Ao desenvolver esta pesquisa, fez-se necessário buscar um modelo de
análise que permitisse estabelecer determinadas relações entre as três partes
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 33
principais do trabalho. Percorrendo a literatura educacional, pode-se dizer que,
por um lado, existe uma carência de princípios, critérios ou modelos teóricos
que possibilitem realizar tais análises; por outro, alguns teóricos do campo
educacional, como Pierre Bourdieu e Basil Bernstein, têm construído modelos
de elevada complexidade teórica e de difícil aplicação para estudos
específicos. Nessa busca, constatei que as análises sobre o dispositivo
pedagógico
19, no quadro das discussões do campo do controle simbólico com
ênfase na educação, formulado por Basil Bernstein, apresentam elementos
importantes para a compreensão dos dados da presente pesquisa.
Assim, em analogia com o modelo de BERNSTEIN (1996a), a primeira
parte do trabalho, referente aos discursos que compuseram o Programa
REENGE, relaciona-se com o contexto de produção discursiva idealizado pelo
autor
20, enquanto a segunda parte, relativa à análise das propostas gerais de
duas escolas participantes do REENGE, ao contexto de transmissão
discursiva
21. A última parte da pesquisa é referente à análise da reforma
curricular do curso de Engenharia Civil da Escola A
22(um estudo de caso da
Escola A). Esta última etapa pode ser comparada ao contexto de aquisição
discursiva em que BERNSTEIN (1996a) propõe a avaliação da prática
19
Para uma descrição sucinta desse modelo teórico elaborado por Basil Bernstein, ver A
estruturação do discurso pedagógico - classe, códigos e controle, p. 254-301.
20
Contexto da produção discursiva, para Bernstein, corresponde ao campo de produção de conhecimentos.
21
Para Basil Bernstein, o discurso de uma área, através de recontextualizações sucessivas, transforma-se em um conhecimento escolar. O discurso pedagógico é constituído por dois outros discursos. O primeiro deles, o discurso instrucional (DI), estabelece o que deve ser transmitido. O segundo, chamado de discurso regulativo (DR), define a forma de transmissão, isto é, como as relações sociais de transmissão e aquisição serão constituídas e mantidas. O discurso regulativo, no ensino básico, refere-se a normas morais e de conduta que fazem parte do aparelho escolar. Poderíamos dizer que, no ensino superior, o DR inclui normas éticas e comportamentos profissionais que fazem parte desse nível de ensino.
22
Em todas as etapas da pesquisa, as cidades, as escolas e as pessoas não foram identificadas. Isso se justifica, principalmente, pela estreita aproximação que mantenho e que foi estabelecida, ao longo do trabalho, com as duas escolas pesquisadas, para evitar possíveis constrangimentos às pessoas envolvidas no processo de pesquisa. Assim, fez-se necessário, ao longo do trabalho, adotar um nome genérico para as escolas de Engenharia, ora denominadas Escola A e Escola B.
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 34
pedagógica.
A escolha do curso de Engenharia Civil da Escola A, para a terceira
parte da pesquisa, esteve relacionada às limitações de tempo da investigação,
que não permitiu a análise específica dos resultados da reforma em outros
cursos de Engenharia. Todavia, a análise da reforma nas duas escolas
pesquisadas (segunda parte do estudo) mostrou que as mudanças nos
espaços curriculares e na relação professor-aluno não se efetivaram na maioria
dos cursos de Engenharia da Escola A e em nenhum dos cursos da Escola B.
Nesse aspecto, o curso de Engenharia Civil da Escola A foi escolhido tendo em
vista as mudanças ou tentativas de mudança nas relações de poder e de
controle do currículo. A análise da reforma na Escola A mostrou que o curso de
Engenharia Civil era o curso que mais requeria mudanças tanto nos arranjos
curriculares como nas relações entre professores e alunos. Isso pode ser
atribuído, em parte, à falta de um departamento de Engenharia Civil que
controlasse as atividades curriculares junto ao Colegiado de Coordenação
Didática do Curso de Engenharia Civil
23.
O estudo das particularidades desta pesquisa mostrou determinadas
diferenças com as idéias do modelo teórico de Basil Bernstein. A principal delas
refere-se aos discursos que perpassaram pela reforma da Engenharia.
Conforme o autor, o contexto de produção discursiva refere-se à produção de
novos conhecimentos científicos, diferentemente do discurso de reforma que,
de modo geral, é um discurso recontextualizado, seja de discursos de reformas
anteriores, seja de discursos do campo econômico ou da influência de políticas
públicas. No entanto, considerando que esses discursos foram os geradores do
23
Como será discutido na terceira parte, os professores do ciclo profissional envolvidos com o curso de Engenharia Civil pertencem a cinco departamentos diferentes (Estruturas, Materiais/Construção, Hidráulica/Recursos Hídricos, Saneamento/Meio Ambiente e Geotecnia/Transportes). O mesmo não ocorre nos demais cursos das escolas pesquisadas que possuem, no ciclo profissional, um departamento que os identificam.
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 35
processo de reforma e serviram de referência para as análises posteriores,
adotou-se a mesma terminologia do modelo teórico, embora exista diferença
entre o que foi proposto pelo autor e a forma como está sendo utilizada
24.
Diante dessas considerações, tornou-se fundamental identificar e analisar os
princípios de classificação e de enquadramento
25que estiveram presentes nos
discursos oficiais e nas discussões do Programa REENGE.
Na segunda parte da pesquisa, é possível fazer uma analogia mais
profunda com o modelo de BERNSTEIN, pois segundo o autor, “quando um
texto é apropriado por agentes recontextualizadores atuando em posições
deste campo, ele, geralmente, sofre uma transformação antes de sua
relocação” (BERNSTEIN, 1996a, p.270). Nesse sentido, o objetivo central
dessa etapa foi pesquisar se e/ou como e por que os discursos do Programa
REENGE foram modificados, seja por um processo de seleção, simplificação,
condensação ou reposição, seja por refocalização, pelas escolas pesquisadas.
Trata-se, portanto, do estudo das recontextualizações do Programa REENGE
24
A rigor, segundo o autor, um discurso de reforma educacional seria um discurso originário de diferentes campos de produção, já nas primeiras etapas do processo de recontextualização no interior do aparelho pedagógico. Assim, em uma reforma no ensino superior, as recontextualizações sucessivas ocorreriam em várias instâncias – desde os órgãos federais que financiam/gerenciam a reforma, passando pelos discursos das universidades, pelos discursos das escolas, pelos discursos dos cursos de graduação, até a sala de aula – tendo em vista que os agentes recontextualizadores são portadores de uma cultura própria, em que se misturam tradições pedagógicas (ensino-aprendizagem) e gerenciais (administração do ensino).
25
De acordo com BERNSTEIN (1996b), o conceito de “classificação” refere-se ao maior ou menor grau de isolamento e separação entre categorias, portanto identifica o espaço que uma determinada categoria ocupa. Por exemplo, um currículo que possui fronteiras rígidas entre as disciplinas, é fortemente classificado. No entanto, se as fronteiras entre as disciplinas são pouco nítidas, com integração curricular, o currículo é fracamente classificado. O conceito de enquadramento refere-se à realização das categorias ou à forma de comunicação estabelecida entre transmissores e adquirentes. Refere-se ao ritmo dado em sala de aula, às negociações entre professores e alunos. Por exemplo, o ensino tradicional tem um forte enquadramento, enquanto um ensino centrado no aluno é fracamente enquadrado. Os princípios de classificação e de enquadramento estão relacionados, respectivamente, com o poder e o controle. Então, se falamos de coisas que podem e coisas que não podem, estamos falando de poder, e, quando nos referimos ao ritmo, à forma de transmissão ou ao tempo, estamos falando de controle. Portanto, uma tentativa de mudança na classificação corresponderá à mudança nas relações de poder, enquanto uma tentativa de mudança no
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 36
nas escolas investigadas. Nessa etapa, analisaram-se os princípios de
classificação e enquadramento entre a primeira e a segunda parte da pesquisa;
além disso, identificam-se semelhanças, diferenças, contradições e
redirecionamentos que surgiram na passagem de um contexto para outro.
Na terceira e última parte, ressaltam-se as limitações nas análises do
curso de Engenharia Civil da Escola A em relação às idéias presentes no
contexto de aquisição discursiva do modelo teórico. Consideraram-se as
estratégias, os conflitos e as contradições em torno da definição da proposta
curricular do curso de Engenharia Civil da Escola A, sem abranger as análises
nas salas de aula
26(currículo em ação), conforme prevê o modelo teórico. De
forma análoga ao que foi planejado para os contextos de produção e
transmissão discursiva, o mesmo tipo de análise foi realizado para o contexto
de aquisição discursiva e, conseqüentemente estabelecidas as relações entre
eles.
De acordo com o
QUADRO1, a divisão da pesquisa em partes visa
facilitar a análise das recontextualizações sucessivas que ocorreram na
reforma da Engenharia desde a concepção do Programa REENGE elaborado
pelos órgãos federais, passando pelos projetos das escolas até a reforma
curricular do curso de Engenharia Civil da Escola A. Contudo, há de se
destacar que a divisão do trabalho em etapas aparentemente distintas não
significa que não haja um “cruzamento” entre os diferentes contextos
discursivos (produção, transmissão e aquisição). Tendo em vista que se trata
de uma reforma de Ensino Superior, constatou-se que, ao longo do processo
de reforma, os mesmos atores estiveram presentes em contextos diferentes ou,
ao contrário, outros discursos surgiram em contextos diferentes mas com os
enquadramento corresponderá a uma mudança nas relações de controle.
26
Nas primeiras análises das mudanças curriculares relativas ao REENGE, verificou-se, nas duas escolas pesquisadas, que prevaleceram mudanças fora do âmbito da sala de aula. Além disso, considerando o grande número de disciplinas que compõem o currículo dos cursos de Engenharia, acredito que tal objetivo justificaria a realização de outra pesquisa.
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 37
mesmos atores. Nesse sentido, as análises desta pesquisa buscam contribuir,
conforme BERNSTEIN (1996a), para “aqueles casos nos quais os produtores
ou criadores do discurso são também seus recontextualizadores”
(BERNSTEIN, 1996a, p.277).
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 38 PROGRAMA REENGE PROGRAMA REENGE RECONTEXTUALIZADO PROJETO ESCOLAR PROJETO ESCOLAR RECONTEXTUALIZADO PROJETO CURSO PROJETO CURSO RECONTEXTUALIZADO SALA DE AULA CONTEXTO PRODUÇÃO DISCURSIVA CONTEXTO TRANSMISSÃO DISCURSIVA CONTEXTO AQUISIÇÃO DISCURSIVA Agências (nacionais e internac.) Políticas públicas Forças econômicas Reformas em geral Escolas Normas legais Comunidade acadêmica Normas acadêmicas Projetos acadêmicos Autoridades educacionais locais Demandas regionais Publicações Colegiado de curso Dept. especializados Reformas externas específicas Mercado de trabalho Demandas locais Normas acadêmicas F A T O R E S I N F U E N C I A L I Z A D O R E S R E C O N T E X T U A L I Z A Ç Õ E S S U C E S S I V A S Reforma da Engenharia
Capítulo introdutório: o percurso da investigação 39