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No ensaio “Gênero: uma categoria útil para a análise histórica” a historiadora Joan Scott (1995) revela a diversidade de pensamentos na produção de pesquisadoras feministas sobre a abordagem de mulher e gênero, enquanto categorias de análise. Nesta parte, vamos acompanhar e priorizar o referido estudo.

Uma primeira concepção conceitua gênero enquanto uma organização social de relações entre os sexos, uma vez que não se pode estudar a mulher de forma separada e isolada do homem. Rejeitam-se as explicações biológicas para as diversas formas de subordinação nas quais a mulher é naturalmente vista como inferior ao homem, tal como ser a mulher vinculada à maternidade e os homens a uma força muscular superior. “É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres.” Assim, gênero indica uma relação social com ideias próprias sobre os papéis específicos dos homens e das mulheres, é uma construção social (SCOTT, 1995, p. 3).

Instiga compreender que o comportamento humano não está associado à determinação biológica, mas aos valores e modo de viver das sociedades. Ser “masculino” e ser “feminino” e os papeis e funções sociais daí decorrentes são estabelecidas pela forma de socialização dos membros da sociedade. As meninas são formadas para serem obedientes, dóceis, sentimentais e os meninos, para serem ativos, independentes e racionais. Essas características terminam fazendo parte da “própria natureza” de cada ser (BEAUVOIR apud ALVES, B.M & PITANGUY, J, 1982).

A categoria gênero tem função de perceber os vínculos entre natureza e cultura e as relações de desigualdades entre homens e mulheres daí decorrentes. Então, gênero compõe a forma de pensar e a identidade de cada indivíduo, conforme a afirmação a seguir:

Esta conformação das subjetividades nos leva a uma característica importante da categoria de gênero. Por ser um referente fundamental para a afirmação da identidade, gênero se estabelece de forma relacional, uma vez que toda identidade se constrói sempre na relação entre um e outro. É a partir das relações entre homens e mulheres que constituímos os conteúdos culturais de gênero e, nesse sentido, para estudar as mulheres, os homens devem ser considerados (ALBERNAZ & LONGHI, 2009, p. 84).

Uma segunda concepção da produção feminista, conforme Scott (1995), com uma visão mais global, busca por uma nova história a partir de gênero como uma categoria de análise, em correlação com duas outras categorias: classe e raça. Busca-se por uma ordem

causal dos fenômenos, aponta-se que as desigualdades de poder estão embasadas nestes três pilares.

Contudo, ao longo da história - não por acaso - as visões sobre as mulheres são deslocadas da política e da economia, despertam um interesse mínimo na vida pública e no mundo científico, associando-se à categoria uma visão de inferioridade, fragilidade e, quando não, de invisibilidade. A autora observa inclusive, a ligação de regimes autoritários de Estado com o controle das mulheres, seja no impedimento da participação política, na legislação proibitiva sobre o aborto, no trabalho assalariado e até mesmo sobre o uso de indumentárias. Considera então que “na maioria dos casos, o Estado não tinha nada de imediato ou nada de material a ganhar com o controle das mulheres. Essas ações só podem adquirir em sentido se elas são interligadas a uma análise da construção e da consolidação do poder” (SCOTT, 1995, p. 10).

Por outro lado, as democracias modernas como o Estado de Bem-Estar Social pautam-se por ideologias políticas formuladas a partir de concepções de gênero que se traduz em medidas concretas de proteção às mulheres e crianças, caracterizando-se, assim, conforme Scott (1995), em um “paternalismo protetor”.

O estudo de Joan Scott, em referência, conduz à necessidade de formulação de uma abordagem de gênero que explique e interprete os fenômenos e a realidade, apresentando alternativa de novas relações e com perspectivas de mudanças. Então, trabalha o conceito de gênero enquanto modo de significar as relações de poder, uma dimensão decisiva da organização da igualdade e desigualdade.

A alta política, ela mesma, é um conceito de gênero porque estabelece a sua importância decisiva e seu poder público, as razões de ser e a realidade da existência de sua autoridade superior, precisamente graças a [sic] exclusão das mulheres do seu funcionamento. O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político foi concebido, legitimado e criticado. Ele se refere à oposição homem/mulher e fundamenta ao mesmo tempo o seu sentido. Para reivindicar o poder político, a referência tem que parecer segura e fixa, fora de qualquer construção humana, fazendo parte da obra natural ou divina. Desta forma, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam- se, ambos, partes do sentido do próprio poder. Colocar em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema por inteiro (SCOTT, 1995, p. 10-11).

Importa entender os processos políticos, pois vários atores e significações enfrentam- se para obter o seu controle. A natureza dessa ação apenas poderá ser entendida se for situada no espaço e no tempo. A análise teórica precisa desvelar o que está por trás das invocações e reativações de gênero, seja para explicar ou justificar as posições presentes em um determinado contexto concreto ou para desvelar o que está implícito.

É nesta perspectiva que Joan Scott (1995) sucinta variada perguntas, entre as quais, se o gênero legitima o surgimento de carreiras profissionais ou como as instituições sociais têm incorporado o gênero nos pressupostos e na sua organização. Enfim, o estudo aponta para uma nova história em que as mulheres sejam participantes ativas e em que a concepção de gênero seja redefinida e reestruturada, seguindo em direção a uma visão de igualdade política e social que inclui sexo, classe e raça.