DENİZLİ EFSANELERİNİN ANLATICILARI, İŞLEVSEL ÖZELLİKLERİ VE MOTİF YAPIS
2.3. DENİZLİ EFSANELERİNİN MOTİF YAPIS
2.3.2. Motif İndex’e Göre Denizli Efsanelerindeki Motiflerin Listes
2.3.2.14. S Anormal Zulümler
Ao adentrar no debate sobre a reforma empreendida durante o governo de Jeronymo Monteiro na área educacional, é necessário não perder de vista a valoração atribuída pela República à instrução, bem como as ideologias que sustentavam o ideário republicano, que eram o liberalismo de influência norte- americana, o jacobinismo de inspiração francesa e o positivismo CCf. CARVALHO, 2012).
Para Jorge Nagle, autor da obra clássica “Educação e Sociedade na Primeira República”, nesse período são retomados intensa e sistematicamente os princípios liberais, o que tenderia a provocar alterações nas bases da política, economia e da sociedade do país CCf. NAGLE, 2009). Segundo Heleieth Saffioti, “[...] nos dois decênios que antecederam a proclamação da República, era intensa a agitação de ideias, diretamente inspiradas no liberalismo e no cientificismo estrangeiros, que, desta ou daquela maneira, equacionavam as mudanças exigidas pela estrutura social brasileira” CSAFFIOTI, 2013, p. 291).
Progresso, modernidade e “civilização” eram os atributos do novo país idealizado nos primórdios da República. Para alcançar tais metas, era imprescindível formar cidadãos e mão-de-obra comprometidos com a nova concepção. Assim, a instrução pública surge com grande destaque no projeto civilizador republicano. A instrução era uma chave com a qual os republicanos pretendiam abrir duas portas: a do progresso e a da unidade do país de dimensões continentais. O historiador Sebastião Pimentel Franco lembra que a instrução primária obrigatória, universal e gratuita já constava como importante conteúdo programático do Partido Republicano desde 1874, ano de sua fundação em São Paulo CFRANCO, 2001, p. 93).
Para além dos ideais de progresso e modernidade, Wenceslau Gonçalves Neto atenta também para a importância da construção de uma unidade nacional como central no primeiro período republicano no Brasil. Para o autor,
Tratava-se, enfim, de formar uma consciência nacional, fazendo com que a população se sentisse como parte de uma grande coletividade e não de comunidades locais ou regionais, sem pontos de aproximação entre si e, ainda por cima, controlados por lideranças ciosas na preservação do poder que exerceram por décadas seguidas CGONÇALVES NETO, 2011, P. 423).
Jorge Nagle observa também que a escolarização era tida pelos republicanos como o “motor da história”. Segundo esse autor, era através da educação que os republicanos buscavam atender às demandas por transformações sociais:
Aceitando-se a ideia de que a sociedade brasileira da época passa de uma “sociedade fechada” para uma “sociedade aberta”, torna-se necessário identificar o papel que a escolarização desempenhou, no sentido de favorecer ou dificultar tal passagem. [...] O mais manifesto resultado das transformações sociais mencionadas foi o aparecimento de inusitado entusiasmo pela escolarização e de marcante otimismo pedagógico: de um lado existe a crença de que, pela multiplicação das instituições escolares, da disseminação da educação escolar, será possível incorporar grandes camadas da população na senda do progresso nacional, e colocar o Brasil no caminho das grandes nações do mundo; de outro lado, existe a crença de que determinadas formulações doutrinárias sobre a escolarização indicam o caminho para a verdadeira formação do novo homem brasileiro Cescolanovismo) CNAGLE, 2009, p. 115).
Embora o estudo de Nagle dê maior ênfase ao terceiro decênio do século XX, é relevante compreender sua proposta de análise sobre o que ele chamou de “a República possível”. Para o autor, até cerca de 1920, intelectuais e educadores brasileiros seriam tomados pela desilusão e frustração, diante das diversas “amputações” empreendidas a fim de “ajustar” o projeto republicano inicial à real conjuntura social, política e econômica brasileira nas primeiras décadas do novo regime Cidem, p. 116).
Em relação ao Espírito Santo, na virada do século XIX para o século XX, Maria Alayde Salim, considera que havia nos meios intelectual e político capixabas, uma grande confiança nas promessas de transformação apresentadas pela República, não obstante a consciência existente acerca do atraso regional, comparativamente aos estados vizinhos CSALIM, 2009, p. 128).
O discurso da modernização econômico-social e da superação do atraso era válido não somente para o Espírito Santo, embora o estado mantivesse indicadores bastante sofríveis em ambas as áreas à época. Na virada do século XX, os processos de industrialização e urbanização já eram uma realidade em São Paulo e
começavam a ser deflagrados em outras regiões. Era imperiosa a necessidade de se preparar cidadãos e mão-de-obra comprometidos com essa nova promessa de país: urbanizado, higienizado, desodorizado, policiado, industrializado e bem educado. Em outras palavras, a República alardeava a reforma do modelo político e econômico construído ao longo do período colonial e consolidado durante o Império, e a educação seria o principal instrumento a ser utilizado nessa empreitada de transformar o Brasil em um país definitivamente “civilizado”.
Dentro deste contexto, Gonçalves Neto vislumbra a escola republicana como um instrumento de difusão da nova ordem política e ideológica, com o qual se pretendia fazer desaparecer em definitivo, quaisquer elementos simpáticos à monarquia. O autor acentua ainda, a influência que os modelos centralizados de educação escolar surgidos na Europa durante o século XIX, exerceriam sobre os republicanos brasileiros CGONÇALVES NETO, 2011, p. 424).
Por outro lado, Maria Cristina Gouvea e Alessandra Schueler consideram autoritário o projeto modernizador republicano, uma vez que adotava uma perspectiva “regeneradora”, de constituição da cidadania, com base nos modelos europeus e norte-americanos. Para as autoras,
[...] a modernização levada a cabo pelas elites dirigentes deu-se caracteristicamente até a década de 30, por um acordo que buscava excluir ou reprimir formas de participação popular. Os grupos populares, destacadamente os ex-escravos e seus descendentes, eram tomados como representantes da ordem imperial, de um passado que se queria a todo custo romper, pela negação de suas marcas. Verifica-se no período a ampla circulação de discursos de desqualificação da população brasileira, fundados nas teorias raciais europeias CGOUVEA & SCHUELER, 2012, p. 332).
A República subverteu a ordem política do país, viabilizada por oligarcas que, em sua maioria, assim como Jeronymo Monteiro, tiveram seus berços nas casas- grandes cuidados por “didis” escravas. No campo social no entanto, seria muito mais difícil romper drasticamente com uma lógica perversa, cujo substrato eram as oligarquias rurais e portanto, as mudanças seriam muito mais lentas. A sociedade brasileira mantinha-se coronelista, patriarcalista, racista, machista. Tomando de empréstimo a expressão cunhada por Nagle, é possível afirmar que a “República possível” permaneceria assaz excludente.