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Câmi ve Mescidlere Yapılan Han, Hamam ve Dükkân Vakıfları

Belgede KONYA VAKIFLARI (sayfa 195-200)

ŞER’İYE SİCİLLERİ IŞIĞINDA KONYA’DA YAPILAN CÂMİ VE

WAQFS RELATED TO THE MOSQUES AND MASJIDS BUILT IN KONYA

A- Câmi ve Mescidlere Yapılan Han, Hamam ve Dükkân Vakıfları

Sujeito, como o próprio étimo da palavra indica, é alguém que está submetido ou subjugado, está submisso a certas determinações. A AD francesa de inspiração pechêuxtiana apostou nessa idéia, segunda a qual para que o indivíduo se torne sujeito do seu discurso, ele é ineviatavelmente interpelado por forças histórico-ideológicas que lhe determinam.

Maingueneau é do parecer de que o ethos do enunciador, quando apropriado pelo co- enunciador (essa questão foi desenvolvida, quando tratamos com certos pormenores a concepção de ethos desenvolvida por Maingueneau) legitima a idéia de um determinado assujeitamento dos sujeitos no discurso.

A AD freqüentemente recorreu à noção althusseriana de “assujeitamento” para designar a identificação de um sujeito a uma formação discursiva, mas ela pouco explicita o funcionamento deste processo. Se o discurso pode “assujeitar” é porque, com toda verossimilhança, sua enunciação está ligada de forma crucial a esta possibilidade ”a noção de “incorporação” parece ir ao encontro de uma melhor compreensão do fenômeno. (MAINGUENEAU, 1997, p. 49)

Percebe-se, porém, que as vezes em que as palavras assujeitamento e assujeitar aparecem na citação acima ocorrem aspeadas. Talvez pelo fato de o autor acreditar que esse assujeitamento não deva ser visto de forma absoluta. Aliás, como acredita Possenti (2002), o total assujeitamento dos indivíduos no discurso foi questionado no interior da própria AD. Costa (2005) chega a afirmar que a relativização da idéia de que os sujeitos do discurso são

totalmente determinados pelos agentes ideológicos pode ser encarada como um traço revelador de uma nova etapa por que passa a AD francesa.

Feitas essas considerações, queremos, daqui por diante, mostrar, a partir das teorizações sobre a imagem que os sujeitos dão de si no discurso realizadas por Pechêux e Maingueneau, especialmente por este último, que o ethos pode ser um expediente discursivo capaz de mostrar como o sujeito pode habitar num espaço identitário de tensão, no qual é determinado por forças que lhe são externas, mas, dada singularidade do seu dizer, também determina as práticas discursivas em que está inserido56.

Examinemos de início a proposta de Maingueneau. De acordo com o autor, o ethos está, como vimos, ligado ao tom que o enunciador dá do seu discurso ao enunciatário e por meio desse tom revela o caráter e a corporalidade do seu dizer.

O que nos chama atenção, nesse aspecto da definição de ethos de Maingueneau, é a forte relação com o que Bakhtin (2002, p.134) já havia denominado de “entonação expressiva” do discurso. Essa vizinhança teórica entre as propostas dos teóricos, pode ser percebida na afirmação de Bakhtin (2000, p. 318) abaixo:

A entonação que demarca o discurso do outro (assinalada pelas aspas no discurso escrito) é um fenômeno de um tipo particular: é como que a transformação da alternância dos sujeitos falantes para o interior do enunciado. As fronteiras que essa alternância edifica são nesse caso tênues e específicas: a expressão do locutor se infiltra através dessas fronteiras e se difunde no discurso do outro que poderá ser transmitido num tom irônico, indignado, simpático, admirativo (essa expressão é transmitida por uma entonação expressiva, e no discurso escrito nós a advínhamos e percebemos graças ao contexto que envolve o discurso do outro, ou graças à situação transverbal que sugere a expressão apropriada).

Dessa forma, tanto em Maingueneau como em Bakhtin, o ethos, enquanto marca expressiva da voz do enunciador, demonstra ser um atributo da singularidade dos indivíduos, uma espécie de assinatura da identidade dos sujeitos, um subjetivema.

Na proposta de Maingueneau, o ethos, como também demonstramos, não está restrito somente à vocalidade que sustenta o dito, mas está intimamente relacionado a um caráter e uma corporalidade. Segundo Maingueneau (1997, p. 47).

56 Sob esse aspecto, o habitus, no sentido utilizado por Bourdieu (1998), compartilha com o ethos um mesmo

O “caráter” corresponde a este conjunto de traços “psicológicos” que o leitor ouvinte atribui espontaneamente à figura do enunciador, em função do seu modo de dizer [...]. Deve-se dizer o mesmo a propósito da “corporalidade” que remete a uma representação do corpo do enunciador da formação discursiva. Corpo que não é oferecido ao olhar, que não é uma presença plena, mas uma espécie de fantasma induzido pelo destinatário como correlato de sua leitura.

Assim, se o “caráter” corresponde a um conjunto de traços psicológicos do enunciador, a corporalidade está relacionada a “uma compleição corporal, mas também a uma maneira de vestir e se movimentar no espaço social” (MAINGUENEAU, 2001b, p. 98-9). Podemos pensar, a partir disso, que o outro só percebe minha individuação enquanto corpo físico, o qual, com características próprias, compartilha, num espaço enunciativo, com outros a fisionomia social do meu corpo. No entender de Merleau-Ponty (apud PARRET, 1997, p. 21), “ o sujeito “percebe” o co-sujeito na sua esfera de aderência como um outro corpo, como um alter-ego”.

Maingueneau, de acordo com o que tratamos no primeiro capítulo, rompe com a abordagem pioneira de Aristóteles sobre o ethos, por duas razões: primeiro, por julgar que as idéias da retórica grega para tratar da questão estavam circunscritas à modalidade oral da língua. O segundo – e aqui esse dado nos interessa mais de perto – diz respeito à recusa do autor em admitir, como aceitava o ethos retórico, um sujeito dotado de intencionalidade. Para Maingueneau (1997, p. 45-6), é preciso:

afastar qualquer preocupação “psicologizante” e “voluntarista”, de acordo com a qual o enunciador, à semelhança do autor, desempenharia o papel de sua escolha em função dos efeitos que pretende produzir sobre seu auditório. Na realidade, do ponto de vista da AD, esses efeitos são impostos, não pelo sujeito, mas pela formação discursiva. Dito de outra forma, eles se impõem àquele que, no seu interior, ocupa um lugar de enunciação, fazendo parte integrante da formação discursiva, ao mesmo tempo em que as outras dimensões da discursividade. O que é dito e o tom com que é dito são igualmente importantes e inseparáveis.

É difícil acatar por completo o que Maingueneau afirma acima. Quem argumenta, por exemplo, não teria o desejo, muitas vezes consciente, de persuadir o seu ouvinte/leitor, embora a FD de onde enuncia controle, sob alguns aspectos, o seu dizer? Ao nosso ver, o que há da relação entre o sujeito e a FD da qual ele faz parte é um movimento de dupla constituição. Se o sujeito só pode existir graças às imposições que a FD lhe imprime, a FD precisa das idiossincrasias dos sujeitos para torná-la possível. Amossy (cf. verbete ethos, in MAINGUENEAU e CHARAUDEAU, 2004), analisando a proposta de Maingueneau no campo da AD, mostra que o “locutor pode escolher mais ou menos livremente a cenografia” para assumir um papel na cena enunciativa. Enfim, esse assujeitamento só pode ser tratado de

maneira aspeada (“voluntarista”, “psicologizante”), do contrário teríamos que admitir um sujeito totalmente sufocado pelos constrangimentos que a FD lhe determina. Diante disso, onde, por exemplo, enquadrar aqueles sujeitos conscientes e lúcidos que resistem e lutam contra as forças manipuladoras na sociedade que tentam controlá-los e subjulgá-los?57

Por outro lado, a proposta do teórico francês, embora efetue esses rompimentos com a proposta da retórica aristotélica, preservou a dimensão ética, existente, de maneira muito forte, na proposta primeira, como pudemos ver no seu conceito de incorporação.

Essa apropriação do ethos por parte do co-enunciador implicaria, segundo Maingueneau (2000b), a criação de um mundo ético partilhado pelos interlocutores, o que validaria a cena enunciativa. Como também mostra Maingueneau, na adesão do ethos pela leitura, está integrado um certo universo de valores. Isto tudo sem falar que a adesão em si já pressupõe uma nuança ética, na medida em que aderir a um discurso consiste em mudar uma posição na qual o sujeito-enunciador se encontra. Essa posição, matizada de valores, deve ser recebida pelo co-enunciador como boa, daí, portanto, o matiz ético da proposta.

Teorizar sobre ethos é também olhar para a constituição da representação do imaginário dos interlocutores no discurso. Percebemos, por exemplo, um forte enlace entre o ethos e aquilo que Pêcheux (1997, p. 82) rotulou de “formações imaginárias”. Trazemos as palavras do autor:

[...] O que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles fazem do seu próprio lugar e do lugar do outro.

Desta relação, podemos interpretar que o ethos, alimentado pela representação imaginária que lhe dá força, é formado a partir dos lugares discursivos que os interlocutores constroem e ocupam na cena enunciativa. É através desse jogo de representações (“Quem sou eu para você e quem é você para mim?”) que o perfil dos parceiros da/na comunicação é formado, o que faz, de acordo com Charaudeau (2001, p. 302), “com que os parceiros só

57 Embora partindo de outras premissas teóricas, quem cultiva a tese de um sujeito assujeitado é a primeira

geração da Escola de Frankfurt, com Adorno e Horkheimer, que, ao estudarem a cultura de massa, acreditam que esse sistema cria uma indústria cultural formadora de indivíduos sem autonomia e dependentes que se mostram impossibilitados de decidir por si mesmos. Para uma crítica dessa visão, cf. Rüdiger (1999).

existam na medida em que eles se reconheçam (e se construam) uns aos outros com o estatuto que eles imaginam”.

Auchlin, refletindo sobre a relação entre ethos e as representações imaginárias construídas nas relações verbais, ressalta:

[...] Quem sou eu para você, quem você é para mim, pela qual Flahault (1978) identificava a dimensão ilocucionária das enunciações” para você “significa simultaneamente “quem sou de acordo com você, com o seu ponto de vista”, e quem eu me faço ser e transformar em teu nome – por causa de você “. Estes dois aspectos são estreitamente entremeados na ocorrência da interação “viva’, onde eles tendem a estabilizar-se em uma única problemática de identidade, projetada e ratificada (ou não): o segundo, “projetivo” é, contudo, evidentemente ausente das experiências verbais não-interativas, que se contentem em validar o ethos ou não.

Amossy (1999, p. 11), fazendo um sumário das muitas propostas sobre o estudo do ethos, vê nessa faceta da teoria de Pechêux uma possibilidade de os locutores construírem uma imagem de si e do outro. Tal é a relação desse jogo de imagens no discurso com o ethos que Adam (cf. verbete esquematização, in MAINGUENEAU e CHARAUDEAU, 2004 e ADAM, 2005) chega a associar as representações da imagem que A e B fazem respectivamente de si e do outro na troca discursiva à teoria aristotélica do ethos. A questão é saber se, mesmo à revelia das teorizações de Pechêux sobre o sujeito do discurso, que postulam que um sujeito enunciador portador de escolhas e intenções só pode ser visto com mera ilusão da subjetividade, muitas das representações do locutor no discurso não são fruto de um sujeito, que, dotado de certas intenções, cria estratégias para representar a si e o outro no intercâmbio comunicativo.

Terminemos este tópico com as palavras de Rajagopalan (1997, online), que faz uma avaliação crítica sobre as implicações que a concepção estruturalista do sujeito althusseriano traz para abertura de um sujeito ético, concepção em que se estriba o pensamento de Pechêux:

Como é sabido, a ética envolve a possibilidade e a liberdade de escolha, que por sua vez depende de um mínimo de poder decisório por parte de um sujeito dotado de um grau de autonomia para efetivamente exercê-lo. O sujeito completamente determinado não tem nenhuma escolha sobre os seus atos e, por conseguinte, não pode ser responsabilizado em relação aos mesmos. O sujeito ético precisa estar ‘situado’ na história; ele necessariamente tem um passado, um percurso histórico vivenciado, e à luz das lições apreendidas, a capacidade e a vontade de interferir no rumo dos acontecimentos, tomando decisões que fatalmente afetarão seu futuro e o futuro dos seus pares. Como diz François Dosse (1994, p. 431-2), referindo-se ao trabalho monumental de Althusser:

O empreendimento era animado por um rigor e uma honestidade superlativos, mas pode-se, entretanto, perguntar, como Robert Maggiori, se “ao querer fazer do marxismo uma ciência e matar o humanismo, ao desprezar as exigências éticas, ele

não contribuiu para matar o marxismo ao querer salvá-lo”. Mais um ardil da razão que seria a desforra póstuma da dialética contra a noção de corte epistemológico.

Síntese

Foi nossa intenção, ao longo desse capítulo, mostrar, através da contribuição de enfoques teóricoS diversos, que é na e pela linguagem que os sujeitos se constituem eticamente, através da imagem que dão de si, o que poderá ser, especialmente constatado, pelo uso que faz dela o discurso religioso e, no nosso caso especificamente, pela linguagem narrativa das parábolas, o que será demostrado quando, na segunda parte da tese, analisarmos as histórias contadas por Jesus aos seus ouvintes.

Essa subjetividade ligada ao ethos, quisemos mostrar também, opera, ao mesmo tempo, sob duas dimensões. Numa dimensão, o sujeito, na sua prática discursiva, é determinado por mecanismos que lhe são exteriores, advindos da formação discursiva em que está inscrito (ainda que também, mesmo aí, o próprio sujeito afete a FD na qual se situa), que lhe sobrevêm para dar-lhe uma identidade.

Noutra dimensão, o sujeito ético da linguagem de que também tratamos, embora, muitas vezes, lacanianamente falando, sofra determinações que lhe escapem a consciência e a intencionalidade, não é um sujeito totalmente privado nem de consciência e tampouco de intencionalidades do seu dizer, como pressupõem as abordagens pragmático-enunciativas, porque é um sujeito que se reconhece, enquanto agente moral, responsável pelos seus atos de linguagem em vista de que esses atos de linguagem, através de determinadas escolhas lingüísticas, são para o outro, são com o outro. É um sujeito que, por isso mesmo, também se reconhece único, reconhece suas singularidades, ainda que esteja ciente de que necessita de outros sujeitos para construir sua própria individualidade.

Além do mais, como afirma De Certeau (1994, p. 79), nas práticas cotidianas, a ação do homem resiste a determinados assujeitamentos, porque há:

Mil maneiras de jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja, o espaço do instituído por outros, caracteriza atividade, sutil, tenaz, resistente, de grupos que, por não terem um próprio, devem desembaraçar-se em uma rede de forcas e representações estabelecidas. Tem que “fazer com”.

O sobredito encontra eco na conclusão a que Auchlin (2001, p. 222) chega a respeito de uma noção essencialmente prática do ethos, quando diz:

Em nossa prática ordinária do discurso, o ethos responde às questões empíricas efetivas que têm como particularidade serem mais ou menos co-extensivas ao nosso próprio ser, relativas a uma zona íntima pouco explorada de nossa relação com a linguagem, onde nossa identificação introduz estratégias de proteção.

3 ETHOS E GÊNERO DISCURSIVO: UMA SIMBIOSE PROFÍCUA

“Convencionamos chamar gênero discursivo a essa vertente tipológica, formal do modo de enunciação. Esse é apenas a contrapartida de um outro, menos freqüentemente apreendido, o tom”. (MAINGUENEAU, 2005, p. 95).

Introdução

Toda interação, via gênero discursivo, implica a construção de uma representação de si e do outro. O gênero discursivo cria, dessa forma, um espaço enunciativo para a imagem e o caráter dos interlocutores serem construídos e fabricados por meio de um jogo lingüístico através do qual os parceiros dessa interação legitimam sua identidade. Frente a isso, nossa principal incumbência neste capítulo é mostrar uma forte vinculação entre ethos e gênero do discurso a fim de, mais adiante, na segunda parte da tese, verificar de que forma a articulação entre estes dois conceitos pode servir para analisar, como, no gênero “parábola bíblica”, o ethosdos interlocutores desta encenação é construído.

Para garantirmos o suporte teórico deste debate, apoiar-nos-emos em especial nas propostas de M. Bakhtin e D. Maingueneau para a condução das reflexões.

Antes de iniciarmos essa discussão teórica, valem dois esclarecimento. Há hoje uma série de estudos e propostas tipológicas para a análise dos gêneros no âmbito dos estudos lingüísticos, tais como as sócio-semióticas, as sócio-retóricas e as sócio-discursivas, tomando de empréstimo a nomencalatura proposta por Meurer et al. (2005), que organizaram uma obra com diferentes abordagens para os estudos dos gêneros discursivos58. As nossas reflexões sobre a relação entre gênero e ethos se articula melhor com este útimo tipo de enfoque, devido a sua afinidade com o quadro teórico que ampara nossa pesquisa, o que não quer dizer que os outros tipos de abordagens não tenham ressonâncias na proposta que adotamos como central e que esta, por seu turno, não influcie aquelas outras abordagens. O segundo esclarecimento é

58 Maingueneau (1998), seguindo as idéias de Petijean, propôs também uma tipologia para a classificação dos

discursos e seus gêneros, dividindo-a em três espécies, a saber: uma tipologia enunciativa (discurso e história), baseada em E. Benveniste, uma tipologia comunicacional (as funções da linguagem), baseada em R. Jakobson e, por fim, uma tipologia situacional, baseada em M. Bakhtin (gêneros primeiros e secundários) e J. Bronckart (arquétipos discursivos e tipos efetivos). Brandão (2000), por sua vez, estendeu esta lista e criou ainda uma série tipológica para os diversos enfoques sobre o estudo dos gêneros de discurso, como a funcional, a enunciativa, a cognitiva e a sócio-interativa.

que, embora a proposta de Bakhtin seja anterior à de Maingueneau, exploraremos primeiro esta ao invés daquela só em razão do planejamento do capítulo.

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