No ano de 2004 foi estabelecido no município de Belo Horizonte um convênio entre as instâncias municipal e federal, viabilizado pelos programas Crédito Solidário, Moradias por Autogestão e pelo Orçamento Participativo da Habitação. Esse convênio é o primeiro reflexo significativo da deliberação do CMH que prevê a complementação dos recursos conquistados via OPH, através de parcerias junto a outras instâncias. Essa experiência se destacou também por propor a autogestão desde as etapas de projeto.
Nessa parceria as associações moradia conquistaram, via OPH, recursos para aquisição do terreno e desenvolvimento dos projetos, associados à quantia de R$5.000,00 por unidade para a execução das obras. No processo de negociação
tais recursos foram colocados como contrapartida para o governo federal, uma vez que os recursos do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS), investidos no Crédito Solidário à ordem de R$20.000,00 por unidade, também necessitariam de complementação.
Ainda no ano de 2004 dois processos ocorrem quase que simultaneamente e de forma complementar, com o objetivo de estabelecer espaços de discussão e ampliar o leque de assessorias técnicas responsáveis pelos projetos a serem desenvolvidos.
O primeiro desses processos foi o Curso de Capacitação em Arquitetura e Engenharia Pública, realizado através da parceria entre o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (CREA-MG) e o Instituto de Arquitetos do Brasil seção Minas Gerais (IAB-MG), que contou com a presença de importantes nomes da habitação de interesse social no Brasil como Demetre Anastassakis, Margarete Maria de Araújo Silva, Ricardo Moretti, dentre outros.
O outro processo foi a realização de uma série de reuniões na PUC-Minas com a participação de diversas associações, assessorias, técnicos da SMAHAB e profissionais ligados à questão.
Apesar da peculiaridade de cada um, ambos processos foram marcados pelo compartilhamento de experiências e metodologias, de modo a discutir possibilidades de se ampliar a atuação dos profissionais de arquitetura e engenharia no campo das habitações de baixa renda. No caso das reuniões ocorridas na PUC a discussão abordou, principalmente, assuntos ligados à parceria municipal com o programa Crédito Solidário, dentre os quais as metodologias a serem adotadas, os parâmetros técnicos postos pela SMAHAB e o desafio de capacitar novos profissionais para trabalhar com esse assunto, de modo a ampliar o leque de assessorias técnicas.
Para a contratação das assessorias técnicas a SMAHAB elaborou um termo de referência com o objetivo de apoiar as Associações na contratação destes serviços, além de estabelecer parâmetros técnicos para a contratação. Esse tipo de procedimento pode criar uma ingerência da SMAHAB sobre as Associações na condução do processo, uma vez que esta pode tornar-se, em determinadas situações, mera intermediadora. Mônica Bedê19, por outro lado, afirma que tal ação é
19 dado baseado em entrevista realizada junto à arquiteta Mônica Cadaval Bedê, ex integrante do
importante para garantir a qualidade dos trabalhos e resguardar as associações, uma vez que, no passado, houveram experiências de assessoramento técnico, realizadas de forma independente do poder público, que resultaram no projeto de habitações completamente inadequadas.
Com base nos parâmetros contidos no termo de referência as Associações e a SMAHAB estabeleceram parcerias junto ao IAB-MG e aos cursos de arquitetura e urbanismo vinculados à Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (EAUFMG), à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e ao Unicentro Izabela Hendrix. No caso do IAB-MG a parceria se deu através da seleção de três equipes, dentre quarenta e três profissionais cadastrados, que participaram anteriormente do Curso de Capacitação em Arquitetura e Engenharia Pública (IAB, 2005). A PUC-Minas, através do Escritório de Integração e do Programa Arquitetura e Engenharia Pública, se candidatou ao desenvolvimento de três projetos, que se daria nos moldes de uma atividade de extensão. O curso de arquitetura do Unicentro Izabela Hendrix, com base na experiência ligada à capacitação de movimentos populares, se estruturou, também como atividade de extensão, para o desenvolvimento de dois projetos. Nesse mesmo período o Departamento de Projetos da EAUFMG iniciou uma ampla pesquisa vinculada ao desenvolvimento de um dos projetos da parceria SMAHAB e Crédito Solidário20
. Nesse âmbito, 13 projetos habitacionais de baixa renda foram desenvolvidos em Belo Horizonte durante o ano de 2005, com o propósito de se produzir 1.356 unidades habitacionais. O quadro abaixo apresenta a configuração dos projetos desenvolvidos nesse período.
20 o projeto RSV FINEP, desenvolvido pelo Departamento de Projetos da EAUFMG, teve a
Projeto Número de unidades Equipe Técnica / Instituição Federação Pró- Moradia
Castelo 01 84 Izabela Hendrix UEMP
Castelo 02 140 Izabela Hendrix UEMP
Diamante 02 80 CJ Arquitetos Associados UEMP Itaipu 60 RLMG Consultoria LTDA UEMP
Juliana 90 Schmidt Arquitetura
e Urbanismo LTDA
UEMP
Mar Vermelho 02 103 PUC-Minas UEMP
Quibebe 208 Arquitetural UEMP
Residencial Serra
Verde 77 EAUFMG
UEMP
Santa Rosa 01 56 SMAHAB UEMP
Santa Rosa 02 50 PUC-Minas UEMP
São Tomáz 03 8 SMAHAB UEMP
Granja de Freitas 05 200 Arquitetos e
Consultores
FAMENG
Granja de Freitas 06 200 Arquitetos e
Consultores
FAMENG
Quadro 02: Projetos desenvolvidos pelo convênio SMAHAB/Crédito Solidário entre os anos de 2004 e 2005
Fonte: SMAHAB, 2005
À exceção dos dois projetos sob responsabilidade da SMAHAB, cujos desenvolvimentos foram concluídos anteriormente, os demais empreendimentos buscaram, em maior ou menor grau, diferentes formas de participação do futuro usuário.
Além dos projetos supracitados merece atenção o caso do Residencial Paineiras, também vinculado ao convênio SMAHAB e Crédito Solidário, que após enfrentar resistências por parte dos seus futuros vizinhos, articulados em uma série de protestos contrários à execução do conjunto, foi abandonado. Os protestos empreendidos por vizinhos, infelizmente, têm sido uma realidade constante nos projetos habitacionais de baixa renda, e mostra uma face da discriminação social existente no país.