No Brasil, a população urbana passou a crescer a partir da década de 1950. Nessa época o parque industrial do Sudeste do país, particularmente do Estado de São Paulo, estava em expansão, atraindo grande massa de população migrante originária de áreas de estagnação econômica do Nordeste. De acordo com dados do IBGE (2000) em 1980 o Brasil já possuía 67,59% da população morando em cidades, chegando a 75,59% em 1991 e 81,23% em 2000. Souza (1994) explica que, o processo de verticalização no Brasil teve início nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, no final do século XIX e início do século XX. Essas duas cidades tiveram grande destaque política e economicamente neste periodo, como também em termos de crescimento e desenvolvimento urbano, sendo pioneiras no processo de surgimento de edifícios altos do país.
O processo de verticalização esteve diretamente ligado às novas formas tecnológicas e aprimoramentos que foram conhecidos no período pós-guerra, e juntamente ao processo de urbanização e industrialização. Mascaró e Yaoshinaga (2005) explicam que, a generalização do uso da energia elétrica no fim do século XIX foi um fator que possibilitou o aumento na altura das edificações. A energia elétrica permitia o transporte vertical de pessoas e cargas, e a elevação de água para os andares superiores”. Como ressalta Fischer (1994), há também a rápida absorção pela construção civil do concreto armado na elaboração e estruturação de obras arquitetônicas.
Souza (1994) elucida que, com o emprego de novas tecnologias na primeira metade do século XX, como o emprego do concreto armado e dos elevadores, os edifícios ganhavam ainda mais pavimentos, na forma de verdadeiros arranha-céus. Estes se disseminaram, principalmente, na América do Norte, onde as cidades de Chicago e Nova Iorque foram símbolos desse modelo de construção. Somekh (1987) esclarece que, a origem do processo de verticalização esteve ligada as condições particulares de formação das cidades americanas e do estágio de desenvolvimento capitalista ligado a grande concentração urbana, ao preço da terra elevado e ao liberalismo da legislação, entre outros fatores. Os arranha-céus foram incorporados à arquitetura e aos conceitos urbanísticos de modernistas como Le Corbusier, Gropius e Mies Van der Rohe. Com a disseminação dessa nova tipologia surge uma série de questionamentos sobre os impactos que esse padrão construtivo poderia trazer para o espaço urbano. De acordo com Moreira (2006)
em 1912 os arranha-céus predominavam na paisagem dos centros de algumas cidades americanas, o que levou a se pensar em regulamentos para limitar a altura e o volume desses edifícios.
No Brasil, a difusão da tipologia do arranha-céu surgiu no final da década de 1920. Souza (1994) explica que, a partir de 1964 esse processo se intensificou com a criação do BNH (Banco Nacional da Habitação). O Estado brasileiro, conseqüentemente, através de um banco público financiou esse processo, além de liberar o solo para a verticalização através de leis de zoneamento e uso do solo, promoveu a sua valorização através do fornecimento de infraestrutura e equipamentos urbanos.
A verticalização, explica Somekh (1997, p.20), “é o resultado da multiplicação do solo urbano possibilitada pelo elevador”. De acordo com Souza (1994, p.135), pode ser definida também, ainda que como hipótese como, “a resultante, no espaço produzido, de uma estratégia entre múltiplas formas do capital – fundiário, produtivo, imobiliário e financeiro que cria o espaço urbano”. Está diretamente atrelado às formas tecnológicas e aperfeiçoamentos que surgiram no período de pós-guerra, juntamente ao processo de urbanização e industrialização. Segundo Sposito (1991) a verticalização é uma forma peculiar de expansão territorial urbana. A autora afirma que, a verticalização “reproduz territorialmente a cidade através da ampliação, da multiplicação e do desdobramento de sua base fundiária”, Sposito (1991, p.56). De acordo com Giménez (2007, p.17),
O processo de verticalização é entendido como a “criação de novos solos”, os quais estão sobrepostos, constituindo um local de moradia ou de trabalho, distribuídos em diversos andares, possibilitando um maior número populacional exercendo as mais diferentes funções. Funciona ainda como local para moradia agrupando um maior índice possível de pessoas num mesmo local.
Segundo Macedo (1987, p.9) verticalizar significa,
Criar novos solos sobrepostos, lugares de vida dispostos em andares múltiplos, possibilitando, pois, o abrigo, em local determinado de maiores contingentes populacionais do que seria possível admitir em habitações horizontais, e, por conseguinte valorizar e revalorizar estas áreas urbanas pelo aumento potencial de aproveitamento.
Debates questionam sobre a partir de quantos pavimentos deve-se considerar uma construção como verticalizada. A pesquisa considerou como horizontais as edificações unifamiliares, mesmo que estas possuam, além do pavimento térreo, um segundo pavimento. Foram consideradas verticalizadas as edificações multifamiliares. No entanto, alguns pesquisados avaliam como verticalizadas, construções que apresentam um padrão construtivo de térreo mais um pavimento superior.
No país, atualmente, a verticalização é caracterizada, mais especificamente, na construção de moradias, voltadas, principalmente para atender a demanda solvável da população, ou seja, a classe média/alta, nas localizações que considerem mais “privilegiadas” do ponto de vista da acessibilidade, dotação de infraestrutura, paisagens amenas, com sítios aprazíveis, ou seja, as localizações que pareçam oferecer uma “melhor” qualidade residencial urbana.
Souza (1994) explica que, a disponibilidade de terrenos grandes, a acessibilidade e o nível de renda da população determinam a geografia da verticalização. Esta, portanto, tem um efeito de sobrevalorização do espaço, visto que se instala em áreas bem equipadas, do ponto de vista da infraestrutura. De acordo com a autora, o solo urbano é objeto de transações lucrativas, por força da urbanização, da valorização de obras urbanas e do desenvolvimento dos serviços de infraestrutura. A autora explica que, constroem-se edifícios porque a divisão do espaço, não mais permitindo conquistar terrenos livres (que estão longe demais), é obrigada a reconstruir zonas para atrair a pequena burguesia, a única alternativa então, é adensá-las em função da renda fundiária (que deve ser sempre a maior possível) e isso só é viável pela existência de uma camada superior da população desejosa de morar nas “melhores” localizações.
De acordo com Villaça (2001), o funcionamento da sociedade urbana transforma seletivamente os lugares. Os lugares de residência não fogem a esta regra. As pessoas com maior poder aquisitivo se auto-segregam em seus sítios sociais, como também geram uma segregação imposta aos demais, aos de menor renda, que se vêem forçados a ocupar áreas menos “privilegiadas” dotadas de “menor qualidade residencial urbana”.
O espaço urbano da cidade capitalista é desigual e dividido em áreas residenciais segregadas, refletindo a complexa estrutura social em classes, explica Corrêa (1993). Campos Filho (1992) esclarece que, a concentração de renda em poucas parcelas da população provocou uma concentração espacial em algumas partes da cidade. Conjuntamente à concentração de renda, e dela decorrente, ocorreu à verticalização excessiva das cidades.
Um dos pontos de atração de capitais seria a “venda” da qualidade residencial e, conseqüentemente, de qualidade de vida, ofertada pelos agentes que promovem o processo de verticalização. Nesta oferta estão inclusos, maior segurança, localizações acessíveis, dotadas de
infraestrutura urbana e amenidades paisagísticas, como as orlas marítimas das cidades brasileiras que se localizam em setores oceânicos, como é o caso de João Pessoa.
Segundo Leandro (2006) a orla marítima brasileira adquiriu com o passar do tempo, status de área de lazer e turismo sendo alvo de empreendimentos imobiliários.
A construção de edifícios na orla marítima brasileira tornou-se uma estratégia de valorização do mercado imobiliário. A construção de edifícios foi estimulada por modismos que concebem esses equipamentos como símbolo de modernidade, reforçando o status de morar à beira-mar. (LEANDRO, 2006, p.118).
Em cidades litorâneas, morar a beira-mar, passou a ser um desejo das camadas de maior poder aquisitivo. São estas camadas que vão direcionar o processo de reorganização e forma de ocupação do espaço urbano de cidades, como João Pessoa, como será esclarecido a seguir.
3.2 CIDADE DE JOÃO PESSOA: O PROCESSO DE VERTICALIZAÇÃO E OS MARCOS