• Sonuç bulunamadı

3. ANTROPOMORFİZM VE MARKA ANTROPOMORFİZMASI

3.7. Antropomorfik Konuşmacı Karakter Örnekleri

A concepção da ergologia como uma “disciplina de pensamento”, que busca construir bases teóricas sólidas para a promoção do diálogo transdisciplinar em torno das atividades de trabalho, demanda a postulação de um paradigma capaz de tornar viável esse encontro. Para que essa abordagem transdisciplinar se efetive, tendo por finalidade a construção de conhecimentos sólidos sobre as situações de trabalho, faz- se mister conceber um modelo no interior do qual possam ser trabalhados os saberes específicos aportados pelas mais diversas disciplinas, além da conformação do paradigma capaz de operar deslocamentos conceituais. Para responder a essa dupla exigência, a démarche ergológica apresenta-nos o denominado “Dispositivo Dinâmico a Três Pólos” (Dispositif Dynamique à Trois Pôles) – ver figura66 – que, de acordo com Schwartz (2000b) , articula: o grau de apropriação de saberes expressos sob a forma de conceitos; o grau de apreensão das dimensões históricas presentes na situação de trabalho e o debate de valores a que se vê convocado todo indivíduo num meio de trabalho particular. No

66 Para a exposição do esquema gráfico do Dispositivo Dinâmico a Três Pólos optamos por reproduzir a versão original em francês. Tal opção se deve ao fato de constatarmos um problema na tradução brasileira do esquema, que poderia suscitar uma interpretação não compatível com a intenção do autor. Exemplificamos: onde se lê no esquema original a expressão Coeur des processus

socratiques à double sens a tradução para o português adquiriu a seguinte

formulação: Núcleo dos processos socráticos ambivalentes, o que significa sacrificar o método socrático da maiêutica ao jogo de valores opostos.

próximo tópico, apresentaremos com mais detalhes esse modelo proposto pela disciplina ergológica.

FIGURA 1 : Dispositif Dynamique à Trois Pôles Fonte : SCHWARTZ (2000b, p. 94)

A referência à atividade, identificada como paradigma da disciplina ergológica, aponta-nos a existência de laços intrínsecos entre a atividade, o universo de valores e os saberes engendrados nessas atividades. Desde que se trata da vida e das atividades humanas, nos lembra o autor, esses elementos vão se mesclar num triângulo que desloca parcial, mas fundamentalmente, o terreno da epistemologia. Dessa forma, como produzir conhecimentos considerando este “policentrismo”, a não ser pela construção de lugares em que esta relação triangular entre atividades, valores e saberes torne-se objeto de uma experiência epistemológica explícita (Cf. SCHWARTZ, 2004a, p. 155)?

A formulação desse questionamento evidencia a distinção proposta por Domingues (2004) entre “paradigma” e “modelo”, tratando esse último enquanto instrumento de conhecimento:

(..) o termo modelo significa três coisas, ainda que intercambiáveis e não exclusivas: 1) o arquétipo de alguma coisa, o protótipo de uma série, o original de uma espécie qualquer; 2) a simulação, a abreviação, a simplificação, o resumo da própria realidade; 3) a construção ou a criação de algo pelo espírito que serve de instrumento para conhecer alguma coisa ou conduzir uma pesquisa, sem necessariamente referir-se à realidade ou a algum de seus aspectos (DOMINGUES, 2004, p. 53).

A análise (parcial) a que submetemos a abordagem ergológica nos aponta que o “Dispositivo Dinâmico a Três Pólos” evidencia a terceira

acepção de modelo apontada por Domingues (2004). Assim, no contexto dessa investigação, concebe-se esse dispositivo como uma “construção ou criação de algo pelo espírito que serve de instrumento para conhecer alguma coisa ou conduzir uma pesquisa”. A partir do recurso a esse dispositivo, tem sido possível aos pesquisadores vinculados ao Departamento de Ergologia da Universidade de Provence formular e conduzir projetos de pesquisa transdisciplinares centrados no estudo de situações de trabalho, num leque que demanda a colaboração efetiva de pessoas provenientes de campos disciplinares específicos e trabalhadores presentes em diversas situações de trabalho.

O conhecimento que está em jogo construir, como já apontado no tópico anterior, diz respeito ao entrelaçamento dinâmico e transdisciplinar entre atividade, saberes e valores. Na exposição do modelo que segue, toma- se por referência o ensaio intitulado “Ergonomia, Filosofia e Exterritorialidade” e o artigo “A comunidade científica ampliada e o regime de produção de saberes”,ambos de autoria de Yves Schwartz. Num primeiro momento, apresenta-se uma exposição dos elementos que integram o modelo, buscando explicitar as particularidades a que se referem e seus modos de articulação. Feita essa exposição, discute-se a pertinência do referido modelo tendo em vista a teoria que lhe dá sustentação.

Inicialmente, temos o pólo dos conceitos que comporta materiais para o conhecimento, por exemplo, sobre a distinção entre trabalho prescrito e trabalho real, sobre a noção de mercado, sobre o corpo humano, sobre as práticas lingüísticas, sobre a comunicação e as dificuldades de traduzir em palavras, que não podemos evitar. Em seguida, o pólo das forças de convocação e de

reconvocação, que é o pólo dos saberes gerados nas

atividades. Os protagonistas destas atividades, portadores desses saberes, têm necessidade destes materiais para valorizar seus saberes específicos e transformar sua situação de trabalho. (...) Enfim, o encontro fecundo destes dois pólos não pode se produzir senão pela existência de um terceiro pólo: aquele das exigências éticas e epistemológicas. Ele se articula sobre uma determinada filosofia da humanidade, uma maneira de ver o outro como seu semelhante (SCHWARTZ, 2000a, p. 44).

Identifica-se no centro do dispositivo a presença dinâmica e enigmática da atividade de trabalho a promover a articulação entre os três pólos. O autor se refere a esse núcleo como sendo o espaço em que se realizam os “processos socráticos de duplo sentido”, ou seja, a construção de uma via de mão dupla – a exemplo dos diálogos platônicos em que Sócrates interroga seus interlocutores – que se configura como um núcleo permanente de interrogação dos elementos capaz de produzir novas configurações de saberes visando à renovação de conhecimentos sobre a atividade. Esse retrabalho das disciplinas específicas de origem de cada profissional do conceito, tanto aquelas de natureza epistêmica, quanto os saberes filosóficos, é sinalizado nas extremidades das flechas de mão dupla com um símbolo que também expressa a tensão, provocada nos conhecimentos estabelecidos, pela dinâmica da atividade. Ou seja, ambos os pólos, para renovarem permanentemente seu estatuo epistemológico, necessitam do concurso do caráter dinâmico da

atividade. A exigência do pólo filosófico incorporado ao dispositivo, nos diz Schwartz, “poderia parecer provocativo e suscitar reservas inúteis”. No entanto, a existência desse pólo é considerada fundamental para que o modelo se estabeleça em recusa aos pressupostos da exterritorialidade, ou seja, para assegurar que os conhecimentos construídos não assumam a característica de pseudo-neutralidade, se sobrepondo à história humana. Em outras palavras, trata-se do pólo que encontra o trabalho como “matéria estrangeira” (Canguilhem) e não simplesmente como “objeto” de conhecimento67.

A articulação entre o “pólo dos saberes organizados e disponíveis”, aportados pelas disciplinas específicas, e o “pólo das forças de convocação e reconvocação e de saberes investidos”, resultante das sínteses históricas realizadas pelos trabalhadores no espaço enigmático entre o normas antecedentes e renormalizações parciais, resulta de uma tese filosófica – inspirada em Canguilhem68, que concebe a vida como uma constante transformação operada pelos homens em seu meio. Essa relação entre os pólos acima é vista por Schwartz da seguinte forma:

67 No texto O trabalho numa perspectiva filosófica, Yves Schwartz nos diz que o trabalho, compreendido como matéria estrangeira, “expressaria o inacabado de qualquer especulação filosófica, e a exigência, para o filósofo, de ir instruir-se junto aos universos do trabalho”. Ainda de acordo com Schwartz, “se o trabalho, mesmo presente como objeto, não interpelar a filosofia como uma matéria que lhe seja também estrangeira, não somente a filosofia não será uma ajuda para entender e transformar o trabalho, mas poderá até se tornar um freio” (SCHWARTZ, 2003, p. 2 – 3).

(..) num caso, trata-se de saberes acadêmicos, objetos de um esforço permanente de estabelecimento de uma ordem teórica, objetos de explicitação metódica e crítica, de retrabalho contínuo; no outro pólo estão os saberes imanentes às atividades e retrabalhados por estas atividades, os mesmos que a ergonomia da atividade fez emergir como momentos de escolhas e de comprometimentos (...). Poderíamos chamá-los de saberes investidos (na atividade). Neste pólo, as atividades são

cadinhos69 da organização de saberes, estruturando sobre uma base histórica seus desdobramentos sobre seus apelos aos saberes formalmente organizados (SCHWARTZ, 2004a, p. 161).

A pertinência desse modelo de regime de produção de saberes sobre as atividades de trabalho com a teoria que lhe dá sustentação pode ser avaliada a partir de uma característica presente nessa elaboração tida como central para sua viabilidade numa perspectiva transdisciplinar: trata-se da valorização da atividade de trabalho a partir da presença viva de seus protagonistas, de modo a demonstrar que o conhecimento sobre a atividade de trabalho, que prescinda dos aportes oriundos dessa presença, é considerado pela abordagem ergológica incapaz de compreender seu caráter enigmático. Ao lado dos aportes oferecidos pelas disciplinas epistêmicas, há o concurso de saberes “indisciplinares”, resultantes de processos históricos do transmitir que renovam permanentemente a arte de fazer, e que são constantemente retrabalhados pelos protagonistas das atividades. Essa característica projeta novos horizontes que nos convidam a um exercício de reavaliação

68 Cf. CANGUILHEM (2001). Meio e normas do homem no trabalho.

69 O termo original empregado pelo autor é creusets. A nota do tradutor esclarece-nos que cadinho é um recipiente usado nas fundições para transporte de material em estado de fusão.

do lugar que a atividade de trabalho ocupa em nossa cultura. De acordo com o ponto de vista desenvolvido nessa pesquisa, a perspectiva aberta pela abordagem ergológica contribui para que seja superada essa lacuna ao afirmar que, no centro do regime de produção de conhecimentos sobre a atividade de trabalho que se apresente necessariamente numa perspectiva transdisciplinar, está a presença dos sujeitos trabalhadores em cujo encontro os profissionais do conceito devem se dirigir.

3.5 A abordagem ergológica acerca da formação da competência