6. GEÇERLİK VE GÜVENİRLİK
1.1. Öznel Dindarlık Algısı: Korku ve Ümit Dengesi
O Centro Feminista 8 de Março (CF8) é uma organização não-governamental que surgiu em março de 1993 criada em razão das crescentes reivindicações acerca da instalação da Delegacia Especializada em Defesa da Mulher (DEAM) no município de Mossoró/RN. O objetivo do CF8, assim, era sensibilizar a sociedade da problemática da violência contra a mulher, sobretudo com vistas a garantir às mulheres a incorporação, no seu cotidiano, de elementos de identificação, denúncia e combate à violência sexista. Ao longo de seus 17 anos de existência, o CF8 tem se constituído como uma entidade de referência na formação em gênero no Rio Grande do Norte, prestando assessoria à outras instituições em alguns estados vizinhos (CF8/2016).
Atualmente, segundo a entrevista 29, assistente social do CF8, a entidade desenvolve iniciativas alicerçadas em três elementos: feminismo, organização e
formação. A comunicadora social do CF8, a entrevistada 31, relatou que o propósito inicial do CF8 estava mais ligado especificamente às ações de instituição da Delegacia da Mulher em Mossoró, seu corpo técnico, a princípio, era bem limitado, formado basicamente por assistentes sociais. A partir das demandas dos grupos atendidos, o CF8 foi especializando as suas atividades e passou a contar com agrônoma e comunicadora. As suas ações têm o escopo de auxiliar no fortalecimento das organizações de mulheres nos espaços sociais, especialmente das trabalhadoras rurais, por atuar num Estado onde o clima predominante é o semiárido. Para tanto, oferece apoio, assessoria e formação em gênero aos coletivos de mulheres, comissões femininas dos sindicatos de trabalhadores/as rurais, entidades de assessoria técnica, gerencial e organizativa que atuam no meio rural e urbano de Mossoró e região (CF8, 2016).
O CF8, segundo a coordenadora do centro, a entrevistada 32, assume uma visão crítica das relações de dominação: “é preciso contestar as situações recorrentes de violência em desfavor das mulheres do semiárido, que se estendem do contexto estrutural das relações econômicas aos contextos de violência no meio familiar”. Por isso, entende que o CF8 deve procurar pautar as suas ações articulando as questões de classe, gênero e raça/etnia, de modo a priorizar a construção de políticas feministas que integrem as demandas que são correlatas a essas perspectivas. Nesse sentido, estimula a formação de coletivos de mulheres na região, ajudando na sua formatação, pois entende que somente a partir da auto-organização as mulheres poderão conquistar a sua autonomia.
O CF8 está articulado em parcerias com várias entidades públicas e privadas do país, mas também possui intercâmbios com entidades internacionais (Genéve Tiers Monde - Suíça, Manos Unidas - Espanha e Actionaid - Grécia/Brasil).
Uma parceria do CF8 com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) expandiu a área de atuação da entidade, de forma que lhe conferiu a oportunidade de mostrar e desenvolver trabalhos no nordeste brasileiro, potencializando discussões nos grupos de mulheres e contribuindo no debate da produção da agricultura familiar. Suas atividades em nível local estão integradas à inserção das mulheres em discussões feministas no âmbito nacional, o que tem favorecido uma formação política forte das mulheres que se relacionam com o CF8. Desse modo, consolida-se cada vez mais a construção de uma atuação forte e sólida, principalmente no debate sobre as relações de gênero, ajudando a transformar padrões culturais vigentes, em prol de uma organização da sociedade mais igualitária e justa para todas as pessoas (CF8, 2016).
Figura 16: As mulheres e o CF8. Fonte: Centro Feminista 8 de Março.
Um dos convênios importantes entre o CF8 e o MDA, por meio da diretoria de políticas para as mulheres rurais, é a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) - Mulheres, que tem por objetivo garantir a assistência técnica à 240 mulheres rurais em Sertão do Apodi, Mato Grande e Seridó.
Recentemente, inclusive, o CF8 recebeu o prêmio “Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social”, na categoria “mulheres”, pelo projeto “Água Viva: Mulheres e o redesenho da vida no semiárido do Rio Grande Norte”. A tecnologia social desenvolvida foi o uso racional do recurso hídrico por meio do reaproveitamento de toda água utilizada nas atividades domésticas, como lavagem de pratos e de roupas, que passou a ser purificada e reutilizada na irrigação de árvores frutíferas e hortaliças agroecológicas. Antes de chegar ao seu destino final, a água que seria descartada passa por um processo de purificação por meio de filtros orgânicos, caixas e tubos instalados nas propriedades. A filtragem é feita com a utilização de produtos extraídos na região, como a palha de carnaúba e a fibra do coco triturada. Depois disso, o sistema de irrigação das hortaliças ocorre por meio de gotejamento. O projeto é basicamente assim:
Figura 17: Sistema de aproveitamento de água do CF8. Fonte: Centro Feminista 8 de Março.
O objetivo da iniciativa foi criar alternativas de convivência com a estiagem no semiárido. Tal projeto foi cofinanciado pela União Europeia (através do projeto “Mulheres: do Quintal ao Mar”), e é resultado do processo de auto-organização das mulheres do Assentamento Monte Alegre I, de Upanema (RN) e de professores e estudantes da Universidade Rural do Semiárido (UFERSA), responsáveis pelo acompanhamento e análises laboratoriais que comprovam a qualidade da água.
A história do CF8 com a Rede Xique Xique é antiga, antes mesmo de existir a Rede, o CF8 já atuava em Mulunguzinho. Inicialmente, o CF8 não realizava assessoria direta, pois a sua pretensão era debater sobre a saúde das mulheres e violência doméstica. A partir da fixação de parcerias com entidades do semiárido, bem como da expansão da atuação do CF8 em bairros periféricos (onde residem as pessoas que vêm da zona rural, geralmente), esta entidade resolveu se aproximar do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que realizava assistência técnica na região para o plantio de melancia com o uso de agrotóxico.
A postura primária do CF8 era que o apoio produtivo por assistência técnica deveria ser encabeçado por outras entidades, já que o funcionamento do CF8, na sua fundação, contava com o trabalho de voluntárias, e sua equipe técnica era limitada. Dois ou três anos após a sua criação foram surgindo os primeiros apoios financeiros, como também demandas sociais por ações políticas focadas na geração de renda.
Ao estudarem o mercado regional, identificaram uma demanda por hortaliças. Pretendiam estimular sistemas alternativos de produção. Após fazer visitas a entidades do Estado do Ceará e consultarem entidades que compõem as várias redes e arranjos sociais que participam, decidiram por buscar meios de propor uma mudança dos modos de produção tradicional para sistemas agroecológicos, o que impõe
a substituição de insumos. Nesse sentido, é necessário demarcar a diferença entre agricultura alternativa, compreendida como um conjunto de práticas e tecnologias que permitem a utilização de certos insumos e não de outros, e a agroecologia, considerada como uma ciência que apresenta uma série de princípios e metodologias para estudar, analisar e desenhar agroecossistemas (ARAÚJO, 2009, p. 85).
O maior ganho do redimensionamento das técnicas de produção na região não seria, portanto, exclusivamente ambiental, já que as comunidades do entorno e os produtores tenderiam a ter uma maior segurança alimentar, a recorrer menos ao sistema único de saúde, provocando efeitos positivos em cascata. Assim, a efetiva aliança entre a ideia de ecologia aplicada às atividades agrícolas precisa assumir uma dimensão política e cultural (ARAÚJO, 2009, p. 85), valorizando, ao mesmo tempo, o ser humano, o meio ambiente e a relação de interdependência entre eles (GLIESSMAN, 2000, p. 590).
Como na época o CF8 não tinha agrônomo/a, recorreu-se ao apoio do entrevistado 13, especialista em sistemas de produção agroecológicos, que trabalhava na ONG Visão Mundial. Pretendiam propor o estabelecimento de outras bases para a comercialização, recorrendo a leis de mercado alternativas, baseadas na solidariedade, não na maximização de lucros ou na exploração da mão de obra da mulher ou infantil.
Tal conjuntura levou à ampliação da atuação do CF8, que incorporou à sua atuação a lógica da economia feminista e solidária. Foram, então, organizadas formações, encontros e discussões sobre auto-organização, autogestão, cooperativismo, divisão sexual do trabalho, inclusive o doméstico. As reuniões, formações e o intercâmbio entre os diversos grupos da região gerou a criação de uma Associação de Parceiros da Terra (APT), que consistia numa associação de produtores/as e consumidores econômicos solidários, atualmente, em sua maioria, consumidores da Rede Xique Xique.
Muitas vezes, segundo a assessora técnica do CF8, entrevistada 14, dada a melhoria da qualidade de vida das mulheres e da população em geral na região, muitas
pessoas passaram a se engajar ativamente nas ações políticas das quais o CF8 participava ou promovia. Este contexto gerou conflitos com o agrônomo, pois eles entendiam que a produtividade dos grupos estava tendo impactos negativos por conta da assídua participação das mulheres no movimento social. As próprias mulheres, entretanto, afirmavam que não eram só um grupo produtivo, e que a participação política nas ações do CF8 fortalecia os grupos.
As participantes do CF8 relatam que se observam outras relações dos indivíduos ligados, direta ou indiretamente, a algum grupo produtivo com os recursos naturais. A região, entretanto, está passando por dificuldades na produção de hortaliças por conta da estiagem que já dura mais de 4 anos, e investe mais, atualmente, no incentivo ao plantio de árvores frutíferas que tenham uma boa adaptação ao semiárido.
Os grupos de mulheres, segundo uma das assessoras técnicas do CF8, já foram bem maiores, mas foram reduzindo, não por falta de interesse, mas em razão dos conflitos domésticos que a participação feminina em grupo gera. Assim, algumas mulheres vão pegar marisco, mas vendem para atravessadores, pois não podem perder mais tempo com o beneficiamento do produto, já que não podem se ausentar da sua residência por muito tempo.
Essas situações evidenciam, como afirma uma técnica do CF8, que ao mesmo tempo em que são conseguidas conquistas importantes, há muito conservadorismo na sociedade, como reação à organização dos movimentos sociais. Ainda assim, nos últimos anos muitas políticas públicas de referência foram construídas, tal como a criação, no mesmo ano da instituição da SENAES, em 2003, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, sobretudo em decorrência do processo de luta organizado pelas mulheres. Os direitos conquistados em decorrência dessas iniciativas, porém, são constantemente ameaçados, especialmente pela ausência de um sólido sistema público de formação política, educacional e cultural focado na valorização e reconhecimento dos direitos humanos.
Nesse sentido, o trabalho do CF8 é admirável e fundamental na região. Auxilia na manutenção e fortalecimento dos grupos de mulheres do semiárido, pois as ajuda a se mobilizarem e a atuarem politicamente, além de inseri-las em debates importantes sobre as experiências que enfrentam, como produtoras ou como mães, esposas/companheiras, filhas, ou seja, como mulheres. Desse modo, o CF8 é uma força integradora das mulheres, o que vem adquirindo reconhecimento não só das mulheres da região, mas de entidades públicas e privadas, nacionais e internacionais.