV de Novembro, com área de 250 m2, o que permite a diversificação para a produção de balas de goma, com a contratação de um técnico vindo da Lacta. Também em 1947 são admitidos dois vendedores para atuarem na Sorocabana, ampliando a área de vendas. Em 1950, chegam as primeiras máquinas embrulhadoras e a fábrica é novamente ampliada, mudando-se para um prédio maior adquirido de uma fiação de seda desativada (MOURÃO, 1994, p. 82, grifo nosso).
A indústria de alimentos só se originou na cidade por intermédio do Senhor Santo Barion, que implantou uma fábrica que, a princípio, produzia doces de amendoim, guloseimas e gomas. Posteriormente foram instaladas outras indústrias de biscoitos e doces - a Guidi, depois, a Xereta, a Airilam (vendida para outro empresário) e a própria Marilan. Além das indústrias mencionadas, foram instaladas também as de massas, principalmente de macarrão, como a Marimassas, Raniere, Gêneva, posteriormente, foram instaladas as indústrias de óleos. As indústrias citadas foram as que nasceram em Marília e também, em se tratando das agroindústrias, estas foram instaladas na cidade, mas eram provenientes de capitais externos (STIAM, 27/5/2008).
Diante dos relatos explorados por Mourão (1994) e das informações colhidas em entrevista com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Alimentação de Marília - STIAM (2008), podemos afirmar que a origem da atividade industrial desta cidade está atrelada à formação das atividades econômicas locais, aos investimentos dos imigrantes italianos e japoneses que se estabeleceram na cidade e se tornaram agentes da atividade industrial, à situação geográfica do município, em especial devido à distância da metrópole paulistana, e a disseminação de um savoir-faire, adquirido pelos trabalhadores da indústria alimentícia.
[...] os funcionários que trabalhavam nas indústrias maiores, e eram mandados embora, montavam o próprio negócio. Muitas vezes relacionado à produção de mercadorias do ramo alimentício. Cada indústria produzia apenas um produto, por exemplo, amendoim japonês, pé-de-moleque, goma, balas, pirulitos. Essa diversidade foi crescendo e contribuiu para que Marília ao longo do tempo fosse considerada a cidade capital nacional do alimento. Quando se demite um funcionário, você demite também a sua tecnologia, pois ele sai dominando o processo de produção e por isso pode investir no segmento industrial que trabalhava como empregado, por isso hoje, na cidade de Marília, desenvolve uma diversidade de indústrias alimentícias e também de padarias, confeitarias etc (STIAM, 27/5/2008, grifo nosso).
Na década de 1950, o contexto nacional favorecia a expansão industrial, porém as indústrias de Marília, predominantemente voltadas a beneficiamento do algodão, produção de óleos, fabricação de gêneros alimentícios, vestuários, calçados e instrumentos destinados ao trabalho agrícola não tiveram a mesma expansão do ponto de vista da produção e geração de empregos.
As empresas beneficiadoras de fibras de algodão e processadoras de óleo foram as que mais diminuíram a participação no mercado em decorrência, entre os fatores, de “uma crise de demanda interna e externa que inviabilizava a produção na região, devido à queda da produtividade causada pelo empobrecimento do solo. Além disso, as indústrias de óleo começam a dar preferência ao amendoim como matéria-prima” (MOURÃO, 1994, p. 84).
Na região, nas décadas de 1950 e 1960, a produção do algodão foi substituída paulatinamente pela cultura do amendoim para atender a uma demanda do mercado. Desse modo, a indústria de Marília iniciou a produção de óleo de amendoim e seus subprodutos, tais como tortas, farelos, adubos e sabão. De acordo com Mourão (1994),
[...] além das antigas fábricas de óleo de algodão que passam a esmagar o amendoim, como Matarazzo e Anderson Clayton, novas fábricas de capital de fora são montadas, como a Zillo, que inicia a produção de óleo em 1957, a J. Alves Veríssimo (1966). Além dessas empresas, outras de capital local entraram em funcionamento (p. 84,85).
Ao longo de vinte anos, a produção de óleo de amendoim e seus subprodutos garantiu centralidade à Marília no que concerne à produção industrial e geração de empregos nesse setor. No entanto, em fins da década
de 1960, mesmo com a estruturação de redes técnicas, a indústria processadora de amendoim, que tinha como “trunfo” a proximidade com a matéria-prima, assim como aconteceu com o processamento do algodão, entrou em declínio.
A ascensão das fábricas de óleo de amendoim instaladas em Marília dependia do rendimento da cultura desse produto na região, sendo que a conquista do mercado nacional, tornando inviável a produção rudimentar de óleo que se fazia em várias partes do país, foi baseada numa produtividade superior à média nacional, aliada à proximidade da lavoura às fábricas, que permitiam preços competitivos. Para isso também contribuiu a pavimentação da rodovia Marília-Bauru, ocorrida em 1950, interligando a cidade, por estrada de rodagem asfaltada à capital. Enquanto foi possível a exploração dos solos férteis, essa produção cresceu, mas as perspectivas já se apresentavam negativas no final da década de 60 (MOURÃO, 1994, p. 85).
Além da queda da produtividade pelo desgaste do solo, o declínio da área plantada de amendoim foi influenciado pela expansão da plantação da soja no território brasileiro, em especial nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. O óleo de amendoim, aos poucos, foi substituído pelo de soja. Como as indústrias beneficiadoras e processadoras de óleos instaladas em Marília dependiam diretamente da matéria-prima, a proximidade geográfica entre empresa e matéria-prima significava redução de custos, e consequentemente, aumento dos lucros e permanência no mercado. Com a nova situação, porém, algumas empresas encerraram suas atividades ou, adquiridas por outras maiores, transferem-se para áreas onde se investia na cultura da soja.
[...] o fim dessa etapa de sua produção industrial deixou na população uma imagem de desindustrialização da cidade, reforçada pelas formas espaciais deixadas por essas fábricas no espaço urbano, principalmente ao longo da ferrovia, localização preferida dessas unidades, onde se pode observar uma sequência de chaminés, equipamentos e prédios abandonados. [...] não podemos caracterizar esse período de fechamento das fábricas de óleo como indicadores de um processo de desindustrialização do município, na medida em que a nível local emergiram novos segmentos de indústrias que compensaram essa perda (MOURÃO, 1994, p. 87, grifo nosso).
A atividade industrial de Marília, até a década de 1960, tinha sua estrutura, por um lado pautada no beneficiamento e processamento de produtos agrícolas, por outro, na produção de máquinas e equipamentos também agrícolas. Após esse período, notou-se uma mudança em seu perfil
industrial, sobressaindo-se indústrias atreladas à produção de bens não duráveis de consumo final, sobretudo do ramo alimentício. “Em 1970, o gênero alimentos continua a liderar a produção industrial da cidade, agora não mais produzindo óleo ou apenas beneficiamentos, mas massas, bolachas e doces”
(MOURÃO, 1984, p. 91).
Durante trabalho de campo realizado na cidade de Marília (2008), entrevistamos o Professor Camilo Sivielle, que tem sua trajetória de trabalho articulada à atividade industrial do ramo alimentício de Marília. Sua experiência na área permitiu-lhe sintetizar historicamente as mudanças e permanências da atividade industrial por nós investigada.
Quando cheguei a Marília (por volta de 1955), a cidade era basicamente de economia agrícola, o que mais se produzia era o café e depois o algodão. Com a cultura do algodão, vieram as empresas processadoras como a Matarazzo que fazia óleo de algodão. Na época não ia muito, além disso. Com o passar do tempo as indústrias foram se desenvolvendo, por exemplo, empresas como a Marilan, começaram como uma padaria, o proprietário comprou um forno pequeno e começou a produzir, na verdade ainda era uma empresa embrionária e assim também aconteceu com outras empresas que hoje são grandes, mas que começaram no “fundo do quintal”. Outro exemplo é a Airilam, que iniciou as atividades na década de 1940, como uma fabriqueta de fundo de quintal, produzia-se balas. Num período muito curto, a empresa cresceu e se sustentou por vários anos. Mas, as outras empresas desse período eram pequenas. Quando eu cheguei aqui, era o período da disseminação da cultura do amendoim, que era destinado principalmente para a produção de óleo, então instalaram em Marília diversas empresas como Anderson Clayton, não me lembro o nome de todas, mas tinha diversas, pois a região começou a produzir muito amendoim. Como já falei, eu trabalhava na usina de açúcar, que montou uma fábrica para processar o óleo do amendoim, mas, este foi um ciclo que acabou. Estas empresas não acompanharam a inovação do mercado e viraram sucatas, outras fecharam ou foram embora para outras regiões do Brasil. Nesse intermédio, ocorreram geadas que destruíram as lavouras de café que ainda existiam na região. Acredito que esse período era de transição, pois não estava bem definida a economia da cidade, não tínhamos precisão para onde estava caminhando. Mas, na década de 1970 já existia na região algumas empresas importantes como a Jacto em Pompéia, que não era a Jacto que é hoje, mas já era uma empresa importante. Em Marília existia a Airilam e a Marilan, que no final de 1975 saiu de um lugar pequeno e utilizou o primeiro forno grande. Hoje a Marilan é a terceira maior empresa de biscoitos do Brasil. Na época, eu acompanhei essa mudança, pois era funcionário da empresa. As mudanças ocorreram tanto no prédio como na utilização de novas máquinas no processo de produção, como por exemplo, o forno grande. Claro que havia uma série de deficiências, não havia um projeto eficiente, com bom planejamento, enfim, não dava mais para voltar atrás, pois a empresa, mesmo com algumas deficiências estava em crescimento (Professor Camilo Sivielle, 30/5/2008).
A emergência do ramo alimentício de consumo final, como um dos mais importantes para Marília, no que concerne ao número de estabelecimentos e à geração de empregos e impostos na década de 1970, é resultado da ação desenvolvida por agentes locais nas décadas anteriores, tais como, entre outras, a própria criação e ampliação de empresas e a inovação tecnológica pela aquisição de novos equipamentos que ampliaram e diversificaram a produção.
Para o crescimento da produção de alimentos na cidade, durante os anos 60, tiveram grande contribuição: a) a fundação, em 1957, da Marilan, por Maximiliano Garla, que começa produzindo balas, macarrão e biscoito; b) a produção de macarrão da indústria Novaes, criada em 1963; c) a compra, pela Ailiram, de um forno italiano para iniciar a fabricação de biscoitos, além da compra de equipamento automático para a fabricação de balas, que permitiu o lançamento das balas Sete Belo e Campeão, que passaram a puxar as vendas dos outros produtos da fábrica; d) o surgimento de várias pequenas indústrias de doces e outros tipos de alimentos, como a Dori, Adriam, a Guidi e Cia etc (MOURÃO, 1994, p. 92, grifo nosso).
Em fins da década de 1970, como fruto das mudanças estruturais do modo capitalista de produção e da atuação dos agentes globais e nacionais ligados à atividade industrial, ocorreu no estado de São Paulo o processo de desconcentração industrial, que culminou em mudanças nos padrões de localização industrial.
De acordo com Lencioni (2006), esse processo teve um viés político muito forte, pois,
Enquanto o governo federal sob o discurso da descentralização industrial procurou dirigir a indústria para o Nordeste, o estadual procurou incentivar o deslocamento industrial para o interior do estado. [...] Em nível do governo local muitos municípios interioranos passaram a oferecer uma série de incentivos visando atrair indústrias. Um grande número de prefeituras elaborou diretrizes para atrair estabelecimentos industriais para seus municípios (p. 201).
Entre os atrativos oferecidos pelas prefeituras, destacam-se a isenção de impostos e de taxas municipais, ressarcimento dos gastos com terrenos, implantação de infraestruturas etc. Além disso, a oferta de mão de obra barata também foi explorada pelos agentes locais, a fim de atrair indústrias para as cidades do Oeste Paulista.
Porém, num primeiro momento, a distância de 443 quilômetros em relação à metrópole paulista não contribuiu para a atração de unidades produtivas industriais. A princípio, esse fato pareceu negativo para a dinâmica econômica e regional, mas, posteriormente, as indústrias de capital local, sobretudo do ramo alimentício120, localizadas em Marília, estruturaram-se e adquiriram dinamismo, e com isso ampliaram o mercado de distribuição dos produtos.
Grande parte das empresas industriais do ramo alimentício instaladas na cidade acatou as imposições do sistema capitalista de produção global, ou seja, adequou-se às exigências do mercado, e passou por processos de reestruturação. Além disso, a proximidade geográfica e organizacional dos agentes públicos e privados articulados ao ramo alimentício contribuíram para a consolidação dessa atividade na cidade, atraindo inclusive empresas de capital nacional e transnacional nas décadas posteriores.
A realidade industrial de Marília, a partir da década de 1980, fundamentou-se no ramo de alimentos de consumo final e no de metal- mecânico, porém o primeiro é que apresenta um número maior de estabelecimentos, sendo assim responsável pela geração de empregos e pelo funcionamento de instituições, associações e de serviços voltados a esse ramo industrial.
De acordo com os dados da Fundação Seade (2007), referentes à economia das Regiões Administrativas paulistas, “a fabricação de alimentos e bebidas é a atividade industrial que mais se destaca na RA de Marília, tanto no valor adicionado como na geração de emprego. Por esse motivo, o município de Marília, sede da região, recebeu o título de capital nacional do alimento” (p.
4).
É nítida a concentração de estabelecimentos industriais e de empregos ocupados do ramo alimentício em Marília (Cartograma 9, p. 202). Outras cidades da mesma RA, como Tupã, Garça, Assis e Ourinhos, apesar de apresentarem uma pequena concentração de estabelecimentos industriais do ramo alimentício, o mesmo não ocorreu, porém, com os empregos.
Como verificamos, Marília concentra uma parcela significativa dos estabelecimentos industriais e dos empregos ocupados no ramo de alimentos presentes no Estado de São Paulo. Porém, de acordo com dados da Secretaria da Indústria e Comércio de Marília (maio de 2008121), existem na cidade outros ramos, além do alimentício, cuja contribuição é significativa no desenvolvimento da atividade industrial na cidade e na região.
Entre eles, destaca-se o de bebidas, que ocupa o quinto lugar em relação à concentração de estabelecimentos industriais e empregos ocupados. Existem, em Marília, dois estabelecimentos industriais produtivos instalados, sendo, uma microempresa e a outra de porte médio. Em relação aos empregos, verifica-se que este ramo possui um total de 257 (duzentas e cinquenta e sete) vagas ocupadas, e contribui com uma massa salarial de R$ 363.513,00 (trezentos e sessenta e três mil, quinhentos e treze reais), compondo um salário médio de R$ 1.414,00 (um mil quatrocentos e quatorze reais).
121Dados cedidos pelo Secretário Municipal da Indústria e Comércio de Marília, Sr. José dos