• Sonuç bulunamadı

Carlos Lacerda e Negrão de Lima tinham governado a Guanabara como uma

cidade; eu queria inverter isso, transformando-a verdadeiramente em estado. Assim, era preciso criar zonas industriais e uma certa zona agrária, com produção primária no oeste Essa não era uma visão urbanistica, mas de distribuição racional do território, para fins de governo estadual. O que facilitava era que a Guanabara somava a arrecadação de

52 Sobr. o pcoj.,o de es!duali30 da ICM do estado e do município; a situação fiscal era bastante confortável S2

Guanabara. er Mary M'!. 200 Mas o projeto oferecia também sugestões de caráter urbanístico. Para fazer

alguma coisa que valesse a pena, estudei o Plano Agache, que meu pai tinha em casa - hoje é uma raridade bibliográfica, mas eu fiquei com o de meu pai. Além disso, eu tinha também o Plano Doxiadis e o Plano Lúcio Costa para a Barra da Tijuca. Assim, fui formando minha opinião, muito influenciado pelo Doxiadis e por Lúcio; ambos os planos se somavam, porque foi o Doxiadis quem propôs o porto de Sepetiba, achava que lá devia haver um porto.

Eu era membro do Conselho Fiscal do Porto do Rio de Janeiro, como funcionário federal Sabendo que o porto do Rio calava apenas 1 1 metros, passei a me interessar pelo plano do governo Carlos Lacerda de instalar o porto de Sepetiba. Consultei Lúcio Costa, que achou perfeito, e comecei a fazer o plano de "deitar" a Guanabara: balizado pelos eixos rodoviário e ferroviário, que caminham no sentido leste-oeste, pensei em levar para o ex­ tremo oeste a indústria pesada, fixando um ponto de atração no porto de Sepetiba.

Quando entreguei o plano, Chagas me disse: "Você fez tudo isso, agora tem que executar; você vai ser meu secretário de Plane

j

amento" . Financeiramente, não foi boa idéia, porque eu ganhava mais na Finep, mas o convite era irresistível. Muito melhor do que ficar como assessor na Seplan e presidente da Finep, onde eu já estava havia quatro anos Assim, renunciei a tudo e vim para cá, para tentar executar aquelas idéias. E tratei de trazer para chefiar meu gabinete - cuidei de transformá-lo numa espécie de Secretaria executiva - um engenheiro de portos, Carlos Teôfilo, porque a idéia central girava em torno do porto de Sepetiba Ele deveria ter força suficiente para equilibrar a balança, atrair os investimentos. Teófilo começou a fazer o projeto do porto; ele era do Depatamento de

• Novas f�ns m urbanismo: Barra dI ijua e Cordor Cultural

Potos e Vias Navegáveis, conhecia todo mundo, foi tendo apoio. Sei que no final do go­ verno Chagas, encontrei-me com o general Geisel, já presidente da República, no Jockey Club, e ele me disse: "Francisco, vou construir o seu porto " E realmente, a obra saiu.

Bem, se eu tinha criado um peso à esquerda, para equilibrar a Guanabara, e tinha dois eixos rodoferroviários ligando os dois trechos, eu tinha um centro a ocupar: a Barra da Ti

j

uca. Esse centro é isolado por uma espécie de ferradura: de um lado, o

maciço da Pedra Branca; do outro o da Gávea. Quem conhece bem o Rio sabe que só existe uma passagem lá por cima, num baixio da chamada Serra dos Pretos Forros, onde se pode cruzar. Fora isso, nada. A Barra é cercada por uma ferradura de montanhas e é muito grande. Uma vez, para mostrar a Chagas o tamanho daquilo, pedi a um arquiteto, Pedro Teixeira Soares, para desenhar Brasilia na escala, dentro da Barra. Pois bem: Brasília cabe toda dentro da Barra.

Assim, ocupei-me em criar maior densidade naquela área. Eu tinha muita facili­ dade por causa do Lúcio Costa, que dirigia um escritório de implantação da Barra, lá na Via 1 1 , hoje avenida Ayton Senna.

Lúcio Cota dirigia o Grupo de Trabalho da Baixada de Jacarepaguá, é isso?

Exatamente. Com 80 anos, ele ia para lá dirigindo um fusquinha. E tinha um

poder total ali dentro A Barra era diferente da experiência de Brasília, onde as terras eram devolutas; ali, os terrenos eram privados. Isso criava antagonismos, invejas, ciúmes, raivas e reações. E Lúcio, que não queria saber da parte jurídica, dirigia o escritório como um César; dizia: "Aqui pode construir uma torre; no vizinho não pode". O proprietário que

tinha o terreno do lado ficava danado da vida, pedia isonomia, entrava na Justiça.

Quando o governador Negrão aprovou o Plano Lúcio Costa, não criou condições técnicas

para que aquilo pudesse ser executado com facilidade.

Era possível a desapropriação de toda a região?

Claro que era; bastava declarar de utilidade pública para fins de desapropriação, dizendo que interessava ao Rio de Janeiro. Mas quando você desapropria, tem que ter dinheiro para pagar; estava no final do governo Negrão, e era um negócio para centenas de milhões de dólares. Com o temperamento do Negrão, ele deixou aquilo rolar. Não o critico, ele tinha razão. Estava sem dinheiro, achava a Barra uma boa idéia, e a primeira coisa era dar o pontapé inicial; depois, alguém resolveria.

Foi no governo Chagas Freitas que o escritório transformou-se em Sudebar, Superintendência do Desenvolvimento da Barra da TIjuca7

Isso mesmo. Deu um outro status, deu mais força ao órgão. O Chagas nomeou como superintendente o Almir Machado, genro do general Hugo Abreu, que viria a ser chefe da Casa Militar do Geisel; a Sudebar ficou subordinada à Secretaria de Obras. Mas sempre com lúcio, que era uma espécie de Deus ali dentro, o rapaz lhe obedcia e fazia aquela parte que o Lúcio tinha horror de fazer. Na Secretaria de Planejamento, eu estava acima da Sudebar e da Secretaria de Obras; estava no grande plano, mas tinha que via-

Barra da liUd com a aparênia que manteve até a dcada de 1970.

Francisco de Mello Franco .

bilizar a idéia. A proposta de horizontalização me levou ao Jockey Club, que tinha um terreno na Barra; sugeri ao Francisco Eduardo de Paula Machado que construísse ali um segundo Jockey; quase construíram. Acabeí desapropriando aquilo tudo e dei início à

construção do autódromo e ao projeto do Riocentro.

Uma coisa o Chagas não quis 1azer: o Lúcio previa a trans1erência do centro admi­

nistrativo da Guanabara para a Barra da Tijuca, na Pedra da Panela.

Hoje instalou-se ali a favela do Rio das Pedras.

Se tivéssemos ocupado aquele espaço, isso não teria acontecido Eu lutei, lutei, mas Chagas um dia mandou por um amigo um recado para mim, para eu não insistir, porque ele tinha medo de parecer imitador do Juscelino_ Desisti, porque afinal ele era o governador. E me pediu que projetasse um edifício ali na Cídade Nova, para instalar o centro administrativo Foi a minha Secretaria a responsável por aquele prédio; o Pedro Teixeira Soares e o Hélio Modesto fizeram o projeto. Mas jamais gostei daquilo; fui visitar uma única vez, porque me contrariava muito, no sentido estratégico; senti que estava conso­

lidando um Rio que eu não queria.

Também fui derrotado por Chagas no elevado sobre a avenida Rodrigues Alves. Quando o ministro Andreazza terminou a construção da ponte Rio-Niterói, propôs erguer aquela "coisa" por cima da Rodrigues Alves. Eu achava aquilo detestável, porque tinha certeza que a cidade tendia a crescer pela Saúde, pois já que eu ia fazer o porto de Sepe­ tiba, o poto do Rio seria

r

apidamente abandonado Por isso, o ceto seria abrir uma via

bonita. arborizada. sem precisar daquela coisa lá em cima. Tanto insisti que Chagas me

• Novas exeriências em urbanismo: Sana da Tijuca e Corrdor Cuhural

disse: "Vou pedir ao ministro Andreazza que utilize uma técnica de construção que per­ mita a demolição amanhã." Não sei se já repararam, mas é o único viaduto do Rio em que as vigas de sustentação são de aço. Mas os pilares são de concreto!

Aquilo é uma porcaria. Se você está embaixo, não tem nada; e está em cima, reze para seu carro não enguiçar. Já aconteceu comigo. Um dia, fui dar uma aula em Niterói, e o táxi enguiçou às 1 1 :30h da noite. Foi assustador I Aquilo ficou uma porcaria de solução urbanlstica.

o que se propunha para a Barra da Tijuca em termos de transpotes e saneamento?

A idéia dos transportes nos parecia muito facilitada pelo cruzamento da BR- 101, que por ali passava; a Guanabara não carecia de sistema de transporte para o oeste, com os dois eixos rodoferroviários que a cortavam. Para o saneamento, nossa proposta era o emissário submarino, este que estão pensando em construir agora - o Brasil anda a passos de cágado.

No primeiro governo, a cupação da Barra ainda era muno incipiente. Quando o�ei, quatro anos depois, já havia prédios construidos que utilizavam o sistema de fossas; alguns nem isso tinham. Fui advertido de que as praias e lagoas estavam ameaçadas pela poluição e chamei um grupo de empresas para estudar o assunto. Fizemos o projeto do emissário submarino, Chagas aprovou e propôs enviá-lo à Assembléia Legislativa. lamos começar a execução, quando deixei a ecretaria; resultado: o trabalho não foi sequer in iciado.

o Conselho de Planejamento Urbano tinha a função de

livrar o governador das pressões da especulação imobiliárit