1. GIRIŞ
2.10. Değer Türleri
Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência – a sua e a dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único?
Walter Benjamin (1994, p. 221)
Nos últimos anos, a utilização de investigações narrativas tem sido uma opção crescente na área de Educação, sobretudo em estudos sobre formação e atuação de professores (MENEGAÇO, 2004; CUNHA 2009; OLIVEIRA & PEZZATO, 2010; MARQUESIN & NACARATO, 2011; CRUZ, 2012, PRADO; FERREIRA; FERNANDES, 2011, etc.).
A pesquisa narrativa oportuniza aos docentes um mergulho interior, proporcionado não apenas pela investigação da própria prática, mas sobretudo por suas lembranças e experiências formadoras, refletindo de maneira consciente sobre os acontecimentos que realmente contribuíram para sua formação pessoal e profissional. (CUNHA, 2009, p. 1)
Antes de discutir as contribuições da pesquisa narrativa no âmbito da Educação, é necessário entender melhor sobre a narrativa enquanto modalidade do discurso (oral e escrito).
Para Benjamin (1994, p. 198), a narrativa é a faculdade de intercambiar experiências e que a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores.
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em-si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. (...) Assim, seus vestígios [vestígios do narrador] estão presentes de muitas maneiras nas coisas narradas, seja na qualidade de quem as viveu, seja na qualidade de quem as relata. (BENJAMIN, 1994, p. 205)
Em 1936, Walter Benjamin (1892 – 1940) escreveu um texto com considerações à obra de Nikolai Leskov (romancista russo; 1831 – 1895), onde apresenta duas analogias à figura do narrador, que ele chama de duas famílias principais de narradores. A primeira figura, personificada no camponês sedentário, conhecedor de histórias e tradições, representaria o saber do passado. A segunda figura, representada pelo marinheiro comerciante, alguém que vem de longe, que viaja, que tem muito a contar, remete ao saber das terras distantes.
Segundo Gagnebin (1994, p. 10-11), a arte de contar histórias está cada vez mais rara na sociedade moderna, pois quase já não existem condições da transmissão de uma experiência no seu sentido pleno. Para a autora, à luz de Walter Benjamin, estas condições estão relacionadas à interação narrador-ouvinte - interação no sentido de narrar uma experiência que seja comum a ambos e ao não isolamento das pessoas em seu mundo particular e privado - e a disponibilidade de tempo das pessoas para ouvir e contar histórias - disponibilidade reduzida em função do ritmo acelerado da vida moderna.
O depauperamento da arte de contar parte, portanto, do declínio de uma tradição e de uma memória comuns, que garantiam a existência de uma experiência coletiva, ligada a um trabalho e um tempo partilhados, em um mesmo universo de prática e de linguagem. (GAGNEBIN, 1994, p. 11)
A pobreza de experiência impele o sujeito a partir para frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda (BENJAMIN, 1994, p. 116).
O caminhar da narrativa para a extinção consolida-se na raridade de pessoas que sabem narrar devidamente (BENJAMIN, 1994, p. 197) Esta raridade resulta principalmente do excesso de informação na sociedade capitalista moderna. A informação, enquanto forma de comunicação, é estranha e ameaçadora à narrativa, pois o saber que vem de longe [na perspectiva do marinheiro comerciante] encontra hoje menos ouvintes que a informação sobre acontecimentos próximos (BENJAMIN, 1994, p. 202).
Larrosa (2002) também nos convida a pensar a posição da informação na sociedade atual. Para o autor, o sujeito da informação sabe muitas coisas, mas não necessariamente experenciou muitas coisas, não tendo então o que compartilhar de substancial: as informações que ele tem, todos (ou muitos outros) também têm. Afirma que este não é um saber no sentido da sabedoria, mas no sentido de ‘estar informado’.
Assistir uma aula, ler um livro ou fazer uma viagem pode nos trazer informação, mas não necessariamente experiência – neste sentido de algo que nos toca, nos acontece. Ter informação não significa necessariamente ter conhecimento ou ter aprendido. O equívoco consiste em pensar a relação entre informação, conhecimento e aprendizado (...) como se o conhecimento se desse sob a forma de informação e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação (LARROSA, 2002, p. 22).
Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. (BEJNAMIN, 1994, p. 203)
Sobre isto, Cunha (2009, p. 3) afirma que a informação é conclusiva, busca a apenas a explicação do fato ocorrido e pode ser contada por qualquer um. A narrativa, por sua vez, é inconclusa, busca a compreensão do fato ocorrido e tem impressa a marca do narrador.
Para Cruz (2012, p.62-63), a narrativa é uma importante ferramenta de significação para a nossa cultura e estará sempre expressando um saber, baseado na autoridade da experiência vivida.
Segundo Santos (2014, p. 133), a narrativa é a linguagem privilegiada das permutas interculturais.
Contar histórias gera um imediato e concreto sentido de copresença por meio do qual as experiências sociais que ocorrem em diferentes tempos, espaços e culturas se tornam mais facilmente acessíveis e
inteligíveis, um tipo de copresença que não é possível atingir por meio da linguagem conceitual (seja ela técnica, filosófica ou científica). (SANTOS, 2014, p. 133)
Voltando ao campo da pesquisa em Educação, nas investigações sobre formação de professores/as, Cunha (2009) afirma que as experiências narradas por um sujeito (no caso, o professor) permitem que o pesquisador (também professor) possa refletir sobre o seu próprio processo formativo, revendo sua trajetória mediante a narração da trajetória do outro. Oliveira e Pezzato (2010) acrescentam que as memórias, compostas por narrativas significativas podem suscitar ao próprio indivíduo que narra sua história, novos saberes, novas compreensões. A Investigação Narrativa propicia, então, a formação de professores como profissionais reflexivos (LIMA; GERALDI; GERALDI, no prelo).
Como citado anteriormente, Lima, Geraldi e Geraldi (no prelo) apontam para quatro tipos de emprego de narrativas na pesquisa em educação. A narrativa como construção de sentidos de um evento corresponde às pesquisas, em geral em história oral, que possibilitam recontar histórias a partir das memórias dos sujeitos envolvidos. O foco aqui são os fatos ou eventos, que tanto podem ser fenômenos sociais amplos como podem ser acontecimentos restritos, como uma aula por exemplo. As narrativas biográficas ou autobiográficas possibilitam o encontro do narrador com o personagem (que coincidem nas últimas, mas não nas primeiras), e, como formas de narrativas de vida, permitem a compreensão do sujeito e de sua formação. Neste grupo, o foco é o sujeito.
Já nas narrativas de experiências planejadas para pesquisas, a prática pedagógica tem uma intencionalidade prévia, ou seja, as ações educativas são planejadas de modo a responder determinadas questões previamente estabelecidas, como, por exemplo, a avaliação de novos recursos didáticos. Neste caso, pode ocorrer ou não a coincidência entre o pesquisador e o sujeito que realiza a ação pedagógica (LIMA; GERALDI; GERALDI, no prelo).
As narrativas de experiências educativas – narrativas de experiências vividas mas não intencionalmente planejadas com objetivo de pesquisa – envolvem a tentativa de compreensão de uma experiência significativa na vida do sujeito pesquisado, sendo uma pesquisa vivencial e não experimental (LIMA; GERALDI; GERALDI, no prelo). A especificidade deste tipo de narrativa
reside no fato de que o sujeito da experiência a narra para, debruçando-se sobre o próprio vivido e narrado extrair lições que valem como conhecimentos produzidos a posteriori, resultando do embate entre a experiência e os estudos teóricos realizados após a
experiência narrada. A pesquisa que pode ser deflagrada a partir da narrativa da experiência não é uma construção anterior à experiência. É da experiência vivida que emergem temas e perguntas a partir dos quais se elegem os referenciais teóricos com os quais vem a dialogar e que, por sua vez, fazem emergir as lições a serem tiradas. Como o objeto empírico aqui é a experiência vivida, há muito de autobiografia mas diferentemente desta não faz emergir o sujeito e sim a lição que se extrai da experiência, lição no sentido de conselho a que apontava Benjamin (1985). (LIMA; GERALDI; GERALDI, no prelo)
Na Investigação Narrativa, a possibilidade de intercambiar experiências permite aos sujeitos compreender melhor o que lhes constitui, visualizar os tempos e espaços que os constituem como são no presente, olhando para o passado e pensando no sujeito do futuro. Desta forma, olhar para as experiências narradas, com seus muitos enunciados, é olhar para a constituição do sujeito individual e do sujeito coletivo, para a constituição pessoal e a do outro.
Se em uma narrativa pressupõe-se a existência de locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem escuta ou lê), insere-se nesta pesquisa a questão da natureza dialógica da linguagem discutida por Bakhtin.
Para Bakhtin, a linguagem é um processo de interação dialógica na relação com a alteridade, sendo desenvolvido através de enunciados concretos que são ouvidos e reproduzidos, ou seja, a linguagem é produto da interação social e da interação entre os interlocutores (BRAIT, 2005).
Na perspectiva bakhtiniana, é através da interação social, sobretudo da interação verbal, que o sujeito se constitui e se transforma, em função mesmo da sua relação com o outro. O sujeito é constituído de fora para dentro (GEGe, 2009, p. 96). Para esta concepção, a alteridade é fundamental, pois o sujeito-eu só existe a partir do sujeito-outro, pois cada sujeito se constitui na relação com o outro, e por isso reflete e refrata-se no outro.
Paulo Freire também refletiu muito sobre a constituição do sujeito e sua capacidade de alterar a realidade, uma vez que para ele é impossível pronunciar o mundo sozinho, da mesma forma que se tornar sujeito quando apartado dos outros, pois pela ação afirmativa de dizer a palavra, pronunciando o mundo em colaboração, os sujeitos provocam um processo complexo no qual são, simultaneamente, transformadores e transformados (PITANO, 2010, p. 384).
Se o sujeito, mediado pela linguagem se constitui através do outro, pois este outro lhe dá acabamento em função da exotopia que ocupa e do excedente de visão que dispõe,
conforme Bakhtin14. Ao narrar, narrador(es), personagens, heróis colocam-se em movimentação exotópica e adquirem um excedente de visão, uns em relação aos outros, buscando o seu acabamento, ouvindo a história do outro, refazendo a sua história, transformando e sendo transformado.