OSMANLI DÖNEMİ KONYA KÜTÜPHANE VAKFİYELERİ
FOUNDATION CHARTERS OF LIBRARIES IN KONYA DURING THE
III. YUSUF AĞA KÜTÜPHANESİ’NE SONRADAN DÂHİL EDİLEN
2- Şeyh Sadreddin-i Konevî Camii Kütüphanesi Kitapları Listesi
Na área dos estudos da linguagem, é sobejamente conhecida a teoria do filósofo inglês J.L. Austin (1990) sobre a análise do que se faz ao falar. Grosso modo, sua teoria dos Atos da Fala pressupõe que a linguagem não seja encerrada na sua dimensão puramente representacional, ela, a fortiori, deve ser focalizada sob o aspecto (inter)acional. Daí surge a célebre distinção entre enunciado constativo e enunciado performativo.42 Por enunciado constativo, Austin (op. cit.) entende os enunciados cuja função é simplesmente exprimir uma constatação ou descrever um estado de coisas (“O gato está sobre o tapete”); já por enunciado performativo, o autor compreende os enunciados que, ao serem ditos, executam uma ação (“Prometo-lhe a vida eterna”). A diferença mais marcante entre ambos é, segundo a orientação austiniana, que os constativos podem ser verdadeiros ou falsos (o gato pode ou não estar sobre o tapete); os performativos – usados na forma afirmativa na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa – podem ser felizes ou infelizes, ou seja, ter ou não sucesso na sua execução (quem me promete a vida eterna tem que ter as condições exigidas para pronunciar tal enunciado a fim de que seu ato de fala obtenha êxito. Ao prometer, o ato da promessa se realiza). Os enunciados performativos acabam também por revelar a dimensão de autoridade e das relações de poder no discurso.
42 Esta distinção foi revista posteriormente pelo próprio Austin, o qual desconfiou que, mesmo em enunciados
constativos, subjazem enunciados performáticos mascarados. Para um maior aprofundamento da questão, ver Ottoni (1998) e Cervoni (1989).
Entretanto, a teoria dos atos de fala, como salienta Pinto (2001, p. 60) comentando o pensamento de Derrida sobre o assunto:
[...] não é uma simples bipartição entre enunciados constativos e enunciados performativos ou um levantamento de níveis de ação lingüística. A teoria de
Austin, para Derrida, expõe a dimensão ética da linguagem, porque leva às últimas conseqüências a identidade entre “dizer” e “fazer” e insiste na presença do “ato na linguagem” e não aceita a separação entre descrição e ação. (Grifo
meu)
É a partir da premissa básica de que falar é agir43 que, de acordo com os postulados austinianos, podemos realizar, nas trocas verbais, três atos simultaneamente, ao que o autor rotula de ato locutório, ilocutório e perlocutório. No ato locutório, o dizer está apoiado simplesmente em um sentido e em um referente organizado conforme a gramática da língua. No ilocutório, o dizer revela a intenção de quem fala (um pedido, um comando etc.), o que geraria a força ilocucional do enunciado. Já no ato perlocutório, o dizer produz um determinado efeito para quem se dirige esse ato de linguagem (a persuasão, por exemplo). De acordo com Auchlin (2001, p. 202) :
[...] existe uma parte ilocucionária e uma parte perlocucionária do ethos; seus meios vão desde escolhas lexicais às escolhas dos argumentos, passando não só pelo tipo de estrutura discursiva (dispor a conclusão, o argumento, o contra-argumento, em uma ordem ou em outra pode ser decisivo para o ethos), mas também pelo ritmo e pela elocução.
Dessa articulação entre os atos de fala e o ethos, o que se pode, então, afirmar também é que um sujeito não pode ser apreendido senão pelos seus atos, os quais são conhecidos, não raras vezes, pela forma do seu discurso. Dessa forma, é, pela práxis discursiva, que se pode remontar ao ethos, tendo em vista que nossas ações – sobretudo as ações pelo discurso - configuram o nosso ethos. Guimarães (1995, p. 43), avaliando as teorias austiniana e serleana dos atos de fala, afirma: “Falar é comportar-se de um certo modo”. De acordo com Maingueneau (1997), o ethos discursivo pode associar uma “maneira de dizer” a uma “maneira de ser”, com o que corrobora e, ao mesmo tempo, amplia a tese griceana do “dizer é fazer”. Agora o princípio é “dizer é ser”(ou parecer ser). A título de exemplo, Maingueneau (op. cit., p. 48), aludindo à análise que J. Guilhamou fez do jornal “Sans-culotte” de Herbert, Le Père Dushesne, discurso que circulava durante a Revolução Francesa, mostra, pelo estudo,
43 Embora nascida no seio dos estudos estruturalistas norte-americanos de orientação bloomfieldiana, a teoria
tagmêmica proposta por Keneth Pike, lingüista, antropólogo e filósofo cristão, enxerga, assim como a teoria austiniana, a linguagem como um tipo de comportamento, a partir do que deve ser estudada no contexto das relações humanas como um todo, envolvendo os apectos verbais e não verbais. Para uma exposição dessa teoria, deve-se consultar Robins (1979) e Paveau e Sarfati (2006).
a relação entre a construção do ethos popular do enunciador nessa esfera discursiva à força ilocutória do seu discurso:
Há uma certa “figuralidade do corpo”, inseparável deste efeito popular, a qual se inscreve em uma organização institucional, o espaço onde se desenvolve o conflito, para investir a imagem do corpo político imposta pelo jacobinismo e seus aparelhos.
Longe de ser um ornamento ou um procedimento, esta fala pretende ter um valor pragmático, ela “contribui, através de seu valor ilocutório, para significar a prática do militante “sans-culotte”. (Destaque meu).
Não será temerário, portanto, afirmar que enunciados performativos evocam a presença de um enunciador dotado de um ethos de autoridade.
Ricoeur (1988, p. 25-26) capta muito bem o fundamento ético que subjaz ao pensamento de Austin no tocante acima, quando ressalta:
O discurso da acção precede de outra forma o discurso ético. A referência a um agente responsável sugerida pela teoria do acto de discurso (performativo, acto elocucionário) assinala o espaço vazio de acto reflexivo de recuperação. A responsabilidade é aqui o ponto de convergência dos dois discursos: consiste em atribuir a acção a um autor, o que se pode compreender no quadro da fenomenologia lingüística. A isso acrescenta-se uma promessa em primeira pessoa, pela qual o sujeito ético se responsabiliza pelas conseqüências de sua acção.
É aqui que surge a segunda espécie de relações entre a fenomenologia e a ética. O discurso ético é de uma natureza diferente da do discurso descritivo; em primeiro lugar, claro está, porque introduz noções como norma, valor, obrigações.
O discurso ético é um discurso e acção significativa.44
Centrando sua atenção, ao longo de sua obra, mormente nos proferimentos ilocutórios, Austin propõe, como já salientamos, que tais proferimentos atendam a determinadas “condições de felicidade”, ou seja, os usuários da língua devem obedecer a determinadas regras e convenções lingüístico-pragmáticas para que as interações verbais se efetivem com vistas à obtenção de êxito. Para Bourdieu (1998, p. 60): “[..] estas “condições de felicidade” constituem condições sociais, e aquele que pretende se sair bem no batismo de um navio ou de uma pessoa deve estar habilitado a fazê-lo, da mesma maneira que, para dar ordens, é preciso ter uma autoridade reconhecida sobre o destinatário da ordem”. Com isso, o autor
44 Percebe-se que Ricoeur usa o termo “teoria do ato de discurso”, ao invés de “teoria dos atos de fala”, como
usualmente se costuma dizer, para mostrar fidelidade à expressão em inglês “Speech of Act”. A despeito de “atos de fala” já estar consagrado, talvez fosse mais apropriado fazer uso da expressão “atos de discurso”, porque, como se sabe, a teoria austiniana, na sua aplicação, não se subsume ao registro falado, mas se expande para a modalidade escrita. Maingueneau (1998, cf. verbete atos de linguagem) propõe que se chame de “atos de linguagem”, o que também pode ser uma nomenclatura alternartiva mais coerente.
mostra que estudos dos atos de fala – sobretudo os perfomativos - transbordam os limites do propriamente lingüístico e se desloca para o terreno do socialmente institucionalizado.
O limite para o qual tende o enunciado performativo é o ato jurídico que, quando pronunciado por quem de direito, como convém, ou seja, por um agente que atua em nome de todo um grupo, pode substituir o fazer por um dizer que será, como se diz, conseqüente: o juiz pode-se contentar em dizer “eu o condeno” pelo fato de existir um conjunto de agentes e instituições garantindo a execução da sentença. A busca do princípio propriamente lingüístico da “força ilocionária” do discurso dá então lugar à busca propriamente sociológica das condições em meio às quais uma gente singular (e com ele a sua fala) pode-se achar investido de tal força. O verdadeiro princípio da magia dos enunciados perfomativos reside nos mistério do ministério, isto é, na delegação ao cabo da qual uma gente singular (rei, sacerdote, porta-voz) recebe o mandato para falar e agir em nome do grupo, assim constituído nele e por ele; tal princípio encontra-se, mais precisamente, nas condições sociais da instituição do ministério que constitui o mandatário legítimo como sendo capaz de agir através das palavras sobre o mundo social pelo fato de instituí-lo enquanto médium entre o grupo e ele mesmo; isso ocorre, entre outras coisas, ao municiá-lo com signos e insígnias destinados a lembrar o fato de que ele não age em nome pessoal e de sua própria autoridade.
Amossy (2005, p. 119-120), avaliando a crítica de Bourdieu à teoria dos atos de fala de Austin, em mostrar que “ação exercida pelo orador sobre seu auditório não é de ordem linguageira, mas social”, relaciona a problemática do ethos como construção de imagens no discurso, defendendo a tese de que a eficácia da autoridade do enunciador, pelos atos de linguagem, depende, ao mesmo tempo, da imagem de si que ele constrói no discurso, quanto da sua posição social dentro dos “quadros institucionais e nos ritos sociais”, o que permite a autora propor um “ethos discursivo” e um “ethos institucional” para se analisar a eficácia da palavra do orador no discurso. Assim, devem-se distinguir dois papéis que o sujeito do discurso apresenta e precisa validá-los junto ao seu interlocutor: um papel discursivo ou linguageiro, reconhecido pela força do discurso do locutor, e um papel institucional, legitimado pelo lugar que o locutor ocupa nos quadros institucionais que a sociedade toma como válidos e legítimos.
Para o nosso caso, dentre uma série de condições de emprego para a relação comunicativa se tornar apropriada e, assim cumprir a sua eficácia, que Austin arregimenta, chamamos atenção para o status do locutor. Por exemplo, para que um ato de fala, como prometer, tenha sucesso, é imprescindível que o ouvinte/leitor creia no status do locutor; deposite nele sua confiança; aceite como verdade o seu proferimento. A respeito de prometer como ato de fala, associado à sua concepção triádica de ethos, que implica o cuidado de si, do outro e das instituições justas, Ricoeur (1996, p. 172-173) destaca:
A promessa une, efetivamente, a tríade lingüística e a tríade ética. Por um lado, a promessa é um ato de discurso entre outros. Ela implica simplesmente a regra constitutiva segundo a qual dizer “Eu prometo” é obrigar-se a fazer algo. Mas este engajamento implica mais do que eu mesmo. O que, de fato, me obriga a manter a minha promessa? Três coisas: por um lado, manter a promessa é manter a si mesmo na identidade daquele que disse e daquele que amanhã fará. Essa manutenção de si anuncia a estima de si. Por outro lado, sempre prometemos a alguém: “Eu te prometo fazer isto ou aquilo”; e a inversão que havíamos observado a respeito do reconhecimento mútuo se produz aqui: é porque alguém conta comigo, espera que eu mantenha a minha promessa, que eu mesmo me sinto obrigado. Por fim, a obrigação de manter a própria promessa equivale à obrigação de preservar a instituição da linguagem, na medida em que esta, por sua estrutura fiduciária, baseia- se na confiança de cada um na palavra de cada um; desse ponto de vista, a linguagem aparece não apenas como instituição, mas como uma instituição de distribuição: de distribuição da palavra, se assim posso dizer. Na promessa, a estrutura triádica do discurso (locução, interlocução e linguagem como instituição) e a estrutura triádica do ethos se sobrepõem mutuamente.
Perguntar-nos-íamos, nesse sentido, se o ethos - ou seja, a imagem, o caráter que o locutor empresta ao seu dizer - não seria uma das condições de felicidade. Ora, como pregava a retórica grega, para que um proferimento verbal seja exitoso, nele devem existir as credenciais do seu locutor para que legitimem, através de um ar de autoridade e de benevolência, o seu discurso. Autoridade e afeto parecem ser, pois, expedientes para o cumprimento das condições de êxito dos atos de discurso45. Além disso, com Bourdieu (op.cit.), podemos acrescentar a isso que os atos de fala têm forte relação com a héxis corporal (habitus). Assim, a corporalidade do enunciador (como a vestimenta, a postura corporal, a gestualidade, enfim toda a héxis corporal) que o ato discursivo exige para que determinadas elocuções se efetivem com sucesso frente ao co-enunciador constitui-se num elemento fundamental para o ethos que o enunciador deseja elaborar. A propósito, Adam (2005), ao analisar algumas marcas na construção do ethos no discurso político de Petain e De Gaulle, mostra como alguns atos de fala são reveladores da imagem que os enunciadores objetivam construir frente ao seu público.
Da idéia das condições de sucesso para o ato de fala, pode-se também inferir com Alston (1972, p. 74) que: “O comportamento lingüístico, como a maioria das outras formas de comportamento, está sujeito a regras morais e de etiqueta” ou com Auchlin (2001, p. 222), que, discutindo sobre a dimensão moral do ethos, afirma: “o exercício e a exploração da experiência linguageira são, de certo modo, intrinsecamente morais”. É preciso, pois, dizer
45 Charaudeau (2006, p. 119) chama de condição de performance a imagem de credibilidade que o enunciador
deseja mostrar frente ao seu público através dos “meios de pôr em prática o que enuncia ou promete”, para o que precisa da condição de eficácia, que designa se aquilo que o sujeito enuncia é aplicado e seguido de efeitos positivos.
que essa ação lingüística saturada de elementos éticos cria um meio pelo qual os sujeitos se revelam a si mesmos e aos outros e, dessa maneira, promove um espaço público adequado para o ethos de manifestar. Ao propor uma teoria ética para o entendimento do discurso, Habermas (1989), cuja ligação com o pensamento austiniano é muito forte, mostrou que nossas ações dialogais são ações instrumentais orientadas ao êxito, pelas quais firmamos um pacto ético com o nosso parceiro da comunicação.
Nesse rumo, Oliveira (1996, p. 154), interpretando o pensamento de Austin, pondera:
A linguagem é um modo de agirmos no mundo, uma prática social concreta; em outras palavras, a linguagem é uma forma de atividade social, uma “forma de vida” na expressão de Wittgenstein. Ao falar, os falantes usam regras que se originam de uma práxis social. Então o significado das expressões não se constitui das intenções privadas do sujeito falante, mas a partir de práticas e instituições de uma comunidade lingüística.
Com respeito aos atos ilocutórios, é digno de nota o que afirma Alston (op. cit., p. 80-1) para demonstrar a estreita articulação entre o pensamento de Austin e uma teoria ética que lhe dá fundamento:
A análise dos atos ilocutórios é também de importância decisiva na ética. Grande parte da teoria ética procura estabelecer o que é que fazemos quando formulamos juízos morais. Devemos ser claros a tal respeito se quisermos saber que considerações são apropriadas para corroborar e criticar tais juízos. De fato, “juízo moral” é uma expressão-cortina, cobrindo um grupo organizado de tipos de atos ilocutórios: reprimendas, intimações, exortações, ordens, imputações de obrigações etc.
E o autor alonga o comentário, asseverando: “As várias posições na teoria ética podem ser distinguidas de maneira sumamente proveitosa mediante as diferentes posições que assumem na natureza de tais atos ilocutórios [...]”.
Encontramos em Austin (1990) uma declaração que sustenta a idéia de que há uma forte inspiração ética nos pressupostos teóricos que orientam o pensamento do filósofo oxfordiano, com vistas à admissão de um sujeito ético que dá uma imagem de si conforme aquilo com o que o seu dizer se compromete:
Quando digo “prometo [...] não anuncio tão-somente a minha intenção mas, usando essa forma (fazendo esse ritual), liguei-me a outrem, arrisquei a reputação [...] Quando digo “sei” dou aos outros a minha palavra: dou lhes minha autoridades para que digam ‘S’ é ‘P’.
Percebe-se, com Austin, que os sujeitos ganham uma dimensão axiológica porque estão na relação direta com o outro através da força ilocutória que permeia essas interações discursivas. Na verdade, como sustenta Parret (1997, p. 14): “a questão dos fundamentos da pragmática surge quando o objeto pragmático é percebido como uma axiologia, como um sistema de valores”. Tomando a prática discursiva em que Jesus se relaciona através das parábolas, Ladrière (1977), baseado em Evans, mostra como a teoria austiniana dos Atos de Fala, com algumas reformulações, pode dar explicações para o funcionamento do discurso parabólico de Jesus46.
Além dessas questões em torno do pensamento de Austin, gostaríamos de ressaltar que a orientação ética na proposta austiniana advém, como sustenta com muita propriedade Berti (1997), da forte vinculação do filósofo inglês com o pensamento ético de Aristóteles, de quem recebeu muitas influências. Berti ressalta que a influência aristotélica sobre Austin não poderia soar como algo estranho, já que, como professor de Filosofia Moral em Oxford, Austin manteve contato desde cedo com o pensamento do filósofo grego, de quem estudou a obra Ética a Nicômaco47com exaustão, sem falar da análise que fez dos textos de Aristóteles que discutiam questões relativas à linguagem. Berti (1997, p. 155-6) chega mesmo a dizer que Aristóteles influenciou a Teoria dos Atos de Fala proposta por Austin:
Pois bem, todos admitem que o conceito de “enunciado performativo” e, em geral, as distinções entre os diferentes usos da linguagem foram sugeridas por Aristóteles. Este, com efeito, em uma famosa passagem do De Interpratatione, afirma que todo “discurso” (logos) é significante (semântikos), mesmo que por convenção, e distingue o discurso “enunciativo” (apophantikós), ao qual pertence-o exprimir o verdadeiro e o falso, de outra discussão, como por exemplo a oração que não são nem verdadeiras nem falsas, para cuja investigação ele remete à Retórica e à Poética. Não é difícil reconhecer nesta distinção a teoria de Austin entre enunciados constativos e enunciados performativos.
Em seguida, Berti (op. cit.) sublinha outro forte ponto de contato entre as idéias aristotélicas e a teoria austiniana, salientando que:
Além disso, na primeira destas duas obras (retórica), ele (Aristóteles) distingue três etapas de “persuasões por meio do discurso”, a saber, aquelas que repousam no caráter de quem fala, aquelas que consistem em dispor de certo modo o ouvinte e aquelas que simplesmente mostram ou parecem mostrar. Ainda que esta distinção não coincida perfeitamente com a estabelecida por Austin entre atos locutórios,
46Para maiores detalhes sobre a aplicação dos atos de fala para o estudo dos textos bíblicos, ver Rabuske (1994). 47 É preciso dizer que nessa obra Aristóteles expõe uma teoria do ethos, baseado nas virtudes éticas do ser
humano, diferente da que apresenta na Arte Retórica em que o ethos, embora assuma uma dimensão também ética, é tratado mais como recurso estratégico do orador para persuadir o seu público. Para maiores esclarecimentos sobre as diversas conotações que o termo ethos apresenta na literatura aristotélica, consulte-se: Vergnières (2003), Eggs (2005) e Murachco (1997).
ilocutórios e perlocutórios dúvida de que se trate sempre de uma distinção entre diferentes “atos de fala”.
É fácil perceber, da interpretação acima feita por Berti, que há uma estreita relação entre a teoria austiniana dos atos de fala e a teoria do ethos (“o caráter de quem fala") e do pathos (“dispor de certo modo o ouvinte”) retóricos propostos por Aristóteles. Poderíamos dizer ainda, dessa relação, que três efeitos perlocutórios, na Retórica, são perseguidos pelo locutor: agradar, informar/convencer e comover. Assim, comporíamos o seguinte quadro:
a) agradar: pela boa imagem que o orador projeta no seu discurso, o que equivaleria ao ethos;
b) informar e convencer: pela lógica de sua narrativa e de sua argumentação, o que equivaleria ao logos;
c) comover: pelo afeto que busca suscitar através da comoção do público, o que corresponderia ao pathos.
Se Austin, além de herdeiro do pensamento aristotélico, como tão bem demonstrou Berti (op. cit.), é tributário da orientação teórica que recebeu da chamada Filosofia Analítica de Wittgenstein na sua segunda fase, como mostrarão em concordância Oliveira (1996), Ottoni (1998), Pinto (2001) e Costa (2002), ao enxergar a linguagem humana como uma atividade social, ou, na expressão wittgensteiniana, como um “jogo de linguagem”; o pensador inglês, por outro lado, exercerá forte influência em toda uma série de teóricos, dos