3.4. ANALİZ VE BULGULAR
3.4.3. Araştırmada Kullanılan Ölçeklere İlişkin Bulgular
A
HISTÓRIAEODESENVOLVIMENTODEDISCIPLINASEÁREASDECONHECIMENTO estão indissoluvelmente associados à permanente elaboração de suas identidades e fronteiras. Assim, a significativa multiplicação, no Brasil, nos últimos trinta anos, dos trabalhos realizados por antro- pólogos em cidades leva-nos a reavaliar o sentido e o significado dessa produção.Em 1980, quando publiquei o livro O desafio da cidade, coletânea que reunia alguns tra- balhos representativos, comentava assim no meu artigo introdutório:
Ora, é óbvio que acho que a antropologia nunca deve se afastar das sociedades tribais e tra- dicionais. Pelo contrário, deve mantê-las não só como objetos de pesquisa e reflexão por si mesmas mas como referências básicas que permitam manter a preocupação comparativa como característica essencial de nosso trabalho. Mas, por outro lado, não há como fugir nem retardar mais o processo de assumir o estudo antropológico de nossa sociedade e cultura como tarefa fundamental. Nesse sentido, o intercâmbio com outras disciplinas como a his- tória, a filosofia, a arqueologia etc. é indispensável. Já temos hoje resultados acumulados sufi- cientemente ricos e significativos para servir de suporte e apoio. Há que reunir e discutir esses trabalhos, fazer críticas e autocríticas, não desanimar diante das dificuldades e derrotas normais em qualquer nova etapa de desenvolvimento de uma disciplina. Há que valorizar as contribuições específicas que a tradição e o método antropológicos têm a oferecer para a
compreensão da sociedade moderna, particularmente a brasileira, complementando outras perspectivas e abordagens (Velho,1980:19).
Havia, certamente, uma dimensão de manifesto nesse trecho do artigo. Passados 21 anos, a quantidade e a variedade de teses, dissertações, livros, artigos e pesquisas produzidos nessa área do conhecimento confirmaram o potencial, de certa forma, antecipado.
A partir do final dos anos 1960 e no decorrer dos 1970, foi-se valorizando e legitimando, no Brasil, o trabalho antropológico no meio urbano. Nesse período, além da antropologia social do Museu Nacional, cabe destacar o trabalho de Ruth Cardoso e Eunice Durhan na USP e de Peter Fry na Unicamp. Além de cursos específicos, houve importante atividade interinstitucional, através de gru- pos de trabalho e seminários, com grande estímulo para a pesquisa e produção científica. Os anos 1980 e 1990 assistiram à aceleração e à ampliação da área. Novos pesquisadores e novos temas somaram-se às linhas de investigação da primeira fase, algumas vezes como desdobramentos e outras correspon- dendo à descoberta e identificação de caminhos e questões antes não vislumbrados. Saliente-se que no artigo citado eu falava, em geral, do estudo da própria sociedade do investigador, retomando discussões e debates sobre distância sociocultural e sobre a especificidade do trabalho antropológico. A cidade apa- recia então como o grande desafio, em função dessa problemática de proximidade e distância, fami- liaridade, exotização e estranhamento. Não creio que nenhuma das grandes questões de vinte e poucos anos atrás tenha-se diluído ou tornado anacrônica. Simplesmente, nos acostumamos a trabalhar com alguma reserva e uma pitada de ceticismo, sem pretensões messiânicas e sem dogmatismo. O encontro e diálogo complexos, impasses e eventuais metamorfoses entre antropólogos e “nativos” não nos impe- dem de prosseguir investigando situações mais ou menos próximas em termos físicos e psicossociais. De qualquer forma, a pesquisa no meio urbano brasileiro implica lidar com indivíduos e grupos com que temos relações sociais indiscutíveis, mesmo quando indiretas. Ou seja, em princípio, temos imagens, impressões e experiências prévias que poderão vir a ser totalmente revistas, transformadas ou rejeitadas. Procuro me colocar em posição intermediária entre “não há nada de novo sob o sol” e um “novidadeirismo” frenético, em que tudo que se faça é um grande salto revolucionário, rompendo com os quadros estabelecidos. Temos que contextualizar, na boa tradição antropológica, o nosso olhar para a disciplina. De um lado, a antropologia urbana que fazemos ampliou, dramaticamente, no Brasil, com repercussão internacional, o campo antropológico. De outro, retoma, creio, com alguma inovação, tra-
dições importantes, como a da Escola de Chicago. Sabemos que sua base inicial foi o Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Chicago, que só veio a se dividir em 1929, tendo inte- grado o que classificamos de sociólogos e antropólogos desde 1892. Efetivamente, o objeto de interesse de todos era o estudo da sociedade, qualquer que fosse e onde quer que estivesse. Assim, embora o foco principal de investigação fosse a cidade de Chicago, existia um quadro de referência mais amplo, que se traduzia não só em interesse bibliográfico, mas em realização de pesquisas em outros lugares do mundo. Não custa lembrar que o clássico trabalho de Thomas e Zaniecki (1927) foi sobre camponeses poloneses que migraram para os Estados Unidos, implicando um quadro de referência sociocultural internacional. Por outro lado, de fato, Chicago tornou-se o laboratório de investigação social, preco- nizado por Park (1916), mobilizando centenas de pesquisadores que, sob a sua liderança e de Thomas, Wirth, Burgess, Hughes, Blummer, entre outros, enriqueceram o conhecimento sobre a vida urbana. A observação direta e a etnografia foram os seus principais instrumentos de trabalho. Cabe ressaltar também a importância das histórias de vida que se constituíram numa das grandes contribuições para a temática indivíduo e sociedade. Como sabemos, o interacionismo é uma das manifestações mais sig- nificativas da Escola de Chicago, tendo como uma de suas origens principais a obra do pensador alemão G. Simmel, que marcou, desde o início, essa corrente das ciências sociais norte-americanas. Assim, a problemática indivíduo-sociedade, com as contribuições dos autores já mencionados, e também de G. H. Mead, chega contemporaneamente às obras de E. Goffman e H. S. Becker, autores particularmente importantes no diálogo com os antropólogos brasileiros. Essa linhagem de sociólogos de Chicago embora, desde 1929, em um departamento específico, mantém os métodos de pesquisa qualitativos como base de seu trabalho, assim como o diálogo permanente com a antropologia. Cabe lembrar que, paralelamente ao interacionismo, a ecologia humana foi também importante linha de investigação de Chicago, com forte repercussão nos estudos urbanos, embora com menos impacto na antropologia urbana brasileira, cujo desenvolvimento foi também influenciado por outras tradições. A Escola Socio- lógica Francesa, a Antropologia Social Britânica, o Marxismo, entre outros, enriqueceram suas alternativas e perspectivas teóricas.
Não é possível esgotar todos os temas e assuntos que vêm sendo investigados nessa área no Brasil. Entre outros exemplos expressivos cito família, parentesco e organização social, movi- mentos sociais, habitação, bairros, memória social, vizinhança, religião, cultura popular, camadas médias, classes trabalhadoras, instituições totais, desvio, associações, trajetórias de mediadores e pro-
cessos de mediação em geral, violência e criminalidade, grupos etários, como setores da juventude e da terceira idade, e assim por diante.
Boa parte desses trabalhos tem conseqüências diretas para o desenvolvimento de políticas públicas. Assim como na Chicago do final do século XIX e primeira metade do século XX, os cien- tistas sociais brasileiros lidam com as questões teóricas de suas disciplinas e participam, em diferentes graus e formas, da discussão dos problemas de sua cidade e de seu país. Os estudos desenvolvidos na cidade são, portanto, investigações sobre a sociedade brasileira, levantando e permitindo apro- fundar questões relevantes para uma antropologia das sociedades moderno-contemporâneas. O nome antropologia urbana hoje já está consagrado, mas dentro da produção brasileira deve ser entendido de forma ampla, como um modo de desenvolver uma antropologia das sociedades complexas que privilegia a cidade como locus de investigação. Antropologia urbana e antropologia das sociedades complexas não apresentam nenhuma relação de subordinação e englobamento disciplinar, sendo modos de focalizar fenômenos que apresentam diferentes dimensões.
A tradição antropológica traz, entre outras características, a valorização do trabalho de campo com o contato próximo, direto e relativamente prolongado com grupos, comunidades e seg- mentos sociais. Pretende-se, com isso, ir além da superfície e das aparências, procurando captar os significados da ação social e buscando perceber as visões de mundo que associam-se a identidades e desempenhos sociais. Ao enfatizar essas características, sugere-se que algumas análises sociais e boa parte das políticas públicas carecem de um conhecimento mais aprofundado, necessário para enten- der questões e problemas centrais não só das cidades, como da sociedade brasileira em geral. Além de, como tendência, haver uma grande dificuldade de perceber variações e especificidades culturais dentro da sociedade abrangente, há, por conseqüência, pouca capacidade de entender o significado e a lógica de relacionamento entre os diferentes grupos e categorias sociais. Os antropólogos têm- se preocupado, por exemplo, cada vez mais, em entender os processos de mediação que ocorrem na sociedade, procurando analisar de modo mais complexo as interações, trocas e negociações entre varia- dos atores e grupos sociais. Isso implica acompanhar e investigar trajetórias individuais, em seus níveis de atuação e desempenho de papéis sociais, tarefa fascinante e desafiadora que nos tem ajudado a perceber o caráter múltiplo, diferenciado e mesmo fragmentado dos processos identitários. Daí, res- salte-se, a importância das análises situacionais e microssociológicas, aliadas à investigação de redes e configurações sociais (Velho e Kuschnir, 2001).
A predominância de visão e discurso tecnocráticos universalistas dentro da burocracia e dos órgãos governamentais, associados a um tipo de visão empresarial um pouco tosca, tende a reduzir indi- víduos e grupos a unidades de produção e consumo. Com isso, ignora-se o que há de mais importante na ação social, que é o significado a ela atribuído pelos diferentes atores sociais. O planejamento urbano, apoiado em uma engenharia social que ignora ou menospreza a dimensão simbólico-cultural, a experiência e identidades particulares, acaba gerando monstruosidades autoritárias, ainda por cima, ou por isso mesmo, ineficientes. Por outro lado, o culto e a reificação do mercado também atropelam, por sua vez, os interesses e valores de setores e segmentos sociais de menor poder político e econômico. A noção de que o crescimento e o desenvolvimento, inevitavelmente, produzem vítimas pode ser uma reflexão cruel e cínica que desestimula, ou mesmo, rejeita, um esforço intelectual e dedicação cívica para encontrar soluções menos custosas e mais democráticas. A denúncia da destruição da memória das cida- des, do crescimento caótico e desordenado, da deterioração do meio ambiente e da qualidade de vida não deve ser encarada simplesmente como manifestação nefelibática nostálgica, sob pena de incorrer- mos em gravíssimo erro de avaliação sobre políticas públicas e suas conseqüências.
O tipo de trabalho que os antropólogos costumam realizar através de suas pesquisas pode ser um dos instrumentos para a valorização de um planejamento que sustente políticas públicas efe- tivamente democráticas. Concomitantemente, trata-se de valorizar o conhecimento em detrimento de iniciativas demagógicas e populistas, desprovidas de qualquer embasamento científico.
Assim, sem abrir mão de sua vocação acadêmica, os antropólogos podem contribuir ainda mais do que já têm feito para um debate e maior conhecimento sobre as nossas cidades e sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PARK, Robert E. 1916. “The city: suggestions for the investigation of human behavior in the urban envi- romment”. American Journal of Sociology, n. 20. p. 577-612. (Trad. brasileira: “A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano”. In: VELHO, Otávio G. (org.). 1967. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Zahar. p. 29-72.)
THOMAS, William I. e ZANIECKI, Florian. 1974 [1927]. The Polish peasant in Europe and America. New York, Octagon Books.
VELHO, Gilberto. 1980. O desafio da cidade. Rio de Janeiro, Campus.