Modelo Coreano - O "Modelo de Capitalismo" que se foi estruturando na Coreia do Sul, durante
o período de industrialização rápida, incluía um sistema financeiro assente no sector bancário, bancos comerciais e bancos especializados, que chegou a estar nacionalizado por inteiro (hoje só o segundo tipo de bancos o está) e em instituições financeiras não bancárias em que se incluíam instituições estatais de desenvolvimento, as trust activities dos bancos comerciais, as mutual
savings , as associações de crédito e outras instituições; o sector bancário privado não esteve até então integrado nos grupos industriais (como acontecia no “modelo japonês”) mas fornecia-lhes financiamentos-chave para as suas estratégias de crescimento e diversificação, de acordo com as orientações do Governo; simultaneamente existia uma rede informal de concentração de poupanças e concessão de créditos, do tipo que é característico nas economias de “matriz chinesa”, fundamental para as empresas PME não integradas nos grupos; sendo que algumas dessas redes podem tinham expressão institucional através das “mutual savings” e associações de crédito; o elevado nível das poupanças das famílias permitia alimentar simultaneamente os dois circuitos. O crescimento rápido da Coreia do sul nas décadas de 70 e 80 contou uma forte intervenção do Estado na definição da estratégia sectorial de industrialização, sem se apoiar basicamente em empresas públicas, mas sim no desenvolvimento de uma multiplicidade de grupos industriais privados diversificados virados para a concorrência internacional, a partir da protecção do mercado interno, onde existia tal como no Japão com os Keiretsus concorrência entre esses grupos em cada um dos sectores em que estavam presentes; esses grupos estiveram, no entanto, estreitamente dependentes das orientações do Estado.
A estrutura empresarial da Coreia do Sul estava organizada em torno de grupos industriais diversificados, atrás referidos - os Chaebol - em número de várias dezenas, embora
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concentrados num núcleo mais restrito; esses grupos, partilham com as economias de “matriz chinesa” um carácter familiar, no que respeita à sua propriedade, embora tenham sido forçados a aceitar uma entrada de gestores profissionais não ligados às famílias; os Chaebol concorrem uns com os outros nos sectores que marcaram, nas últimas décadas, a evolução do aparelho produtivo sul-coreano (siderurgia, construção naval e transporte marítimo, petroquímica, automóvel, electrónica de consumo, micro electrónica, etc.), embora só os maiores estejam presentes na maioria destes sectores. O financiamento da expansão dos grupos baseada no auto financiamento e na transferência de recursos financeiros no interior dos grupos, nos créditos bancários e no recurso aos créditos externos (directamente e indirectamente, através do Estado), apresentando os Chaebol níveis de endividamento fortíssimos que os tornavam vulneráveis a mudanças de conjuntura, ao abrandamento de crescimento e à manifestação de prolongados excessos de capacidade. A dinâmica de inovação estava baseada na actuação dos conglomerados que procedem à aquisição e desenvolvimento selectivo de tecnologias necessárias para as suas estratégias de diversificação, contando com apoios financeiros da banca e com a existência de uma extensa base de recursos humanos com formação superior em ciências e engenharia.
No que respeita à vertente social, o modelo coreano da altura incluía um sistema de suporte da população idosa baseado, por um lado nos sistemas informais de base familiar, e por outro num sistema formal público com elementos de capitalização traduzidos na acumulação de reservas na fase em que o país apresenta ainda população jovem, podendo essas reservas ser canalizadas para o financiamento da industrialização; existindo também uma protecção social eventualmente assegurada pelas grandes empresas, mas muito menos extensiva do que no caso japonês. A regulação salarial era marcada, até ao início da democratização que ocorreu durante a década de 80, pelo poder relativamente fraco dos sindicatos (que estiveram proibidos na fase de arranque da industrialização); sendo que nos anos 80 a maioria dos sindicatos eram estabelecidos a nível de empresa, e existiam limitações à formação de federações nacionais, existindo apenas uma Federação Coreana de sindicatos autorizada e reunindo 19 federações sectoriais; ao mesmo tempo que existe um Conselho Coreano de Sindicatos, não reconhecido oficialmente, representando mais de 800 sindicatos de empresa; por lei é obrigatório que todas as empresas com mais de 50 trabalhadores disponham de “Labour Management Councils” onde são discutidos um conjunto de assuntos, nomeadamente os que se relacionam com segurança no trabalho e formação. A contratação era basicamente realizada entre a administração e o sindicato da empresa; em que a lei e os contratos tenderam durante um longo período a dificultar os despedimentos, existindo um sistema de subsídio de desemprego aplicável aos trabalhadores de
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empresas com mais de 30 trabalhadores, mas concebido de forma a estimular a procura de novo emprego (vd. através da duração limitada dos benefícios).
Modelo Malaio - A Malásia - pais produtor de petróleo e membro da OPEP - adoptou um
modelo económico radicalmente distinto dos restantes membros da OPEP, razão pela qual a referiremos nesta alínea dedicada aos modelos asiáticos. Esse “Modelo de Capitalismo” bastante coerente, originalidade reforçada pelo facto da Malásia ser um país asiático de maioria muçulmana, tendo na sua esfera de influência cultural a Indonésia, o maior país islâmico do mundo. O surgimento deste "Model"o é inseparável da ascensão ao poder de uma frente política apostada na afirmação económica da maioria malaia, face ao tradicional predomínio económico da minoria chinesa do país. Este modelo incluía uma forte intervenção do Estado na definição da
estratégia sectorial de industrialização, apoiada na capitalização da “renda energética”23. Esta
intervenção do Estado que se tem vindo a centrar em dois vectores - a atracção de investimento estrangeiro, nomeadamente para áreas da electrónica e de alta tecnologia, e a promoção de novos sectores com base em empresas nacionais privadas (vd. automóvel, electrodomésticos, aeronáutica), fortemente apoiadas pelo Estado, inclusive através de mecanismos de protecção aduaneira; essas empresas são “entregues” a um grupo restrito de empresários malaios com experiência internacional.
O sistema financeiro, em que além dos bancos privados e da Agência Pública de Desenvolvimento (que desempenhou um papel chave no apoio aos projectos que concretizam a estratégia de industrialização definida pelo Estado), veio a ganhar forte expressão o mercado de capitais. O sistema público de pensões de tipo obrigatório, estava organizado numa entidade única - um “National Provident Fund” - que funcionava segundo o princípio da capitalização e era gerido pelo Governo, que canalizava as poupanças para as necessidades de infra-estrutura e industrialização (vd. tomando títulos e participações), numa fase em que a população ainda é jovem.
No modelo malaio a dinâmica de inovação esteve centrada na atracção do investimento directo internacional, na busca de parceiros externos com “know-how” para os projectos nacionais (vd. a aquisição da Lotus no Reino Unido, para apoiar a empresa nacional de automóvel ou a participação da Malásia no consórcio que retomar as actividades do construtor aeronáutico Fokker, da Holanda, colocado na falência). A regulação salarial, por sua vez, era
23A Malásia é um produtor de petróleo da OPEP e um importante produtor de gás), captada pelo Estado, e também
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mais próxima do tipo competitivo, com tendência a evoluir para acompanhar as necessidades de mão-de-obra mais qualificada.
Modelo(s) Chines(es) - Quando nos pretendemos referir a um “Modelo Chinês” estamos a
encarar uma realidade ainda “virtual”, que podemos tentar construir a partir de cinco realidades distintas que se podem vir a influenciar mutuamente: a experiência de Hong Kong, característica de uma “economia sem Estado”; a de Singapura, limitada pela natureza de uma cidade-Estado; a de Taiwan; a da diáspora chinesa nos países do Sueste Asiático, em cujas economias desempenham um papel crucial e a da República Popular da China, durante o actual período de transição para a economia de mercado (com Hong Kong a ter tido uma influência decisiva na evolução da província chinesa mais avançada nessa transição, Guangdong). Considerando as respostas, nalguns casos diferentes, dadas por estas cinco experiências aos parâmetros de caracterização dos Modelos de Capitalismo referidos no início do texto, e considerando como hipótese de partida que a República Popular da China (RPC) prosseguiria sem graves perturbações o seu processo de transição e de emergência na economia mundial, colocámos como hipóteses inicial que um “Modelo Chinês” de capitalismo na RPC poderia assentar numa estrutura empresarial onde coexistiriam três elementos: uma base gigantesca de empresas privadas de base familiar e de empresas “colectivas” do tipo “Empresas de Vila e Aldeia”, apoiando-se nas redes de solidariedade familiar, clânica e local; um conjunto de grandes conglomerados privados familiares, presentes em sectores mais ligados à informação, à circulação e à renda (comércio internacional, sector financeiro, transportes marítimos, telecomunicações, imobiliário, concessão de infra-estruturas, etc.) e um conjunto de empresas e/ou conglomerados industriais em sectores capital e/ou tecnologia intensivos, de propriedade estatal ou em “joint-ventures” com capital estrangeiro.
Com um sistema financeiro funcionando num contexto de elevadas taxas de poupança das famílias, e em que coexistirão: redes informais de concentração e de poupanças e repartição de crédito (vd. “clubes de crédito” ou huis) que terão a maior importância para o desenvolvimento da base empresarial de PME; bancos do Estado orientados para o financiamento das empresas do terceiro grupo atrás referido; e mercados de capitais que serão fundamentais para financiar as empresas públicas ou as “joint-ventures” e para tornar possível a partilha dos seus resultados e do seu crescimento, por um conjunto de investidores privados e in de Hong Kong (para além do financiamento que possam obter pelo seu próprio “ cash-flow”, pelas poupanças familiares e através das redes informais) e o sistema de pensões poderia evoluir
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para uma solução que incluísse como pilar base um sistema público, em regime de capitalização, eventualmente com gestão privada competitiva, e um pilar complementar produtos financeiros de uso individual geridos por instituições financeiras não bancárias e por investidores institucionais públicos.
A dinâmica de inovação seria baseada numa conjugação das estratégias de incorporação e desenvolvimento de novas tecnologias nos sectores industriais e terciários por associação com investidores estrangeiros, e das estratégias “nacionais” baseadas em programas/empresas públicas orientadas para tecnologias de defesa ou de “uso dual”. Já no que respeita á regulação salarial poderia caminhar-se para um padrão “dual”, aproximando-se do regime “competitivo” para a maioria da economia e do regime “empresarial” para o sector estatal ou misto.