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3. ANTROPOMORFİZM VE MARKA ANTROPOMORFİZMASI

3.5. Antropomorfizm Türleri

O reconhecimento de que a ergologia não tem a pretensão de se inscrever no quadro das disciplinas epistêmicas torna essa exposição sobre a teia conceitual que sustenta essa perspectiva teórica um exercício de grande relevância. Apresenta-se como imperativa não apenas a necessidade de descrever o quadro conceitual que confere identidade às pesquisas que partilham dessas referências, como também a reflexão em torno da pertinência de seus conceitos no sentido de tornar inteligíveis

as interações cotidianas dos sujeitos com os seus meios de trabalho. Além disso, ao se propor a construção de uma abordagem sobre o trabalho que se sustenta também no patrimônio conceitual construído no interior das disciplinas particulares, a ergologia formula o desafio de articular essas diversas perspectivas na tentativa de propor uma nova totalidade de sentido. Por isso, definir a ergologia como uma “disciplina de pensamento”, como nos propõe Schwartz (2002), exibe, por um lado, uma posição de abertura em relação às várias disciplinas que têm o trabalho como objeto de investigação, bem como a uma postura crítica em relação ao alcance dos conceitos formulados no interior dessas disciplinas.

As considerações que se seguem buscam apresentar o significado de alguns conceitos da abordagem ergológica que se encontram incorporados nessa pesquisa, de modo a explicitar as razões que justificam a utilização dessas ferramentas teóricas. Num primeiro momento, propõe- se uma descrição sintética de modo a apresentar uma visão de conjunto de três conceitos-chave: “atividade industriosa”, “ingredientes da competência” e “Entidade Coletiva Relativamente Pertinente”, para, em seguida, buscar aprofundar o sentido atribuído a cada um desses conceitos a partir da análise de alguns dos textos em que eles são objeto de considerações mais detalhadas. Como poderá ser observado a partir da leitura dos tópicos subseqüentes, a exposição desses conceitos tem a característica de conduzir à abordagem de outras noções conceituais

que vêm sendo propostas pela perspectiva ergológica. O propósito dessa incursão aos conceitos é fazer emergir outras referências conceituais a partir da exposição daquelas consideradas noções fundamentais a sustentar a investigação.

Definido como sendo “um elo de vida, de saúde, sem limite predefinido, que sintetiza, cruza e enlaça tudo aquilo que se representa de forma separada (corpo e espírito; individual e coletivo; fazer e valores; privado e profissional; imposto e desejado) etc.”48, o conceito de “atividade” encontra-se presente nessa pesquisa de modo a designar duas dimensões complementares: a primeira diz respeito à especificidade da “atividade industriosa”, que se manifesta no interior de uma abordagem proposta por Schwartz ao desenvolver a dialética trabalho prescrito – trabalho real tematizada pela ergonomia, ampliando, assim, seu campo de referência com a formulação dos conceitos de “normas antecedentes” e “renormalizações parciais”. A adjetivação da atividade como industriosa remete aos atos de trabalho, sendo justificada com a seguinte argumentação:

48 No original francês: « L’activité est um élan de vie, de santé, sans borne prédéfinie, qui syntheétise, croise et noue ce qu’on se représente séparément (corps / esprit ; individuel / collectif ; faire / valeurs ; privé / professionnel ; imposé / désire ; etc..) ». Cf. DURRIVE & SCHWARTZ (2001). Para fazer uma breve apresentação do conceito, recorreremos ao Vocabulaire Ergologique escrito por

esses autores e disponíveis em: www.up.univ-

O termo [industrioso] é aqui empregado no sentido de destreza, habilidade. De forma geral, uma atividade aplicada com esforço em direção a um fim transforma as relações do ser industrioso com seu meio de vida. O termo industrioso é voluntariamente aberto para evitar a palavra trabalho, cuja representação nos vem de forma imediata (DURRIVE & SCHWARTZ, 2001).49

Na condução dessa pesquisa, a aproximação em relação ao conceito de “atividade industriosa” proporcionou novas referências a partir das quais tem sido possível refletir sobre a dualidade trabalhadores efetivos / trabalhadores terceirizados, presente na atual configuração das relações de trabalho na empresa de telecomunicações, não como polaridades fixas a demarcar certas características derivadas da natureza do contrato de trabalho, mas como arranjos móveis que vão se compondo no cotidiano dos operadores. A transformação do meio de vida por meio dessa noção de atividade industriosa permitiu uma ampliação da compreensão do meio de trabalho construído pelos Operadores de Serviços ao Cliente, que vai muito além da base técnica que o configura. Assim, o conceito de “atividade industriosa” emerge como condição para que seja possível apresentar uma descrição do meio de trabalho considerando sua heterogeneidade, pluralidade e hierarquização de

49 No original francês: « Qui est relatif à l’acte de travail: lê terme d’industrie est ici employé au sens d’adresse, d’habilité. Plus généralement, une activité tendue vers un but change les rapports de l’être industrieux avec son milieu de vie. Le terme industrieux est volontairement flou pour éviter le mot travail dont on se fait une représentation trop rapide ». Cf.: www.up.univ- mrs.fr/ergolog/html/vocabulaire.php

normas antecedentes que compõem esse meio específico, bem como os espaços de porosidade por onde ocorrem as renormalizações.

A segunda dimensão do conceito de “atividade industriosa” destaca o debate epistemológico em que esse conceito comparece como sendo capaz de promover sinergias entre diversas disciplinas que têm o trabalho como objeto de estudos visando à construção de uma perspectiva transdisciplinar. Essa dimensão epistemológica é expressa visualmente na configuração do chamado “Dispositivo Dinâmico a Três Pólos” (ver figura 1).

Uma concepção original acerca dos ingredientes da competência encontra-se presente na abordagem ergológica. Em torno de uma visão parcial da abrangência desse conceito, de acordo com o ponto de vista aqui explicitado, a Telemar estruturou o Centro de Exame de Qualificação Universidade Telemar (CEQUAL) que, como exposto no capítulo anterior, tem se transformado no elemento chave da gestão de recursos humanos desenvolvida pela empresa com a finalidade de atestar a competência de trabalhadores terceirizados para o desenvolvimento de suas atividades junto aos usuários da telefonia fixa.

A concepção das competências requeridas para o desenvolvimento das atividades de trabalho proposta pela perspectiva ergológica considera

suas várias dimensões – desaderência, aderência e valores – e seus ingredientes. Essa ampliação das fronteiras da competência possibilitou a problematização dos limites da concepção de competência presente na estratégia da Telemar e adotada como referência para a avaliação e certificação de trabalhadores terceirizados para o exercício de suas atividades. Tal problematização evidenciou elementos que remetem a formas históricas de aquisição das competências e as possibilidades de se operar a transmissão do conjunto de saberes e valores presentes na atividade industriosa.

O conceito de “Entidade Coletiva Relativamente Pertinente” (ECRP) emerge no interior da abordagem ergológica para designar as configurações fluidas que reorganizam em permanência a atividade de trabalho, para além dos limites demarcados pelos organogramas das empresas. Conforme Schwartz, a análise do conceito a partir de seus elementos constitutivos nos indicaria as seguintes características:

“entidades” no sentido de que existem fronteiras invisíveis que englobam as pessoas pertencentes a serviços diferentes, pessoas que se conhecem; “coletivas”, tendo em vista que aí transitam informações – eventualmente nos dois sentidos, e pelas vias mais diversas (podem ser notas escritas, chamadas telefônicas, deslocamentos, muitas coisas) – enfim, o que é fundamental para compreender a qualidade de realização de um certo número de tarefas solicitadas; elas são “relativamente pertinentes” na medida em que são pertinentes para a compreensão de como as coisas andam, ao mesmo tempo são relativamente

pertinentes, no sentido de que as fronteiras são variáveis: elas podem mudar em função das pessoas. E a história na empresa é feita de uma combinação indefinida de tais fronteiras pontilhadas que se constroem e reconstroem sem cessar (SCHWARTZ & DURRIVE, 2007, p. 154).

As opções gestionárias em prol da conformação de um mercado de trabalho flexível e heterogêneo, interno às empresas, caracterizado pela segmentação de contratos e regimes de trabalho, estabelecem diferenciações significativas entre, por exemplo, trabalhadores vinculados a empresas terceirizadas e aqueles regulares, que possuem vínculos estabelecidos diretamente à empresa contratante. Se do ponto de vista da lógica empresarial esse processo se sustenta a partir da necessidade de “transformar custos fixos em custos variáveis”, do ponto de vista da atividade industriosa tal premissa se revela insuficiente pelo fato da atividade operar uma sinergia no meio de trabalho, configurando assim a singularidade da situação de trabalho, de modo a instaurar, entre os trabalhadores, tanto individual quanto coletivamente, uma verdadeira “dramática do uso de si”.50. Assim, ao promover o descentramento em relação às formas de vínculo empregatício, tornou-se viável a abordagem da configuração fluida, que emerge da atividade dos operadores da telefonia fixa, como um espaço de transmissão de saberes sobre a

50 O conceito de “dramática”, no contexto da abordagem ergológica, designa a necessidade de reagir, de tratar os eventos à medida que esses rompem ritmos e seqüências habituais. De acordo com Durrive & Schwartz (2001), “a situação é, então, matriz de variabilidade, matriz de história porque ela engendra de outra forma o fato das escolhas a fazer (micro-escolhas) para tratar os eventos. A atividade aparece então como uma tensão, uma dramática”.

atividade do trabalho e de exercício de competência industriosa. Não restrito ao contexto das situações de trabalho, o conceito de Entidade Coletiva Relativamente Pertinente apontaria para a o “reprocessamento de valores” que incidiria na esfera macro-política sobre os debates que dizem respeito à vida de uma determinada coletividade.