No início de 2005, o CNE baixou a Resolução 01/05 estabelecendo as normas para o apostilamento de diplomas dos cursos de graduação em Pedagogia, a fim de proporcionar aos concluintes que tivessem cursado as disciplinas Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental, Metodologia do Ensino Fundamental e Prática de Ensino, Estágio Supervisionado (com carga horária de, no mínimo, 300 horas), o direito de habilitarem-se para o exercício do magistério nos anos iniciais do Ensino Fundamental, não havendo, entretanto, restrição de carga horária para os cursos concluídos anteriormente à Lei 9394/96.
No mês de março de 2005, o CNE/CP emite o parecer nº 5/2005, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de graduação em Pedagogia, Licenciatura. Esse Parecer apresentava uma grande incoerência em relação ao artigo 64 da LDB, na medida em que não se referia à formação dos profissionais da educação no curso de Pedagogia, conforme estabelecido na referida lei.
Assim, foi feito um ajuste, buscando observar esse disposto legal, sendo elaborado o Parecer CNE/CP n° 3/2006, de 21/02/2006, que mantém a Licenciatura em Pedagogia nos mesmos moldes do anterior, mas assegura a formação dos profissionais da educação, prevista na LDB.
Finalmente, em 15 de maio de 2006, depois de idas e vindas, muitas discussões e debates acalorados na academia, na mídia, nos conselhos de educação, nos sindicatos dos trabalhadores da educação, foi aprovada a Resolução CNE/CP nº 1, que institui as Diretrizes Curriculares de Pedagogia.
Gostaríamos de expor algumas idéias sobre o advento de diretrizes e parâmetros na educação escolar no Brasil. Desde sempre o ser humano procurou orientações: nas estrelas; nos faróis (como o de Alexandria, três séculos antes de Cristo); um avanço extraordinário ocorreu com a utilização da bússola. No campo do comportamento humano, recorreu às filosofias, maneiras de pensar e orientar a própria existência.
As sociedades foram se modernizando e alcançando níveis cada vez maiores de complexidade. As preocupações humanas também cresceram exponencialmente a ponto de termos que controlar o ar que respiramos; a água que bebemos; muitos alimentos. Respectivamente, sobre a quantidade de carbono que lançamos na atmosfera; as poluições que
atingem as reservas aqüíferas; fertilizantes e agrotóxicos, nem sempre saudáveis, que tomamos a iniciativa de usar, mas não conseguimos controlar as conseqüências finais de tais ações.
Na educação escolar, temos alguns fatos irrecorríveis: as crianças não param de crescer; novas adentram no sistema todos os anos; todos os seres humanos precisam de educação exatamente em cenários como os descritos no parágrafo anterior.
Nas últimas três décadas, nós brasileiros tomamos consciência de necessidades profundas: de planos educacionais de longo prazo e de parâmetros, diretrizes, referenciais que sejam “sinalizações” para um tempo mais longo. Alguns fatos que relembramos foi o Plano Decenal (proposto para o país, estados e municípios); o Plano Nacional de Educação; e as propostas que foram chamadas Parâmetros Curriculares Nacionais que se realizaram pouco a pouco para todos os níveis de ensino (desde a educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, cursos de graduação).
Na nossa compreensão, não temos ainda uma consciência da necessidade de um acordo ou um pacto social, que faça nos sentir a todos direcionados para uma educação escolar de qualidade. E nós que fazemos as ciências humanas e sociais, somos expoentes em provocar discussões, alimentá-las indefinidamente, muitas vezes buscando a verdade de um modo positivo, reconheçamos. Mas temos imensas dificuldades em atuar em equipes, alcançar consensos, construir propostas coletivamente.
Após procurar durante muitos meses, um fio condutor de raciocínio sobre as Diretrizes Curriculares do Curso de Graduação em Pedagogia, tivemos que nos contentar com um momento de humildade de que ainda não estávamos pronta para realizar uma análise crítica. Lemos bastante e muitas vezes em textos, encontramos muitas críticas, mas ficávamos sempre pensando no nosso alunado. E refletindo: o que escreveremos na dissertação poderemos falar aos alunos nas salas de aula com propriedade?
Diante de tudo isto, decidimos deixar na dissertação um texto apresentante das diretrizes e trataremos de uma discussão das mesmas em estudos posteriores. Desse modo, pedimos a compreensão do(a) leitor(a) para nossa abordagem simples, mas que procurará apresentar o que avaliamos como mais essencial no texto das diretrizes curriculares para o curso de pedagogia. Ficou, ao final, constituída dos seguintes tópicos:
Caracterização do Curso de Pedagogia como uma Licenciatura Concepção de docência
Princípios e âmbitos de atuação do pedagogo(a) Aptidões requeridas do(a) pedagogo(a)
De início, apreendamos do que tratam as diretrizes: o objeto do curso (ser uma licenciatura) e os aspectos eleitos como primordiais – princípios, condições, procedimentos para planejamento e avaliação. Encontramos estes itens no artigo primeiro.
No segundo artigo, o campo de aplicação da formação do pedagogo: a docência. Embora expandida para atuação em “outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos”. Nosso orientador costuma chamar atenção de que nenhum outro curso universitário dedica quatro, cinco anos a tratar especificamente da educação escolar; então parece justo estarmos preparados para esta atuação. Observemos o esquema a seguir.
Gostaríamos de pontuar o que consideramos essencial. Que as diretrizes apontam o Curso de Pedagogia como uma Licenciatura. Isto em geral causa impacto no alunado. Muitos não escondem que não aspiram estar no futuro em salas de aula. Compreendemos as ansiedades, mas pensamos que o graduando deve se planejar para continuar sua formação e procurar especializá-la através do seu próprio currículo. Vejamos que no Art. 2° já está posto a possibilidade da atuação em “[...] cursos de Educação Profissional na área de serviços e
apoio escolar, bem como em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos.”
Em seguida vem uma concepção de docência.
§ 1º Compreende-se a docência como ação educativa e processo pedagógico metódico e intencional, construído em relações sociais, étnico-raciais e produtivas, as quais influenciam conceitos, princípios e objetivos da Pedagogia, desenvolvendo-se na articulação entre conhecimentos científicos e culturais, valores éticos e estéticos inerentes a processos de aprendizagem, de socialização e de construção do conhecimento, no âmbito do diálogo entre diferentes visões de mundo.
Ainda no Art. 2°, no segundo parágrafo, é dito que o meio proposto para a formação deverá conter estudos teórico-práticos, investigação e reflexão crítica. Há três faces a contemplar: a primeira, quando chama a atenção para estudos teórico-práticos. Sabemos como é antiga a carência da parte prática nos cursos de pedagogia; que os currículos privilegiam as teorias. As pessoas que não têm experiências pessoais de exercer a docência enfrentam muitos obstáculos, medos e apreensões no início de carreira.
Quando no texto aparece investigação, entendamos uma separação difícil, mas verdadeira existente entre pesquisa docente e pesquisa acadêmica. Lembremos que o pesquisador em si somente é formado no nível de doutorado. Então a investigação tratada é a que diferenciará o professor de um repetidor de conhecimentos.
Os dois incisos do mesmo segundo parágrafo apontam para um extenso campo a ser trabalhado. Quando no primeiro é posto que o pedagogo tratará do “o planejamento, execução e avaliação de atividades educativas”. Isto significa que atuará em todo o processo: do planejamento até a avaliação significa do começo até o final.
No segundo inciso é dito que o pedagogo deverá conduzir “a aplicação ao campo da educação, de contribuições, entre outras, de conhecimentos como o filosófico, o histórico, o antropológico, o ambiental-ecológico, o psicológico, o lingüístico, o sociológico, o político, o econômico, o cultural.” Num sentido restrito, encontramos aí os diversos campos de conhecimento que são constituintes dos currículos de pedagogia. Num sentido mais amplo, chegaríamos a pensar numa formação holística. Somente a história de vida de cada um poderá responder as dimensões que serão alcançadas.
Observemos a seguir o Art. 3° onde destacamos os princípios de atuação do(a) pedagogo(a) e o foco – o que é considerado central – na sua atuação. No Art. 4°, encontramos um detalhamento das ações nos campos de ação já mencionados desde o artigo primeiro.
O Art. 5° trata de aptidões esperadas do(a) pedagogo(a). O caput do artigo é bem simples: “O egresso do curso de Pedagogia deverá estar apto a:” Imaginemos que um(a) jovem se candidate a um trabalho e receba por escrito as aptidões requeridas para aquele posto. Compreendemos que nessa hora devemos fazer todo o possível para simplificar o entendimento. Tentamos fazer isto com o quadro a seguir. As aptidões seriam:
I – atuar com ética e compromisso [...] II – compreender, cuidar e educar crianças de zero a cinco anos [...] III – fortalecer o desenvolvimento e as aprendizagens de crianças [...] IV – trabalhar, em espaços escolares e não-escolares [...]
V – reconhecer e respeitar as manifestações e necessidades [...] dos educandos [...] VI – ensinar Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, [...] e as outras áreas [...] VII – relacionar as linguagens dos meios de comunicação [...] VIII – promover e facilitar relações de cooperação [...] família e comunidade[...] IX – identificar problemas socioculturais e educacionais [...] X – demonstrar consciência da diversidade [...] XI – desenvolver trabalho em equipe [...] XII – participar da gestão das instituições [...] projeto pedagógico XIII – participar da gestão das instituições [...] escolares e não- escolares [...] XIV – realizar pesquisas que proporcionem conhecimentos [...] XV – utilizar [...] instrumentos [...] para a construção de conhecimentos [...] XVI – estudar, aplicar criticamente as diretrizes curriculares [...] O Art. 6° traz a proposta de estrutura do curso. Afirma que terá: I – um núcleo de estudos básicos; II – um núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos e III – um núcleo de estudos integradores. O núcleo de estudos básicos concentra a maior parte das responsabilidades do(a) pedagogo(a). O núcleo de aprofundamento dedica-se aos estudos de processos educativos e gestoriais, materiais e procedimentos didáticos e estudos das teorias aplicadas a propostas educacionais. O núcleo de estudos integradores pretende que o(a) graduando exercite a comunicação e expressão dos seus aprendizados.
Gostaríamos de apresentar um destaque do núcleo de estudos básicos que, segundo as diretrizes, pretende articular os seguintes
Encaminhando-nos para o final desta apresentação, apontaremos de que tratam os artigos seguintes das diretrizes.
Artigos Enfoques
7° Carga horária total e sua distribuição
9° Cursos a serem criados a partir da publicação das diretrizes
10 Extinção das habilitações anteriormente existentes
11 Transformação de Cursos Normais Superiores em Cursos de Pedagogia
12 Direito dos alunos que estiverem cursando
13 Acompanhamento das diretrizes pelos órgãos competentes
14 A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica
15 Vigência da resolução
A carga horária, definida no artigo 7º, será de, no mínimo, 3.200 horas de efetivo trabalho acadêmico. Essa carga horária será distribuída da seguinte forma: a) 2.800 horas para assistência às aulas, realização de seminários, participação na realização de pesquisas, consultas a bibliotecas e centros de documentação, visitas a instituições educacionais e culturais, atividades práticas de diferentes naturezas, participação em grupos cooperativos de estudos; b) 300 horas para estágio supervisionado em educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental e em outras áreas específicas previstas no projeto pedagógico da instituição; c) 100 horas em atividades teórico-práticas de aprofundamento em áreas específicas de interesse dos alunos, por meio da iniciação científica, da extensão e da monitoria.
Com efeito, a promulgação dessas diretrizes representa o resultado de uma construção “coletiva” iniciada desde a década de 1980. Contudo, por se tratar de matéria diretamente vinculada aos diversos grupos de interesse, o debate ainda não terminou com este ato do CNE. Análises realizadas neste dispositivo legal, feita por educadores, pesquisadores e entidades educativas continuam a permear no campo dos eventos científicos organizados pela ANFOPE, ANPED, ANPAE e no seio das universidades que precisam reformular seus Projetos Políticos Pedagógicos do Curso de Pedagogia. O debate sobre a questão das funções
do curso de pedagogia e a questão de identidade da pedagogia enquanto campo de conhecimento são aspectos que vêm à tona nessas discussões.
1.3. AS DIRETRIZES CURRICULARES DO CURSO DE PEDAGOGIA: COMO