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A Análise de Discurso (AD) tem como propósito articular a enunciação do discurso sobre um lugar social (MAINGUENEAU, 2000). O discurso, por sua vez, é a linguagem presente na fala e na escrita que atende a um enunciado ou, em outras palavras, diz respeito à combinação de elementos linguísticos provida de sentidos (FIORIN, 1996). A AD busca não apenas compreender a mensagem expressa em documentos ou na fala dos atores/atrizes sociais, mas, ainda, reconhecer qual é o significado do mundo para os participantes de um dado campo discursivo. Ou seja, o valor e a dependência da mensagem de acordo com determinado contexto.

Textos são considerados uma unidade discursiva e uma manifestação material do discurso. Consideramos que eles podem assumir uma infinidade de formas, desde escritos, narrados, imagens, símbolos e artefatos, entre outros (ALVES, 2006). Ainda, de acordo com o autor, “[...] os textos não têm significância individualmente: somente com a natureza de sua produção, disseminação e consumo é que eles se tornam significantes” (p. 7).

A partir da ideia do discurso, podemos adentrar no conceito de narrativa, que nada mais é do que o discurso de ações ocorridas no passado (DUBOIS et al., 1998, p. 427 apud ALVES e BLIKSTEIN, 2006). Conforme nos conta Barthes (1996), narrativa presente no discurso está presente em uma infinidade de gêneros da comunicação humana: “[...] mitos, lendas, fábulas, contos, novelas, épicos, histórias, estórias, tragédias, dramas, comédias, pinturas, vitrais pintados, cinema, histórias em quadrinhos, notícias, conversas e outros”.

34 Os autores Rodhes e Brown (2005 apud GUIMARÃES, 2010, p. 96) afirmam que “[...] embora a narrativa seja um ato de fala inerente ao ser humano, teve sua incorporação pela teoria organizacional recentemente, próximo dos anos 70.” Apesar dessa descoberta relativamente tardia, atualmente metodologias ancoradas na análise discursiva a partir de narrativas presentes nas falas e/ou documentos são amplamente disseminadas e se revelam possibilidades concretas de pesquisa que congregam uma infinidade de adeptos nos mais diferentes campos. Nesse contexto, dentre as inúmeras vertentes metodológicas possíveis da análise de discurso que utilizam as narrativas como subsídio para a produção de conhecimento científico, a ACD é um campo que se apresenta como uma das mais afluentes possibilidades de pesquisa mesmo considerando as limitações e obstáculos que a metodologia impõe aos pesquisadores (ALVES, 2006).

O termo – também conhecido como análise de discurso crítica– estabeleceu-se por meio do trabalho de Norman Fairclough, que publicou um artigo pioneiro no periódico Jornal of Pragmatics, em 1985. Em princípio a ACD era entendida como uma continuidade da linguística, mas atualmente, conforme destaca Resende (2008), envolve uma ampla e diversificada gama de propostas baseadas em diferentes relações transdisciplinares nas ciências humanas. Além dessa transição entre disciplinas, a ACD envolve um amplo conjunto de métodos e pressupõe ser multiteórica, multimetodológica, crítica e autocrítica (WODAK, 2003).

A adição da “crítica” à análise de discurso deve ser entendida como dentro de uma perspectiva que se concentra em problemas sociais e, especialmente, sobre o papel do discurso na produção e reprodução de abusos de poder ou dominação (van DIJK, 2001). Assim, a ACD interpreta a complexidade das relações entre o discurso e as estruturas sociais, buscando desvelá-las. Nas palavras de Phillips e Hardy (2002, p. 6): “Enquanto outras metodologias qualitativas trabalham para entender ou interpretar a realidade social como ela existe, a Análise do Discurso busca desmascarar a forma em que ela é produzida”. Assim, busca tornar visíveis as relações de poder que estão imersas nos eventos, situações, estruturas sociais e instituições.

Para a ACD o discurso está diretamente vinculado às práticas mantidas por estruturas sociais. A significação de mundo de quem emite o discurso constrói significados mantidos por estruturas ideológicas (FAIRCLAUGH, 2001). Essas estruturas ideológicas são formadas em eventos passados que condicionam e são refletidas em eventos presentes. Assim,

35 é por meio do discurso (e das narrativas) que a ideologia se manifesta. A ideia de ideologia deve ser entendida como “[...] um conjunto de significados – ideias – que expressam a prática de um determinado grupo social em uma instituição, significados estes relacionados a um interesse concreto de poder” (ALVES e BLIKSTEIN, 2006).

Segundo van Dijk (1998 apud ALVES, 2006), para se efetivar como uma linha de pesquisa crítica a ACD deve satisfazer alguns requisitos para poder alcançar seus objetivos. São eles:

 Qualquer pesquisa em ACD tem que ser "melhor" que outras pesquisas para poder ser aceita (entende-se por melhor aqui um tipo de pesquisa que esteja adequada às especificações do “campo científico” e que, desta forma, seja ela própria legitimável por outros que fazem parte da “comunidade científica”).

 Deve focar primeiramente em problemas sociais e questões políticas, ao invés de paradigmas em modas momentâneas.

 A ACD é multidisciplinar.

 Mais do que meramente descrever estruturas discursivas, a ACD deve tentar explicá- las em termos de propriedades da interação social e, especificamente, da estrutura social.

 Mais especificamente, a ACD deve focar as maneiras pelas quais os discursos criam, confirmam, legitimam, reproduzem ou desafiam relações de poder e dominação na sociedade.

Salientamos que apesar do domínio da técnica ser relevante para a utilização da ACD como método de pesquisa, o tipo de material a que se tem acesso e a escolha da base teórica que estrutura a leitura interpretativa são tão ou mais importantes do que a forma como a técnica é empregada. É a partir desses insumos que a leitura interpretativa do/a pesquisador/a é guiada permitindo revelar as esferas de poder e ideologia que estruturam os campos discursivos.

O diagrama a seguir proposto por Meyer (2001) exemplifica a importância da matriz teórica quando revela o procedimento teórico-metodológico que envolve a pesquisa empírica envolvida na aplicação da ACD:

36 Figura 1: Pesquisa empírica como um processo circular.

Fonte: MEYER, 2001, p. 19 [tradução nossa].

Como notamos no diagrama, a matriz teórica é norteadora da seleção dos pressupostos que estruturam a operacionalização da informação, a seleção do discurso/texto e a interpretação. Sendo assim, a teoria é aquilo que baseia a análise crítica da pesquisa e orienta os pressupostos envolvidos na investigação. A seguir tratamos de apresentar as escolhas teóricas que estruturaram o percurso de investigação desta pesquisa para que os sentidos e significados construídos pelas gestoras da SPM na formulação e implementação do Programa Pró-Equidade fossem debatidos e articulados. Adiante veremos ainda de que forma essas teorias se enquadram na trajetória empírica do campo-tema desta pesquisa.

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2.4 REFERENCIAIS TEÓRICOS QUE COMPUSERAM O QUADRO