Esta segunda parte deste capítulo se destinará a responder as perguntas relativas ao segundo problema orientador da presente pesquisa, quais sejam: O regime jurídico brasileiro de tributação de lucros auferidos no exterior interfere no processo de internacionalização produtiva das empresas brasileiras? Há impactos do regime na competitividade das empresas nacionais no mercado internacional? Caso positivo, como os efeitos advindos do regime se operam na prática? Ainda não trataremos do confronto dos efeitos econômicos advindos do regime brasileiro com a Ordem Econômica Constitucional pois esta análise será objeto de tópico específico no capítulo 4.
Nesta parte, buscaremos testar a hipótese de que o regime brasileiro de tributação de lucros auferidos no exterior não interfere no processo de internacionalização produtiva de empresas de capital nacional, não obstante o seu desenho amplo. No entanto, partimos também da hipótese de que o regime possui efeitos econômicos sobre as empresas na conquista de novos mercados. Assim, esta hipótese será testada e, se restar comprovado que o regime brasileiro afeta o processo de internacionalização produtiva das empresas de capital nacional e/ou apresenta quaisquer efeitos econômicos, a tarefa passará a ser a investigação de como tais efeitos se operam na prática.
A hipótese que se deseja testar parte da constatação feita pela literatura acadêmica especializada. A literatura econômica aponta que a regra de antidiferimento abrangente do regime brasileiro pode representar, na prática, uma carga tributária adicional para as empresas
que realizam investimentos em países de tributação inferior à brasileira e que não sejam, necessariamente, um paraíso fiscal ou um regime fiscal privilegiado, fato que levaria a uma
desvantagem concorrencial em relação aos seus concorrentes locais180. Na literatura tributária
especializada, apesar de haver poucos autores que se dedicaram a analisar os efeitos econômicos do regime brasileiro, há autores que apontam para o mesmo problema de natureza
concorrencial ainda que não com a devida profundidade181.
Para responder as questões formuladas acima, optamos por realizar entrevistas com grandes empresas brasileiras que já tivessem se internacionalizado, através da realização de investimentos diretos no exterior. Esta é a fonte primária de coleta de dados utilizada para responder as perguntas ora tratadas. Neste sentido, foram entrevistadas empresas grandes pertencentes a diferentes setores da atividade econômica; empresas que exploram commodities agrícolas e minerais, que comercializam bens de consumo e que prestam serviços de construção.
Vale lembrar que a seleção das empresas não buscou construir um universo amostral da percepção de todo o empresariado brasileiro. O objetivo pretendido foi, tão somente, colher relatos que demonstrassem as percepções de representantes de grandes empresas internacionalizadas para submetê-los a uma análise qualitativa, sem pretender criar um universo amostral compatível com o cenário empresarial brasileiro. Procuramos entrevistar profissionais responsáveis por cargos de diretoria das grandes empresas, economistas, bem
como representantes do seu setor jurídico. Alguns consultores tributários – advogados em sua
maioria – foram entrevistados também devido à sua experiência com várias empresas.
Além das entrevistas com empresas, foram feitas entrevistas com autoridades fiscais de médio e alto escalão na Receita Federal do Brasil sobre as suas percepções referentes aos efeitos econômicos do regime de tributação de lucros auferidos no exterior. Todas as entrevistas foram gravadas, feitas preferencialmente de forma presencial e guiadas por um roteiro, com questões abertas.
Vale a pena lembrar que todos os entrevistados autorizaram o uso da sua entrevista por meio da sua anuência em formulário de consentimento próprio. No entanto, a grande maioria
180 Entre eles: ALMEIDA, Fabiana, MELLO, Murilo, MUNHOZ, Marienne. Questões tributárias referentes ao
investimento direto de empresas brasileiras no exterior. In: ALMEIDA, André (org,). Internacionalização de
empresas brasileiras: perspectivas e riscos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, p. 143.
181 Entre eles: CARDOSO, Daniel Gatschnigg. A “CFC legislation” brasileira e os impactos na competitividade
internacional. Repertório de Jurisprudência IOB, n. 3, v. I, 2006, p. 122; e SCHOUERI, Luis Eduardo. Imposto de renda e os lucros auferidos no exterior. In: ROCHA, Valdir de Oliveira (Coord.). Grandes questões atuais do
dos entrevistados não autorizou que fosse feita menção direta ao seu nome ou que a empresa onde trabalha fosse identificada, razão pela qual lhes foram atribuídos pseudônimos (e.g.
Empresa 1, Autoridade Fiscal 1, etc) 182.
Adiante, as entrevistas realizadas serão analisadas qualitativamente e, para tanto, optou-se por dividi-las em dois grandes grupos temáticos: o primeiro refere-se às motivações que levaram as empresas a internacionalizarem parte da sua atividade produtiva; e o segundo grupo se dedicará a analisar os efeitos econômicos ensejados pelo regime bem como apresentar todas as críticas que lhe foram formuladas pelos contribuintes (empresas, consultores e advogados) e por representantes do fisco. Ao longo da análise, procurar-se-á ponderar igualmente tanto as percepções do setor privado (contribuintes) quanto do setor público (fisco).
Devido à extensão dos relatos e da análise dos diferentes argumentos, optamos por apresentar adiante, de forma objetiva, apenas os resultados e conclusões obtidos. Caso o leitor queira ter acesso a uma análise mais pormenorizada dos relatos, inclusive com a demonstração de vários trechos das entrevistas que respaldam as nossas conclusões, informamos que a análise detalhada dos relatos encontra-se ao fim do presente trabalho (Apêndice A).
Procuramos investigar como os problemas jurídicos apontados nas entrevistas podem ser prejudiciais ao setor privado do ponto de vista dos seus efeitos econômicos. Em outras palavras: De que forma os problemas jurídicos apontados geram custos ao setor privado e podem afetar o processo de internacionalização produtiva? Adiante, buscaremos identificar nas entrevistas possíveis respostas para esta questão.
182 O formulário de consentimento utilizado – formulário padrão utilizado pelo Comitê de Ética da Escola de
Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas – possui dois campos distintos: um deles destinado à autorização para o uso da entrevista na pesquisa e o outro destinado a autorizar a menção do nome do entrevistado, empresa ou repartição fiscal ao qual ele pertence. Caso o entrevistado não manifeste consentimento em relação a este último ponto, a alternativa é a atribuição de um pseudônimo e a omissão de informações dadas ao longo da entrevista que possam levar à sua identificação ou à identificação da sua empresa. Trata-se de uma medida necessária à garantia da confidencialidade das fontes entrevistadas.