1. ŞEYH GÂLİB’İN HAYATI, ESERLERİ, EDEBÎ KİŞİLİĞİ
2.7. Varlığın Beş Mertebesi
2.7.2. Ceberût Âlemi
2.7.2.1. A’yân-ı Sâbite ve Değişmez Yapısı
O prevalecimento de notícias sobre artes plásticas no Ilustríssima (63%) e no Digestivo Cultural (47,6%) expõe a fragilidade do jornalismo cultural em referência à configuração capitalista identificada pela maioria dos autores que refletem sobre a pós- modernidade neste trabalho. Isso porque tal tipo de texto quer, além de informar, vender um serviço ou produto – seja um quadro, uma exposição, um curso, um programa de televisão. É devido a isso que eles aparecem, normalmente, acompanhados de dados como local, data, horário, entre outros: seu objetivo não é raciocinar sobre a produção artística, mas sim comunicá-la a fim de torná-la, de alguma forma, lucrativa.
Guy Debord ([1988] 1997) já identificava na sociedade do espetáculo a transformação da vida social em mercadoria e a predominância do ter em detrimento ao ser. Assim como, Fredric Jameson ([1991] 1996) afirma que a lógica do capital passa a ser cultural na pós-modernidade, já que os produtos culturais se tornam consumíveis em função do surgimento do mercado livre, do capital financeiro e do consumo massivo.
As notícias Exposição e Livro | Niobe Xandó – Ilustríssima, 21 de junho – e Exposição | Eduardo Berliner – Ilustríssima, 13 de setembro – exemplificam claramente essa máxima quando informam, inclusive, o preço do livro (R$50) e da exposição (R$10) em questão:
‘A Surpresa das Coisas Sempre Novas’ comemora o centenário da artista paulista (1915-2010) reunindo 53 obras, entre pinturas, colagens, desenhos e cerâmicas. Um livro também marca a data, trazendo quase 200 reproduções e fortuna crítica com textos de Vilém Flusser, Mário Schenberg, Aracy Amaral e outros.
galeria Marcelo Guarnieri | tel. (11) 3063 5410 | de seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 10 às 17h | grátis | última semana Cult Arte e Comunicação R$50 (264 págs.) (ILUSTRÍSSIMA, 2015, n.31.490, p.2, grifo do autor).
Como 20ª edição do Projeto Respiração a mostra ‘A Presença da Ausência’ insere no contexto da casa que abriga a coleção de Eva Klabin (1903-91) obras do pintor carioca (1978). Assim, suas pinturas com água sanitária sobre veludo se misturam à tapeçaria e seus biombos de seda a esculturas e pinturas renascentistas italianas. Fundação Eva Klabin - Rio | tel. (21) 3202-8555 de ter. a dom., das 14h às 18h | R$ 10 | até 29/11 (ILUSTRÍSSIMA, 2015, n.31.574, p.2, grifo do autor).
De fato, não são todas as notícias do Ilustríssima que apresentam claramente em seu texto o custo. Mas, mesmo que a maioria delas não contenha valores e exista ainda a informação grátis referente a algumas exposições, é sabido que tais textos são resultado do trabalho de assessorias de imprensa que sugerem pautas aos jornalistas – afirmação inferida com base na divulgação de eventos a realizarem-se nas mesmas galerias: três noticiam exposições na galeria Nara Roesler, duas na galeria Leme e outras duas na galeria Zipper, por exemplo. Com uma infinidade de mostras artísticas ocorrendo no país ao mesmo tempo, noticiar eventos provenientes de locais idênticos parece ter alguma razão recôndita. Normalmente, nessa relação entre assessorias de imprensa e veículos de comunicação há alguma forma de capital envolvido; se constitui um vínculo de reciprocidade entre a empresa que apresenta a informação e o jornal que a divulga.
Além disso, mesmo que a entrada em determinada mostra seja franca, hoje em dia, a maioria dos espaços artísticos possui um local específico onde é efetuada a venda de produtos do artista em questão (ou relacionados a ele). O público é incitado à compra através do fetiche pela mercadoria – citado por Bauman (2001) e Jameson ([1991] 1996) – e realiza o consumo, até mesmo para despertar o sentimento de pertencimento. Ainda de acordo com Bauman (2001), esses espaços de compra funcionam quase como templos onde há a ilusão de que se faz parte de algo, uma espécie de sentimento de identidade que surge ao estar contíguo a outros indivíduos que realizam o mesmo ato. Debord ([1988] 1997) defendia que em tais
locais o trabalhador converte-se em consumidor de ilusões, pois acredita estar unido aqueles que ali também consomem, em uma ideia de comunidade, ação e eu.
Nas notícias do Digestivo Cultural, da mesma forma, é notável a presença do mercado capitalista, como em HQ Solar: O Caminho do Herói em pré-venda com desconto exclusivo – 24 de junho – que já no título demonstra o apelo consumista. Ademais, a dependência das assessorias de imprensa também se evidencia: o vínculo é perceptível devido ao descuido daquele que publica as notícias, pois, ao invés de reescrevê-las, as insere no site igualmente a como foram recebidas, sem notar a não finalização das mesmas. Por exemplo: na notícia Mostra Pinturas e Cartemas - A vida em reflexo e transfiguração – 8 de junho – o texto termina assim: “[...] ele cria com seu desenho e sua pintura seres desprovidos da capacidade de transformar matéria inorgânica em matéria viva, tal como fazem os vegetais, mas que tem o dom de conver.” (CASTRO, 2015, grifo do autor). A mesma coisa acontece na notícia Yoko Ono assina nova Illy Art Collection – 9 de junho – que, inclusive, possui como autora uma empresa chamada ADS Comunicação Corporativa, através do trabalho de Aline Lima: “[...] Cada evento indicado no pires mostra a data e o local do acontecimento, com a conclusão ‘And mended in 2015’ (E reparada em 2015). A sétima xícara da coleção, UNBROKEN CUP (XÍCARA INQUEBRÁVEL), está s” (LIMA, 2015, grifo do autor). Tal atitude demonstra, além do mais, o descaso com a prática jornalística e, principalmente, com o leitor que não consegue acessar a totalidade da notícia.
No Digestivo Cultural, como no Ilustríssima, também existem notícias de exposições a realizarem-se na mesma galeria: duas na Mul.ti.plo Espaço de Arte – informação proveniente da empresa Angela Falcão Assessoria. Ainda, outras organizações são as responsáveis por variadas notícias, como é o caso da Pluricom Comunicação Integrada, Verbena Comunicação e Lu Nabuco Assessoria em Comunicação.
É visível, portanto, que o mercado impõe a lógica de um jornalismo cultural que quer lucrar. A presença do hiperconsumo, cunhado por Gilles Lipovetsky (2004) e da sociedade enraizada na economia livre, de Zygmunt Bauman (2001) propõe uma produção de textos de baixa qualidade, focada na sedução e no desejo, aquela que desperta a ânsia imparável pela aquisição e não pela reflexão a respeito do conteúdo proposto.
Indispensável evidenciar que algumas reportagens do Ilustríssima, do mesmo modo, exprimem a submissão ao capitalismo. Em O outro Mário da arte brasileira – 26 de julho –, se lê “[...] é o responsável pela organização do volume ‘Arte. Ensaios: Mário Pedrosa’ [Cosac Naify, 624 págs., R$79,90]”, “[...] coincide, neste ano, com o lançamento de ‘Nise da Silveira: Caminhos de um Psiquiatra Rebelde’, de Luiz Carlos Melo [Automática
Edições, 366 págs., R$60]” e “[...] editora também lançou uma reunião de textos sobre
arquitetura – a cargo de Guilherme Wisnik (‘Arquitetura: Ensaios Críticos: Mário Pedrosa’, 208 págs., R$49,90).” (GONÇALVEZ, 2015, n.31.525, p.4 e 5, grifo do autor). Na Para rever o construtivismo – 13 de setembro –, aparece: “[...] A mostra vinha acompanhada de um catálogo que fez história – e que a Pinacoteca relança agora em edição fac-similar [396 págs,.
R$45; à venda em pinacoteca.org.br]” (MOURA, 2015, n.31.574, p.3, grifo do autor). Duas
reportagens que apresentam não só os valores dos produtos discutidos como também suas respectivas Editoras e até mesmo o ambiente on-line onde é possível adquiri-los.
O circuito do mercado cultural expresso no jornalismo sustenta ainda outras peculiaridades. Foi constatado, por exemplo, que duas das cinco críticas apresentadas pelo Ilustríssima referem-se a exposições similares: Mulheres na Pinacoteca – 2 de agosto, de Heloisa Espada – e Pioneiras do moderno – 16 de agosto, de Felipe Scovino – discorrem sobre mostras que reuniram a produção artística feminina durante o modernismo. Além disso, uma das propagandas da Revista Cult, patrocinada pelo Ministério da Cultura, é justamente sobre uma dessas mostras: Mulheres artistas: as pioneiras (1880-1930) – junho de 2015.
Não se questiona aqui a importância das exposições promovidas pela Pinacoteca do Estado de São Paulo e pelo Museu de Arte do Rio; nem mesmo a qualidade dos textos produzidos, até porque toda e qualquer exposição merece variadas discussões e deve poder contar com a opinião de diferentes sujeitos. Mas, frente ao total de cinco (10,8%) críticas em 46 (100%) textos relacionados às artes plásticas no Ilustríssima, se estranha o fato de duas estarem debruçadas sobre eventos tão parecidos – sendo que existem milhares de exposições acontecendo no país que poderiam ser criticadas. Somado ao fato de que uma das mostras foi publicizada na Revista Cult (mesmo segmento jornalístico) em mês anterior, pode-se inferir que a arte vendável, aquela que possui incentivos financeiros – neste caso, do Ministério da Cultura – acaba por receber maior atenção da mídia impressa brasileira.
Aliás, na Revista Cult, a questão mercadológica se apresenta de forma chamativa nas propagandas encontradas. Não que os outros veículos não possuam publicidade referente a variados produtos e serviços; mas o que se admira é que, nos quatro exemplares estudados, nove propagandas referem-se a exposições de artes plásticas e não há sequer um texto que aborde o segmento artístico de forma principal. Ou seja, a publicação recebe incentivos financeiros do Ministério da Cultura – órgão responsável por todas as propagandas – e é somente dessa forma que atribui algum destaque ao segmento artístico. Aqui vale a máxima de Lipovetsky (2004) e Bauman (2001): a mídia funciona como motor de um capitalismo pós- moderno que inunda os indivíduos com mensagens publicitárias.
Indaga-se igualmente o monopólio publicitário visível nos anúncios da Revista Cult, afinal, todos aqueles relacionados às artes plásticas são financiados pelo Governo Federal. Confirma-se a ideia de Lipovetsky (2004) em referência à saturação dos grandes sistemas: as instituições sociais continuam detentoras de poderes, porém, como não é possível exercê-los de forma totalizante (como era feito durante a modernidade em que havia uma unidade, um universalismo) o fazem agora através de argumentações – nesse caso, com o auxílio da publicidade.
A predominância de notícias permite, por fim, a construção de uma última ponderação: o derretimento dos sólidos que, prevalentes na modernidade, agora se transformaram em formas fluídas e em ininterrupta mutação. Na modernidade líquida, de Bauman (2001), a manipulação das regras mercadológicas tornou tudo passageiro e capaz de atender o indivíduo pelo período (e somente por esse) necessário. Nesse sentido, quando uma exposição já não serve mais, por exemplo, precisa rapidamente ser substituída por outra que continue a despertar o desejo; e, seguindo tal regra, a notícia deve também ser sobreposta por uma nova, possuidora de domínio comercial. É a velocidade de circulação, reciclagem, envelhecimento e substituição que resulta na liquidez das formas contemporâneas.
Em 1967, Guy Debord ([1988] 1997) já deduzia que a alienação da população seria consequência do modo de organização capitalista das sociedades que se reconfiguravam após a Segunda Guerra Mundial. O crítico cultural apontou o surgimento de uma consciência mercantil que bloquearia as experiências concretas e impossibilitaria o engajamento crítico. O espetáculo, para o autor, é a experiência prática da realização mercantil.
Infelizmente, o que se pode constatar sobre o atual jornalismo cultural brasileiro – predominantemente noticioso, que apresenta valores com destaque, que se preocupa mais com o poder de venda do que com a qualidade do texto e, ainda, utiliza-se de publicidade sem discutir o produto em questão – encontra-se imerso em uma dos principais traços da hipótese pós-moderna: o capitalismo. Por consequência, espaços que poderiam ser utilizados em prol da reflexão sobre as artes plásticas estão, na verdade, colocando-se como inibidores da consciência crítica – que permanece sem sustância para se desenvolver. Quem perde é o leitor, o indivíduo que nos meios de comunicação massivos enxerga – mais do que qualquer outra coisa – cifrões.