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Em janeiro de 1964, tornou-se pública a primeira versão do programa da Frente Progressista. Esse primeiro programa, submetido às sugestões dos partidos políticos, continha dois conjuntos de medida. O primeiro referia-se à “Política Geral do Governo”, tendo um enfoque mais conjuntural, especificava questões relativas às políticas financeira, comercial e de exportação. O segundo conjunto propunha as reformas estruturais, como a bancária, a universitária, a administrativa, a política e, principalmente, a agrária198. Essa última foi a que ganhou maior atenção. O programa falava na desapropriação sem pagamento prévio em dinheiro199

Em fevereiro de 1964, San Tiago, em entrevista coletiva no Palácio Tiradentes, expôs a versão final do programa da Frente.

, mas propunha a revisão do Decreto SUPRA, para atrair o apoio dos conservadores, principalmente do PSD.

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198 “Bases para a Formação de uma Frente Popular ou Progressista”, 26 de dezembro de 1963. Arquivo San Tiago Dantas, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. Citado em: Figueiredo op.cit. p.146.

Entregando à imprensa os pontos básicos, Dantas preocupou-se em afirmar que o documento não possuía caráter

199 Medida que para ser implementada deveria ser alterada a Constituição.

200 O documento de 11 páginas do programa da Frente Progressista está disponível em sua versão integral no Fundo San Tiago Dantas (Arquivo Nacional. AP 47. Caixa 43. Pacotilha 3)

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definitivo. Sustentou, além disso, que a Frente não era um último esforço para a preservação do regime democrático no país e que se não for conseguido o êxito desejado, deverão ser estudadas novas alternativas. Sobre o espírito de conciliação do movimento disse que governar é conciliar, porém, coisas compatíveis.201

Na nova versão, diferentemente da primeira, distinguia-se a forma como as propostas seriam implementadas. Havia três tipos de reforma: as que exigiam mudanças constitucionais, as que poderiam ser executadas por meio de legislação ordinária e, por fim, as que seriam realizadas por “Atos do Executivo”.

O intelectual trabalhista deixava claro sua disposição de forjar uma coalizão de centro-esquerda, excluindo a esquerda e a direita radical.

I- Emendas à Constituição

1- Extensão do direito de voto ao analfabeto, sem qualquer restrição quanto às eleições majoritárias, e na forma que a lei dispuser quanto às proporcionais.

2- Elegibilidade dos alistáveis, com exclusão dos analfabetos, e com inclusão dos militares de qualquer categoria, desde que passem para a reserva ao registrarem suas candidaturas, mesmo em se tratando de oficiais superiores.

3- Abolição da vitaliciedade dos professores catedráticos, sem prejuízo dos direitos adquiridos à estabilidade funcional.

4- Reforma do artigo 141, parágrafo 16, e do artigo 147 da Constituição, para permitir a desapropriação de terras por interesse social, e o pagamento da indenização com títulos da dívida pública.

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II- Leis ordinárias

1- Revogação da lei de segurança nacional que restringia o registro de partidos políticos pela Justiça Eleitoral.

2- Revogação do decreto n 9070, que regulamentava greves, e a aprovação de uma nova legislação de greve.

3- Estabelecimento de legislação regulamentando o arrendamento rural, abolindo o sistema de parceria (“meias” e “terças”) e de trabalho gratuito; estabelecimento de tetos para renda derivada de aluguel rural; direito de renovação compulsória do aluguel rural, quando todas as obrigações tivessem sido cumpridas pelo locatário.

4- Reforma progressista do sistema tributário, fazendo recair sobre as pessoas físicas de maior renda uma maior tributação;

5- Anistia para os graduados e praças das Forças Armadas, e para todos os presos por motivos políticos.

6- Reajustamento geral e periódico dos salários e vencimentos.

A terceira parte, intitulada “Atos do Executivo”, é a mais extensa, compreendendo as propostas relativas às políticas gerais de governo e às reformas de base. Entre as reformas destaco as seguintes:

1- Na reforma agrária

A) Desapropriação, por interesse social, da faixa marginal às rodovias e ferrovias, obras de beneficiamento e vias navegáveis, com exclusão das pequenas propriedades e das áreas ocupadas com lavouras pastagens e reservas florestais;

B) Planejamento anual pela SUPRA das áreas selecionadas para implantação da reforma agrária, de acordo com os recursos disponíveis;

C) Apoio à sindicalização, e fiscalização, nos campos, do pagamento efetivo do salário legal, considerando-se sujeito à desapropriação, por interesse social, os estabelecimentos que descumprirem, em grau de reincidência, as obrigações decorrentes da legislação do trabalho.

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As propostas de reforma agrária da Frente Progressista, como visto no documento, aproximavam-se das reivindicações do PSD. Muitos pontos conciliavam com as mudanças propostas pela ala “progressista” do partido, os chamados “agressivos”, para corrigir os supostos problemas do Decreto Supra. Segundo Argelina Figueiredo (op.cit:150-151), a partir de um documento localizado no arquivo Amaral Peixoto, algumas das medidas sugeridas foram discutidas entre líderes pessedistas e San Tiago Dantas. Percebe-se que algumas reivindicações do partido estavam atendidas, como a manutenção de um planejamento anual para a desapropriação de terra, a exclusão da desapropriação de áreas ocupadas por plantações, pastagens e reservas florestais e, apesar de não especificar o tamanho, também não incluía as propriedades consideradas de tamanho médio.

Vale dizer que, apesar de se comprometer com reivindicações históricas do PCB – como a eliminação do latifúndio e a doação de terras não exploradas - o documento não incorporou algumas sugestões dos comunistas, como, por exemplo: a preservação de 30% das terras desapropriadas para serem doadas e o aumento do tempo de pagamento da terra comprada pelos camponeses. Outras propostas se seguiam:

2- Reforma urbana através de um levantamento imediato das necessidades de habitação das classes populares, buscando pela produção em série de casas populares, eliminar essa carência, impedindo, todavia, a especulação imobiliária e o enriquecimento ilícito à custa de obras e melhoramentos públicos.

3- Reforma na área das finanças e no comércio por meio:

A) Contensão progressiva da inflação, paralelamente às reformas de base, e do déficit público;

B) Negociar um refinanciamento da dívida externa brasileira;

C) Monopólio do câmbio pelo Banco do Brasil que passava a ser responsável pelo controle do crédito.

4- Fortalecimento da Petrobras e do monopólio estatal do petróleo, com a encampação das refinarias particulares e o controle da distribuição de refinados no território nacional.

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5- Estímulo às exportações, mediante política orientada para a conquista de novos mercados e a ampliação das vendas nos mercados tradicionais, inclusive com a diversificação dos produtos exportados.

6- Defesa da indústria nacional, mediante proteção aduaneira adequada e condições de financiamento.

7- Reforma na área da educação e da cultura nos seguintes níveis:

A) No ensino primário, com a rápida erradicação do analfabetismo, a começar pelas áreas urbanas;

B) No ensino médio, com a expansão da rede de escolas públicas e a criação de centros de cultura popular;

C) No ensino universitário, com a abolição do sistema de cátedras e a participação efetiva dos estudantes na administração das universidades.

8- Na área de política externa, propunha:

A) Preservação e desenvolvimento da Política Externa Independente;

B) Defesa do princípio da autodeterminação dos povos e da não-intervenção; C) Coexistência pacífica entre os blocos do Leste e do Ocidente.