1. GIRIŞ
2.16. Antik Çağda Etik ve Estetik Değerler Arasındaki İlgi Sorunu“Güzel –İyi”
Cada sem-terra de hoje carrega em si (ainda que não saiba disso) a herança rebelde de Sepé Tiaraju, de Zumbi dos Palmares, dos camponeses que lutaram em Canudos, Trombas e Formoso, Contestado, nas Ligas Camponesas. Assim como carrega a memória da repressão sofrida por todas essas lutas e o desafio de impedir que a destruição possa ocorrer de novo. Roseli Caldart (2004, p. 108)
Não há como falar da constituição de uma identidade Sem Terra sem antes contextualizar o sujeito coletivo MST, a partir de seu surgimento e objetivos de luta. Iniciado oficialmente em 1984, o MST representa parte dos trabalhadores e trabalhadoras que buscam por terra desde os tempos da colonização do Brasil, iniciado com a divisão das capitanias
hereditárias, a ‘libertação’ dos negros escravos, chegando aos tempos mais atuais das Ligas Camponesas.
O MST é fruto de mobilizações e ocupações de terra que vinham acontecendo desde 1979, com a emblemática ocupação na Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul. Muitos pequenos movimentos estavam se organizando Brasil afora e os trabalhadores/as em busca de seus direitos receberam o cunho pejorativo de sem-terra pela mídia. 1984 marca uma unificação destes trabalhadores e trabalhadoras sob a sigla de MST, aproveitando o nome com que já estavam sendo designados (MORISSAWA, 2001; CALDART, 2004).
[Em 1984], em Cascavel (PR), centenas de trabalhadores rurais decidiram fundar um movimento social camponês, autônomo, que lutasse pela terra, pela Reforma Agrária e pelas transformações sociais necessárias para o nosso país. Eram posseiros, atingidos por barragens, migrantes, meeiros, parceiros, pequenos agricultores... Trabalhadores rurais sem terras, que estavam desprovidos do seu direito de produzir alimentos. Expulsos por um projeto autoritário para o campo brasileiro, capitaneado pela ditadura militar, que então cerceava direitos e liberdades de toda a sociedade. Um projeto que anunciava a “modernização” do campo quando, na verdade, estimulava o uso massivo de agrotóxicos e a mecanização, baseados em fartos (e exclusivos ao latifúndio) créditos rurais; ao mesmo tempo em que ampliavam o controle da agricultura nas mãos de grandes conglomerados agroindustriais. Mas seria injusto dizer que começamos ali. A semente para o surgimento do MST talvez já estivesse lançada quando os primeiros indígenas levantaram-se contra a mercantilização e apropriação pelos invasores portugueses do que era comum e coletivo: a terra, bem da natureza. (...) (MST, 2013, on- line).
Nestes 31 anos de existência o MST segue com os mesmos objetivos desde seu surgimento, cada dia mais atuais e necessários: i) a luta pela terra, ii) a luta pela Reforma Agrária e iii) a luta pela transformação social. Esses objetivos, embora diferentes, não são divergentes ou excludentes, pelo contrário, são acumulativos, e buscam alcançar as mudanças que o MST defende para a sua base social e para a sociedade.
Ao estabelecer como seu objetivo número um a luta pela terra, o MST se coloca como mobilizador de pessoas que estão em busca de um pedaço de terra para trabalhar e produzir o sustento de sua família. Algumas pesquisas têm mostrado a atualidade da luta pela terra no Brasil: entre 1988 e 2012 somaram-se 8.789 ocupações de terra no país e 1.221.658 famílias que participaram dessas ações (DATALUTA, 2013, p. 6). Sem contar a infinidade de famílias sem-terra que não estão organizadas.
Dentre os 116 movimentos socioterritoriais que realizaram ocupações de terra no Brasil entre 2000 e 2012, 23 realizaram ocupações em 2012, sendo que, em ordem de maior número que famílias que participaram de ocupações, o MST está em primeiro lugar, com a participação de 13.862 famílias, a CONTAG19 em segundo, com 1.053 famílias e os movimentos indígenas em terceiro, com a participação de 816 famílias, sendo que os três têm sido os principais responsáveis por famílias em ocupações desde 2005. Sobre o local de ocorrência dessas ocupações, o MST é o mais territorializado, com ações em quase todos os estados. (DATALUTA, 2013, p. 6).
O segundo objetivo do MST de lutar pela Reforma Agrária está relacionado ao comprometimento com as famílias já beneficiadas (legalmente assentadas). Ou seja, ao identificar que a conquista de um lote de terra é insuficiente para resolver todos os problemas da família, incorporou-se a luta por políticas públicas e projetos governamentais que viabilizassem melhores condições de vida e de trabalho para os sujeitos que moram no campo - um espaço historicamente carente da assistência do Estado.
A Reforma Agrária precisa assegurar que as famílias assentadas sejam atendidas nas suas necessidades mais elementares (e que também são seus direitos), tais como acesso à escola, assistência médica, transporte, energia elétrica, água encanada, assistência técnica, financiamentos dos seus projetos, etc., na sua comunidade. Assim, esse objetivo orienta as famílias para as reivindicações dos direitos que extrapolam a luta especificamente pela posse da terra, assumindo uma dimensão maior em busca de qualidade de vida melhor para os trabalhadores e trabalhadoras.
O terceiro objetivo do MST, a luta pela transformação social, se refere às mudanças mais profundas que precisam ser feitas na sociedade. Aqui está contida a ideia de revolução. Tal como a luta pela terra é insuficiente para resolver todos os problemas da família camponesa, a luta pela Reforma Agrária se apresenta muito limitada para provocar as demais reformas que a sociedade precisa, sobretudo aquelas relacionadas à classe trabalhadora. É um objetivo utópico, mas uma utopia necessária, como já disse o uruguaio Eduardo Galeano em referência ao cineasta argentino Fernando Birri: A utopia está lá no horizonte. E eu sei muito bem que eu não a alcançarei, que se eu caminhar dez passos, ela ficará dez passos mais longe. Quanto mais eu buscar, menos a encontrarei porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo [...] Para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso: caminhar. (PROGRAMA SINGULAR, 2013).
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Nesse sentido, os problemas que expõe grande parte da população a situações de desigualdade social, racial, de gênero, de renda, etc., acentuando a exclusão, o analfabetismo, o desemprego, a violência doméstica, etc., bem como os problemas de envenenamento dos alimentos, de concentração de terras, de patenteamento de sementes, de exploração irracional dos recursos naturais, entre outros, fazem parte das bandeiras de luta do MST.
Toda esta luta do MST, construída em 31 anos de história, é o que leva a formação da identidade dos sem-terra, passando a Sem Terra, por meio da
construção da decisão de rebelar-se contra sua condição de sem (a) terra, do jeito de fazer essa luta e o orgulho de passar a atender também por um outro nome que não apenas o pessoal: quem é você,
sou Sem Terra, sim senhor, e através da luta e das formas que ela vai
assumindo, a passagem do sem-rosto a cidadão, ou seja, a construção da identidade sem-terra como sujeito social de direitos: pessoas, coletivos que se sabem com direitos e que se organizam para conquistá-los. (CALDART, 2004, p. 129, grifos da autora).
Desconsiderar essa perspectiva histórica da trajetória do MST e este caráter coletivo dos aprendizados e da formação da identidade Sem Terra, conforme ressalta Caldart (2004, p. 162) qualquer discussão sobre educação no MST ficará longe de ajudar a superar os desafios pedagógicos e educacionais por ele [MST] produzidos. Assim, discutir saberes e conhecimentos no MST é compreender os sujeitos que constroem a cada dia este Movimento, com suas formas individuais e coletivas de lutar por educação, pela terra, pela Reforma Agrária e pela transformação social.