3. ANTROPOMORFİZM VE MARKA ANTROPOMORFİZMASI
3.3. Antropomorfizm Literatür
Os dados que refletem a evolução do número de empregados vinculados diretamente à Telemar ao longo dos últimos anos não deixam dúvidas sobre a política de redução de pessoal posta em prática pela empresa visando, em última instância, à “conversão de custos fixos em custos variáveis”, como explicitado por um de seus gestores. Ao longo desse período, pode-se também constatar que a empresa tem conhecido uma
35 A partir de uma parceria estabelecida com os Sindicatos dos Trabalhadores em Telecomunicações dos estados de Pernambuco e Rio de Janeiro, o Instituto TELEMAR desenvolve o programa “Vivendo e Aprendendo”, de elevação de escolaridade. O ensino médio completo é um pré-requisito para a certificação dos Operadores de Serviços ao Cliente mas, desde o ano de 2004, a Telemar flexibilizou esse critério e admitiu aceitar a candidatura dos profissionais que tenham ensino fundamental completo dede que estejam participando de curso para elevação da escolaridade.
36 Cf. “Desenvolvimento de fornecedores do grupo TELEMAR”, elaborado em abril de 2006 e disponível em www.gr.unicamp.br/ggpe/secert.
ampliação de suas receitas operacionais, dado esse que reflete no aumento da produtividade e na eficiência da organização. Sobre esse desempenho da empresa, TEIXEIRA apresenta a seguinte hipótese:
Entre 1999 e 2004, a TELEMAR reduziu seu corpo funcional em 63%, passando de 24.563 para 9.181 funcionários. Entretanto, no mesmo período, ela aumentou a sua planta de terminais em serviço em 57% (...). Esse aumento de
produtividade, mesmo com um efetivo menor, pode ter ocorrido porque muitos dos que foram demitidos trabalham hoje em empresas parceiras que prestam serviços para a TELEMAR (TEIXEIRA, 2006, p. 91, grifo nosso).
Embora os dados que possam validar essa hipótese não estejam disponíveis, constata-se que o redesenho dos processos provocou na empresa um amplo e contínuo movimento de deslocamentos de trabalhadores, seja para ocuparem novos espaços na estrutura interna e cobrirem novos espaços geográficos racionalizados, seja para responderem ao desemprego inevitável. Dessa forma, muitos trabalhadores foram praticamente compelidos a estabelecerem vínculos com empresas terceiras que prestam serviços à Telemar. A partir de observações em campo e conversas com interlocutores, nota-se que alguns empregados até então vinculados ao setor de rede externa, e que possuíam formação em nível técnico, foram alocados para desempenharem funções de fiscalização e controle das atividades desenvolvidas pelos empregados terceirizados. Outros passaram a desenvolver suas atividades a partir de vínculos estabelecidos com empresas terceiras, ao lado de trabalhadores menos experientes e sob a
fiscalização de antigos companheiros de trabalho na Telemar. Ao tomarem essas iniciativas, os gestores da empresa procuraram também apresentar à sociedade a estrutura de uma empresa moderna, composta por empregados capacitados, detentores de um nível de formação escolar superior à média encontrada no mercado de trabalho:
Desde a privatização, o nível de escolaridade dos funcionários da TELEMAR aumentou bastante. Atualmente, todos os empregados da empresa têm no mínimo o ensino médio completo. A empresa também só contrata candidatos com curso superior completo. Apenas para os cargos de estagiário ela aceita pessoas com nível médio. Outras qualificações, como especializações ou conhecimento em línguas estrangeiras, vão depender dos requisitos das funções. (...) O perfil dos funcionários também mudou. Na época da privatização, a maioria dos empregados tinha formação em engenharia. Hoje, a área de formação já não pesa tanto (TEIXEIRA, 2006, p. 87).
Dessa forma, percebe-se que as medidas de racionalização adotadas pela empresa impulsionaram também a externalização de vários saberes investidos37 pelos trabalhadores ao longo de suas experiências no cotidiano de trabalho. A presença do CEQUAL como parte da estrutura da empresa visa a apresentar uma alternativa restrita ao problema da constituição das competências necessárias ao exercício das atividades, à medida que trata o problema das competências como sendo a manifestação de um saber codificado, resultado de um processo de
37 Trata-se de um conceito importante na abordagem ergológica que faz referência ao conjunto de saberes adquiridos pelos trabalhadores que têm como fonte a experiência de trabalho e que, de acordo com essa abordagem, não devem ser tratados como sendo epistemologicamente inferiores se comparados aos saberes formalizados presentes nas atividades.
formalização que prescinde das experiências dos sujeitos por ser exterior à atividade de trabalho, e que apresenta o ponto de vista da empresa acerca da melhor forma de desenvolvimento de um processo.
A abordagem teórica reivindicada na pesquisa propõe um conjunto de conceitos visando à compreensão das transformações incidentes sobre os mundos do trabalho na contemporaneidade e, nesse movimento, evidencia que, subjacente às medidas de racionalização das estruturas empresarias a partir da conformação do desenho das empresas em rede, desenham-se coletivos de trabalho caracterizados pela provisoriedade e fluidez que Schwartz (2000) designará pelo conceito de Entidades
Coletivas Relativamente Pertinentes (ECRP).
A partir do entendimento do caráter enigmático da atividade de trabalho, essas entidades põem em circulação um conjunto de ingredientes inerentes aos processos de constituição e transmissão de competências industriosas que vão garantir a realização das atividades. Para cada trabalhador, individualmente, e para todos de maneira geral, colocam-se questões relativas ao imperativo de transmitir conhecimentos disciplinares, valores e referências incorporados na arquitetura provisória e mutável de uma ECRP.
Num primeiro momento de aproximação com os sujeitos da pesquisa – Engenheiros, Técnicos em Telecomunicações e Operadores de Serviços ao Cliente, julgou-se que a investigação deveria estar centrada nos complexos processos de transmissão de saberes técnicos acumulados pelos trabalhadores que haviam perdido seus vínculos de emprego junto à Telemar em suas relações com os trabalhadores mais jovens e menos experientes das empresas terceiras. No momento que iniciou-se a pesquisa em campo, evidenciou-se que os processos de constituição de competência industriosa e transmissão de saberes sobre a atividade implicam aprendizagens numa relação de duplo sentido, pois notara-se que os trabalhadores terceirizados haviam incorporado referências em suas atividades, sobretudo no campo dos valores, que ainda não se manifestavam nas atividades dos primeiros. Essa mudança de perspectiva resultou na formulação das seguintes questões: como se desenvolvem os processos de constituição e transmissão de competências industriosas na conformação de uma Entidade Coletiva Relativamente Pertinente responsável pela prestação de serviços aos clientes da telefonia fixa? Quais são as formas de reconhecimento e validação social dos saberes constituídos no cotidiano das situações de trabalho vivenciadas por Engenheiros, Técnicos e Operadores a partir da interação com o meio de trabalho? Que estratégias são desenvolvidas pelos trabalhadores para transformar suas competências industriosas em formas de pressão social,
política e econômica visando à transformação das normas que incidem sobre suas relações de trabalho?
No próximo capítulo apresenta-se uma visão sintética da abordagem ergológica visando a explicitar o alcance dos conceitos formulados no interior dessa démarche de modo a justificar a incorporação dessa perspectiva teórica nessa investigação.