O hospital é um ambiente bastante impessoal e representa um espaço diferente do normalmente frequentado pela criança. Um hospital, para atender crianças, precisa passar por transformações em sua cultura organizacional, para se adequar às concepções sobre o “que é ser uma criança de direitos”. Com esta adequação, o hospital pediátrico, ou a ala pediátrica do hospital, passa a ser um espaço recheado de vida, com decoração especifica que remeta a um espaço infantil, tão pleno de calor humano e preocupado em tornar, essa realidade, o menos inóspita possível para a criança (MATOS; MUGIATTI, 2009).
Outro fator que contribui para a integração da criança ao ambiente hospitalar é a presença dos pais e da família. É necessário que a família propicie segurança, para a criança, com relação a essas novas experiências. Durante a fase de adaptação, é essencial que este processo ocorra de maneira tranquila. É um novo desafio para a criança e sua família, aumentando a ansiedade de ambos. De acordo com Novaes (1998), a família sofre tanto quanto a criança em casos de internação e enfermidade, representando conviver num ambiente totalmente
desconhecido, tido como ameaçador, com experiências de separação, dor, perda, fragilidade pela enfermidade e pelo distanciamento de familiares, colegas, professores e escola.
Fonseca (2008) afirma que, geralmente, o familiar é mais aberto com o professor, por vê-lo como um profissional mais próximo da sua realidade, diferente do profissional da saúde, o que favorece as trocas e as perguntas mais frequentes.
No sentido de tornar o atendimento mais humanizado, tanto o da criança hospitalizada, como o de sua família, as relações no hospital representam um desafio, no sentido de promover essa integração e essa humanização. Matos (2010) afirmam que as relações são importantes para ativar o vínculo e obter ajuda junto aos familiares. Portanto, deve-se estimulá-los na valorização do tratamento, motivá-los a se envolver e apoiar a criança, durante todo o processo, inspirando-lhes confiança, de maneira a conseguir que a criança aceite a situação de internação e que aja de forma positiva. A atitude estimulante dos pais e/ou responsáveis representa uma significativa contribuição, em termos psicológicos, para a estruturação da personalidade da criança hospitalizada.
Quando internada, ou em situação de atendimento, a criança tem nesse espaço a rotina de vida alterada, seja devido ao contato com pessoas muito diferentes das que, normalmente, a criança interage, seja por conta do local. O espaço difere, pois o quarto tem objetos e mobiliários específicos, horários de medicação e de alimentação, refeições restritas, algumas vezes com dieta especial e o contato com profissionais de diferentes áreas – pediatras, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, técnicos laboratoriais, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, dentre outros. Estes profissionais da área da saúde têm um regime de trabalho diferente, com turnos e/ou plantões que diferem na periodicidade e na frequência o que favorece para o aumento da desconfiança e da insegurança da criança hospitalizada, além de dificultar a familiarização e a integração entre a criança e o profissional de saúde.
Fonseca (2008) afirma que a premissa é a de que a criança sempre teve ou tem medo do profissional de branco e por esta viver numa situação hospitalar, em que os procedimentos invasivos causam dor e desconforto, aumenta a
sensação de ameaça. Mas, a autora também destaca que, se o profissional for receptivo a criança, esta atitude poderá favorecer o profissional a compreender melhor as necessidades e os interesses da criança, valendo-se disso para iniciar uma interação o que, por si só, reduziria o nível de estresse observado.
Castro (2010) relata que as crianças de zero a cinco anos de idade são as mais vulneráveis nesse ambiente, pois é difícil para elas entender o motivo pelo qual foram trazidas ao hospital. A autora ainda afirma que, constantemente, presenciamos cenas em que os pais utilizam procedimentos hospitalares como uma forma de disciplinar os filhos, falando que se não se comportarem irão levar ao médico para tomar injeção. Situações como estas, rotineiras e culturais, são as que mais aumentam a insegurança da criança que com isso, ficam com medo de permanecer num ambiente hospitalar.
O documento específico que estrutura as ações políticas de organização do sistema de atendimento educacional, em classes hospitalares, no que diz respeito ao ambiente e propõe que este seja projetado e organizado um espaço, em sala específica, com recursos audiovisuais, instrumentos de apoio didático- pedagógicos, mobiliário adequado e instalações sanitárias próprias, completas, suficientes e adaptadas como altamente recomendáveis (BRASIL, 2002).
Entende-se que tais recursos sejam essenciais, tanto para contribuir com o planejamento, como para o desenvolvimento e para a avaliação do trabalho pedagógico que será desenvolvido com o aluno-paciente, quanto para o contato da classe hospitalar na efetivação de um ensino que propicie as condições necessárias para a oferta de conteúdos adaptados para o ambiente hospitalar.
Fonseca (2008) propõe que o espaço físico utilizado pelo professor deva ser cuidado e constantemente organizado, a fim de suprir melhor as demandas das crianças nele atendido. Caso o professor não disponha de um espaço físico próprio, ou tenha que atender no leito, na enfermaria, ou no quarto de isolamento, este poderá levar jogos e materiais de apoio pedagógico que possam ser manuseados e transportados com facilidade. Estes materiais seriam pranchas com presilhas e suporte para lápis e papel, além dos recursos tecnológicos como:
assistir a vídeos educativos que favoreçam a aprendizagem de conteúdos específicos do currículo.
O ambiente pode ser totalmente adaptado pelo professor que poderá dispor os trabalhos realizados pela criança nas paredes mais próximas, como um painel, assim como pode colocar tais produções nas próprias camas das crianças. É claro que, para tal, são sempre acordadas com o profissional da saúde, as limitações e possibilidades do ambiente hospitalar, a menos que o professor se utilize do espaço específico da classe hospitalar, que é um ambiente preparado especialmente para isso e para o desenvolvimento das atividades programadas.
Na classe hospitalar, o professor deverá criar estratégias que favoreçam o processo de ensino-aprendizagem, contextualizando-o com o desenvolvimento e experiências daqueles que o vivenciam, de maneira que, mesmo excetuando-se características específicas da condição de saúde dos alunos e do ambiente físico onde a classe hospitalar funciona, o trabalho do professor possa se ajustar a esta realidade, sem, contudo perder o enfoque pedagógico-educacional, motivo pelo qual esse profissional ali se encontra.