Os estudos sobre classe hospitalar com os autores Matos (2010), Matos e Mugiatti (2009), Fonseca (1999a, 2002, 2008), Zaias e Paula (2010), Barros, Gueudeville, Vieira (2011) demonstram que esse número vem gradativamente aumentando à medida que mais pesquisadores se tornam engajados em pesquisar as temáticas que envolvem o processo de educação em hospitais.
Nas últimas décadas as produções acadêmicas vêm tentando entender essa modalidade de atendimento e refletir junto aos pesquisadores com base em algumas categorias (práticas pedagógicas, formação docente, educação e saúde, entre outras) que emergem no processo dessa dinâmica. O intuito dos pesquisadores é difundir o mundo pedagógico hospitalar para que um número maior de pessoas tenha conhecimento e possa contribuir para qualificar esse trabalho.
Com o intuito de levantar um perfil da publicação científica brasileira sobre a temática da escolarização em hospitais, Barros, Gueudeville e Vieira (2011) realizaram um levantamento de artigos científicos sobre o tema, entre os anos de 1997 a 2008, e constataram que 47 artigos científicos foram publicados em periódicos científicos indexados em bases de dados como SciELO, Edubase, Bireme e catálogo do INEP. Trata-se de uma pesquisa documental, e basicamente o levantamento do Estado do Conhecimento (ou Estado da Arte) desta área de conhecimento e que as publicações foram em grande parte originadas da atividade de pesquisadores estabelecidos em instituições federais de ensino superior.
As autoras Barros, Gueudeville e Vieira (2011) realizaram uma análise mais detalhada em 22 dos artigos encontrados, por serem qualificados como relato de pesquisa original, isto é, pesquisa com desenho de investigação (com estrutura formal que tenha introdução; objetivos; material e métodos; resultados; discussão; conclusões ou considerações e resumo informativo em português e inglês (abstract)). As autoras puderam verificar com a descrição e a análise realizada das características formais dos artigos científicos que houve um predomínio nos artigos com formato de relatos de pesquisa (artigo original) sobre os relatos de experiência, o que parece configurar uma tendência de reflexão teórica para equacionar os problemas práticos e imediatos existentes no campo. Podemos inferir que diante de um aumento significativo desses espaços educacionais especiais (Quadro 2), com os números de classes hospitalares existentes no Brasil (FONSECA, 2002).
Zaias e Paula (2010) realizaram um estudo das produções acadêmicas nos Programas de Pós-graduação no Brasil, sobre a temática da classe hospitalar, mapeando e classificando amostra de teses e dissertações defendidas entre os anos de 2000 e 2008. As autoras identificaram 38 trabalhos, sendo 33 dissertações e 5 teses, que distribuídas nos Programas de Pós-graduação ficam assim representadas: Educação (30 trabalhos), Psicologia (4 trabalhos), Educação Científica e Tecnológica (3 trabalhos) e Enfermagem (1 trabalho).
As autoras classificaram as produções em 13 categorias (Quadro 6) apontando um panorama dos temas discutidos pelos autores pesquisados, mas destacam para o fato de que todos os trabalhos enfocam, de uma certa forma, a necessidade de reafirmar o caráter pedagógico educacional das escolas nos hospitais; da importância da ligação entre as áreas da saúde e da educação, por considerar a importância de vê-lo em sua totalidade e da necessidade de promover diálogos e encontros destas diferentes áreas e da necessidade de formação para o pedagogo atuar num espaço educacional específico como o dos hospitais.
Com isso, as produções acadêmicas demonstram a emergência de lutar pelo reconhecimento do direito à educação em contexto hospitalar, com currículo flexibilizado e atendimento especializado respeitando os limites e as
potencialidades das crianças e dos adolescentes internados (ZAIAS; PAULA, 2010).
Quadro 6 - Categorização das teses e dissertações sobre a Pedagogia Hospitalar De 2000 a 2008.
CATEGORIAS Número de teses e
dissertações 01. Práticas pedagógicas no hospital 10 dissertações
01 tese
02. Formação de professores 06 dissertações
01 tese
03. As TICs na educação hospitalar 04 dissertações 04. Papel e formação do pedagogo no hospital 03 dissertações 05. Sentido da escolaridade hospitalar para a criança
hospitalizada
02 dissertações 01 tese
06. Análise do processo de implantação de Escola nos hospitais 02 dissertações 07. Reinserção da criança hospitalizada na escola regular 01 dissertação
01 tese
08. Processo organizacional da Escola nos hospitais 01 dissertação 09. A compreensão da escola regular sobre a escola no hospital 01 dissertação 10. Percepções da família com relação à distância da
escolaridade da criança hospitalizada
01 dissertação
11. O currículo na Escola nos hospitais 01 dissertação 12. Processo de exclusão escolar da criança hospitalizada 01 dissertação 13. Possibilidades e limites da relação entre saúde e educação 01 tese
TOTAL 33 dissertações
05 teses
Fonte: Zaias e Paula (2010).
Saldanha e Simões (2013) realizaram uma revisão de literatura a respeito da escolarização hospitalar. O estudo teve como objetivo conhecer a evolução e as principais abordagens sobre a educação escolar hospitalar, retratadas em artigos científicos postados on-line, nos anos de 1996 a 2010. As autoras selecionaram 82 artigos sobre a educação escolar hospitalar e esses são oriundos das diversas regiões do Brasil, sendo que, na região sul (37) há maior concentração de pesquisas, seguida da região sudeste (31), região nordeste (11) e região centro-oeste (3). Dos artigos selecionados, após a leitura de cada artigo, identificaram Unidades de Análise, considerando a parte comum existente entre
elas, criando cinco Categorias Temáticas: 1) Concepções e significados; 2) Práticas pedagógicas e configuração didático-curricular; 3) Formação de professores; 4) Relação educação e saúde e Aspectos históricos, organizacionais e legais, como podemos verificar (Quadro 7).
Quadro 7 - Distribuição das Categorias Temáticas
Categorias Temáticas Quantidade %
Concepções e significados 21 25,61
Práticas pedagógicas e configuração didático-curricular 19 23,17
Formação de professores 18 21,95
Relação educação e saúde 13 15,85
Aspectos históricos, organizacionais e legais 11 13,42
TOTAL 82 100%
Fonte: Saldanha e Simões (2013)
Na Categoria Temática Concepções e significados, um trabalho se apresenta com certa proximidade da proposta desta tese, por tratar da aprendizagem da língua escrita, mas numa outra perspectiva teórica. Trata-se do artigo de Munhóz e Ortiz (2006) que focam no processo de desenvolvimento e aprendizagem e têm como aportes conceituais Jean Piaget e Emília Ferreiro. As autoras realizaram esta pesquisa na classe hospitalar do Serviço de Hemato- Oncologia do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), com oito participantes, todas as crianças internadas com diagnóstico de câncer, sendo três do sexo feminino e cinco do sexo masculino, com idades entre cinco e nove anos. As crianças participantes da pesquisa eram dos seguintes níveis de ensino: um aluno da Educação Infantil, três da 1ª série, três da 2ª série e um aluno da 4ª série do Ensino Fundamental. O trabalho de intervenção/aula foi realizado pelas pesquisadoras três vezes por semana, no turno da manhã, por um período de três horas correspondendo ao ano letivo de 2003, junto aos leitos de internação, na classe hospitalar ou salas diferenciadas disponibilizadas pelo hospital. As
intervenções/aulas tinham como atividades a escrita, a expressão oral, a identificação dos sons, posição (em cima, embaixo) e reconhecimento das letras e dos números, com ênfase à alfabetização e as dificuldades de aprendizagem, por serem as necessidades identificadas. Munhóz e Ortiz (2006) concluíram que com a intervenção educativa realizada foi observado que os alunos superaram seus déficits de aprendizagem e que a hospitalização não dói um fator de fragilização intelectual e aponta ainda, a escolarização hospitalar como um polo gerador de estimulação de relações sociais, afetivas e de habilidades psicomotoras.
Nos estudos de revisão de literatura ou Estado da Arte de Zaias e Paula (2010); Barros, Gueudeville e Vieira (2011); Saldanha e Simões (2013) foi possível perceber uma quase inexistência de estudos de alfabetização na classe hospitalar, esses levantamentos confirmaram um território de ausência envolvendo a temática do ensino da linguagem escrita no ambiente da classe hospitalar.