2. ARAŞTIRMA BULGULARI VE ANALİZLERİ
2.2. NİTEL ARAŞTIRMANIN ANALİZİ
2.2.8. Aile ve Toplum Hayatıyla İlgili Genel Düşünceler
No município de Belém, quase dentro dos limites suburbanos da capital paraense, nas terras hoje pertencentes ao Instituto Agronômico do Norte, encontra-se entre os restos de antigas paredes de alvenaria e erguendo-se acima de um pequeno túnel (boca de forno), uma árvore imensa. Atração turística. Lugar malassombrado. O espetáculo é realmente deslumbrante. Essa árvore, isolada numa pequena clareira, chama a atenção pelo seu porte gigantesco e pela sua copa arredondada. A observação mais atenta mostra porém que é pura ilusão. Trata-se simplesmente de um chaminé “abraçada” por um apuiseiro (ficus fugifolia. Maq.). Tudo que resta intacto de um antigo engenho de açucar e aguardente – o Murucutu295.
295 SALLES, Vicente. O engenho Murucutu. In: Brasil Açucareiro, Rio de Janeiro, ano 36, vol. 71, nº3,
Com este trecho descreve o historiador Vicente Salles (1931-2013) o encantamento que lhe despertou uma visita feita, acredita-se que na década de 1960, às ruinas do Engenho Murucutu296. Este seria o sítio que tanto interesse também despertara nos artistas paisagistas do Grupo do Utinga, que por lá andavam durante umas duas décadas antes.
O lendário engenho, um dos mais prósperos surgidos na região amazônica e que já se encontrava em pleno funcionamento pelo menos desde o ano de 1784297, achava-se localizado em uma extensa área de terras, nas proximidades de Belém, que depois ficou conhecida como as matas do Utinga e que hoje constitui o Parque Ambiental do Utinga298. Recoberta por espéceis botânicas originais da floresta amazônica, é considerada pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará, atualmente, como uma das poucas áreas remanescentes na Região Metropolitana de Belém onde as condições ambientais e paisagísticas encontram-se consideravelmente preservadas.
296 O Engenho Murucutu, construído no século XVIII e há muito tempo em ruínas, guarda registros do processo de colonização europeia na bacia amazônica, fundamentado, na época, essencialmente no comércio de açúcar. Em prospecções arqueológicas realizadas a partir de 1990 foram registrados por volta de 40 sítios históricos de engenhos, nas proximidades de Belém.
João Manoel Rodrigues, “um dos grandes latifundiários do Pará colonial” e fundador do Engenho Murucutu, edificou sua propriedade em terras herdadas por sua esposa, a senhora Maria Rodrigues Martins, descendente de Estácio Rodrigues, posseiro de sesmaria no Rio Guamá. Com João Antônio Rodrigues Martins, filho do casal e herdeiro do Murucutu o engenho, que já chegara ao apogeu na época de seu primeiro dono, aumentará ainda mais seu esplendor. Segundo Salles (1968) “...foi ele [João Antônio] um inconstestável senhor de engenho, à maneira dos grandes proprietários do nordeste e cercou-se de luxo, escravaria e poder” e, aumentando a extensão de seus domínios, para além do Murucutu, possuiu mais dois engenhos: o de Mocajuba, depois vendido e o do Utinga, que permaneceu no domínio da família”. Casou-se com a Sra. Ana Tereza Landi, filha do arquiteto Antonio José Landi, com quem teve três filhos dos quais, a terceira, Ângela Joana Pereira Martins casou-se com o tenente- coronel Francisco Marques d’Elvas Portugal, e passou a ser a herdeira dos engenhos Utinga e Murucutu. À época da Cabanagem a propriedade foi devastada, ocasião em que serviu de quartel- general para os cabanos, que dali partiram, sob o comando de Angelim, para o ataque à Belém. Em inventário de 1840, Ernesto Cruz revela que ainda constavam: “casa de vivenda, capela, casa de engenho, rancho dos pretos (senzala), roda d’água, moendas de ferro, alambique de cobre e serpentinas, tachos de ferro, batelões, canoas” e, em 1850, já se encontrava abandonado. Cf. SALLES, Vicente. Op. cit., passim.
297 Frei Caetano Brandão, em visita ao engenho naquela ocasião, informa que a fazenda era nova,
“mas já não tem inveja às melhores do Estado, sobretudo o Engenho de Aguardente, obra em que brilham igualmente a arte e a magnificencia”. BRANDÃO, Frei Caetano, 1784 apud SALLES, Vicente. O engenho Murucutu. Ibid. p.19.
298 O Parque Ambiental do Utinga ou Parque do Utinga, criado em outubro de 1993, é um complexo
que abrange os mananciais de águas que abastecem a cidade de Belém do Pará. Compostos por um sistema de lagos (Bolonha e Agua Preta), rios (Guamá e Aurá) e pequenos igarapés (Água Preta, Utinga, Murucutu e Buiussuquara), integrados ao entorno florestal, ocupam uma área de aproximadamente 1340 há.
Figura 60: Engenho de açúcar em Murucutu – Belém – 187-? Autor: Felippe Augusto Fidanza.
Acervo: Fundação Biblioteca Nacional
Figura 61: Engenho de açúcar em Murucutu – Belém – 187-? Autor: Felippe Augusto Fidanza.
Cortada por inúmeros córregos e mananciais como o Boiussuquara, o Murucutu, o Utinga ou do Aureliano e o do Antão, a área logo chamou à atenção da Companhia de Águas do Gram-Pará, organizada em 1881299 e que tinha como finalidade abastecer a cidade de água potável e que, no local, limediatamente iniciou seus trabalhos de “avaliação”. Relata Almeida (2010) que a comissão de engenheiros responsável pelos serviços, que “passaram por critérios relacionados à “bondade” e quantidade das águas, e a relação destas com a precipitação de chuvas, períodos de estiagens, assim como “existência de matas” nas proximidades dos mesmos”300, concluiu ser, o Utinga, o principal manancial de água para a Companhia. E complementa a autora:
Além das considerações que mencionei, a boa qualidade [da água] também estava relacionada à conservação das matas próximas aos mananciais. Em vista disso, era preciso estabelecer os limites das referidas áreas, coibir a derrubada da vegetação, evitar a proximidade dos moradores com as nascentes, de modo a afastar os riscos das contaminações, ou seja, era imprescindível “conservar” as matas. Possivelmente, para aqueles que examinaram as condições dos mananciais, fosse importante levar em conta a qualidade considerada natural, o que significaria que a boa qualidade da água seria possibilitada pela natureza intacta, ou praticamente intocada pelo homem301.
Inserida em sua política de modernização da cidade, o Intendente Antonio Lemos efetivamente inicia a captação de agua nos manaciais localizados nas matas da fazenda Utinga, por ele dasapropriada em 1902. Sempre relacionada ao abastecimento de água da cidade, ao longo do tempo a área passa por inúmeros trabalhos e obras vinculadas àquela atividade, como a construção dos lagos Bolonha e Água Preta, da estação de bombeamento para captação de águas do rio Guamá e da estação de tratamento de resíduos.
Dentre um conjunto de dezessete imagens, realizadas pelo fotógrafo Felippe Augusto Fidanza, pelos anos 1870, registrando vistas da cidade de Belém e pertencentes ao acervo iconográfico da Biblioteca Nacional, em duas delas é possível vislumbrar as instalações do engenho Murucutu. Embora, conforme já aqui citado,
299 A companhia anônima denominada Companhia de Águas do Gram-Pará, surgiu em conformidade com o contrato celebrado entre o Presidente da Provincia e o engenheiro civil Edmund Compton, em 19 de fevereiro de 1880. Cf. ALMEIDA, Conceição Maria Rocha de. As águas e a cidade de Belém do Pará: história, natureza e cultura material no século XIX. Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em História, São Paulo, 2010.
300 Ibid., p. 149. 301 Ibid., p. 150.
àquela década o local já se encontrasse abandonado, é possível perceber no primeiro registro (Figura 60) o prédio do engenho, com sua altiva chaminé, algumas outras edificações de grande porte ao seu lado, e o que parece se tratarem de algumas construções de menor trato, como as duas casas à esquerda da fotografia. A imagem que segue (Figura 61) apresenta outro ângulo da propriedade, onde se destaca, ao centro, uma grande edificação, em dois pavimentos e portas em arco, em cores claras, e que possivelmente poderia ser a casa grande. Junto e à sua direita, na imagem, surge uma edifício que, ao que se pode perceber, seria em pedra, talvez a capela. À esquerda uma construção baixa, com telhado em quatro águas e completando a imagem, à direita, um conjunto formado por uma casa, uma série de quatro colunas robustas e um grupo de árvores. Toda a cena emoldurada pela floresta, que surge exuberante por detrás dos prédios.
A capela do Engenho Murucutu que, segundo alguns historiadores, foi erguida em 1711 pelo frades mercedários e dedicada a Nossa Senhora da Conceição, na segunda metade do século dezoito teria sido reformada por Antonio José Landi. Neste sentido, Salles (1968) destaca ainda que esta não teria sido a única edificação deste tipo construida por Landi nos engenhos do Pará e cita a capela do Engenho Anapu, pertencente ao alferes Felipe Correa de Sá que, visitada também pelo Frei Caetano Brandão, do religioso teria despertado imensos elegios. “Contudo, Landi deve ter trabalhado com muito carinho na capela do Murucutu, e os motivos de ordem afetiva são evidentes, pois se destinava a sua filha”302, pondera o autor. Das edificações originais do Murucutu, é o prédio da capela o único que ainda se encontra de pé atualmente.