A criação do Colégio Universitário foi sugerida pela Comissão de Ensino instituída pelo Conselho Universitário (CONSU), da então UREMG, em 1962, sob a recomendação de que condições mínimas fossem providenciadas para o bom funcionamento do Colégio: prédio próprio para salas de aula e administração, corpo
80 Convênio 1.474, de 06/12/1979, para a expansão do ensino de 1.º grau e superior na cidade de Viçosa. 81 Este documento não está datado. Todavia, presumimos ser de 1982 ou de ano subsequente, pois traz dados do ano letivo de 1981.
82 A Lei 8.112/90 regulamenta a contratação de servidores públicos, cargos, carreiras e dá outras providências. Trata-se de um marco nas relações de trabalho dentro da burocracia do Estado brasileiro, pois, entre outras determinações, institui o concurso público como forma de acesso e distribuição de cargos na burocracia do Estado.
92 docente próprio, dotação orçamentária própria. A julgar pela sugestão da Comissão, a implantação do COLUNI teria, desde o início, cumprido os requisitos mínimos para a existência de qualquer escola. Mas nem tudo são flores nos jardins da UFV83.
Essa estrutura sugerida em 1962 só foi implementada em 1989: prédio próprio, com laboratórios de Física, Química e Biologia, além de um outro de informática; gabinetes para professores, sala exclusiva para a Direção, Coordenação e Secretaria; Serviço de Registro Escolar próprio. Em 2014, o Colégio recebeu outras instalações num projeto de ampliação que complementou a estrutura da escola com salas de aula, gabinetes de professores e um auditório. Contudo, até que isso se convertesse numa realidade concreta, nos primeiros anos as condições para a existência do COLUNI foram bem adversas. Era um estranho no ninho da excelência na UFV.
Como já foi adiantado em seções anteriores, o COLUNI não possuía sede própria no período aqui estudado (1965 a 1981). Nesse ínterim, as aulas acontecerem em vários locais: de 1966 a 1967, as aulas foram dadas em duas salas do Edifício Arthur Bernardes, o Prédio Principal. Entre 1968 e 1975, num barracão de madeira, que havia abrigado anteriormente o curso Agrotécnico, chamado pomposamente de Prédio de Madeira. Entre 1976 e 1978, voltou a ocupar duas salas do Prédio Principal, e em 1979 passous a dividir o Pavilhão de Aulas com os alunos da graduação. Da mesma forma, a secretaria e a direção ocuparam espaços improvisados, até que a sede própria fosse inaugurada em 1989.
Se a infraestruura física era precária, não menos precárias eram as condições de trabalho. Até 1970, os serviços de secretaria eram executados pela Secretaria Geral da UFV, vinculada à Diretoria Geral de Ensino, à qual também era vinculado o COLUNI. Em 17 de abril de 1970, o Diretor solicitou ao reitor uma secretária para o colégio, que, naquela época, contava com 125 alunos, com previsão de aumento de 25% das vagas.
Os equipamentos e suprimento de material de expediente também eram objeto de súplica constante do Diretor – esse era o tom dos pedidos. Os pedidos de material de expediente eram encaminhados aos setores responsáveis e simplesmente não
83 A Universidade Federal de Viçosa é reconhecida e admirada pelo cuidado com que os parques e jardins são mantidos, desde a sua criação, e mesmo em momentos de crise financeira. Na avenida principal, há um canteiro central ornado com azaleias que florescem em setembro, fazendo o caminhar pela “reta”, como é chamada a Avenida P.H. Rolfs, um convite à meditação e ao sonho. Os gramados da UFV são rigorosamente cuidados, e não se vê pelo campus nenhum vestígio de lixo ou qualquer outro objeto que “suje” a imagem da Instituição. Entretanto, a criação do COLUNI não se enquadrava no cenário idílico da Instituição.
93 eram atendidos, como observamos numa correspondência de setembro de 1970, em que o Diretor pediu a intervenção do Reitor para o atendimento de um pedido de móveis e equipamentos para o Colégio, que, desde março daquele ano, havia sido encaminhado e ainda estava “arquivado no Serviço de Materiais”. (CORRESPONDÊNCIA, 1970). O Colégio funcionava, como dizia o próprio Diretor, “a duras penas”. (CORRESPONDÊNCIA, 1971; 1973).
Os pedidos de adequação da estrutura física eram constantes. Todavia, a constituição de um corpo de servidores que atendesse às necessidades do Colégio também era necessária. Em 1975, o Diretor solicitou a criação de um Setor de Expediente, vinculado ao Serviço de Registro Escolar (SER), visto que a Secretaria do COLUNI, que também funcionava vinculada ao SER, sofria a sobrecarga dos trabalhos como controle de presença de alunos e professores, apoio didático, preparação de relatórios anuais e todo o sistema de arquivo. Não havia uma sala exclusiva para o Diretor.
Essa condição de precariedade, descrita em vários documentos, persiste e, em 1980, em correspondência ao Pró-Reitor Acadêmico, o Diretor apresentou um quadro com as demandas do Colégio para a adequação do espaço físico e pessoal administrativo para 1980. Seriam necessários gabinetes para os professores, laboratórios, salas para a direção e para os servidores técnico-administrativos, além do aumento de vagas para esses cargos, para suporte à direção, conforme correspondência ao Reitor:
3. Espaço Físico
*Gabinetes (ou espaço) para 14 professores
DESCRIÇÃO
QUANTID. ÁREA (m²)
1979 1980 1979 1980
Salas de aulas teóricas 3 4 270 350
Laboratórios - 3 - 150
Gabinetes de Prof. - * - 140
Secretaria 1 1 30 30
Diretoria - 1 - 20
94 4. Pessoal Administrativo DESCRIÇÃO 1979 1980 Diretor Geral 1 1 Diretor Assistente 1 1 Secretárias 2 2 Regente Disciplinar - 1 Contínuo - 1 Zelador 1 1 TOTAL 5 7 (CORRESPONDÊNCIA, 1980) O Diretor justifica a demanda por espaço físico:
2.2. Gabinete(s) para 14 professores: Os Professores do COLUNI não dispõem de lugar para seus trabalhos extra-classe (preparação de aulas e provas, corresção de provas, trabalhos e textos, atendimento aos alunos, etc.). Desta forma a Direção do COLUNI não tem meios mais eficientes para controle e comunicação com seu Corpo Docente. (sic) (op. cit)
3. Administração
3.1. Criação de um SETOR DE EXPEDIENTE no Colégio Universitário (artigo 7, parágrafo único do Regimento do COLUNI), Processo n.º 79/02147 com andamento paralizado, deferido pela Diretoria de Recursos Humanos em março de 1979, não autorizada pela Pró-Reitoria de Administração por falta de previsão orçamentária em 1979 para 1980.
3.2. Regente de Disciplina – Principalmente por causa das salas de aulas dos cursos superiores próximas as do COLUNI.
Os serviços de secretaria eram realizados, como mostra no quadro citado anteriormente, num espaço de 30m², que, segundo o Diretor, eram totalmente insuficientes para as demandas das atividades próprias do Colégio. Quando sua presença é cobrada pelo Pró-Reitor Acadêmico, ele argumenta:
Retirando-se a área ocupada pelos móveis, nesta única dependência disponível para as atividades acima (confecção de material didático para todos os professores e Direção), sobram uns 6m² para serem ocupados por 11 professores, 3 monitores e 2 diretores. Portanto, a presença contínua da Direção, também reclamada por V.S.ª, é impedida fisicamente.
[...]
Diante deste fatos, o Colégio Universitário apresenta um déficit no seu corpo docente, administrativo e no seu espaço físico. Quando se observa que ele oferece aos 320 alunos a quantidade de 112 aulas semanais, ou seja, mais aulas que qualquer Departamento desta Universidade, verifica-se que fisicamente é humanamente impossível apresentar um desempenho elogiável quando se estabelece comparações.
Ao levar o conhecimento destes fatos a V.S.ª a Direção do Colégio Universitário o faz no sentido de alertar futuros problemas que inevitavelmente irão acontecer e cujas soluções esCApam à sua competência. (CORRESPONDÊNCIA, 1980)
95 A tensão estava presente. A ampliação do número de matrículas para 320 vagas e a transferência das aulas para o Pavilhão de Aulas (PVA) aproximaram dos cursos de graduação um perfil de alunos que não combinava com o silêncio exigido dos graduandos. Nas palavras de um ex-professor, “eram muito barulhentos”. Além dessa incompatibilidade, as salas de aula eram inadequadas (como algumas o são até hoje), provocando constantes reclamações dos alunos no que dizia respeito à visiblidade do quadro negro, o que prejudicava a concentração durante as aulas. E a isso se somava a dificuldade de administrar as questões referentes à rotina do Colégio.
Enfim, essas questões só foram parcialmente equacionadas depois da ampliação da oferta de vagas para as três séries do segundo grau em 1982. Em correspondência de janeiro de 1982 ao Diretor de Recursos Humanos, o Diretor Assistente justifica a necessidade da criação da Secretaria Executiva e da Seção de Expediente, e afirma:
A necessidade destes dois organismos na estrutura do COLUNI se deve a ampliação na sua estrutura educacional e administrativa, configurada através do reconhecimento do seu Regimento, a criação das três séries do 2.º grau, a recente criação da Seção de Registro e Controle Escolar e da alteração contratual para DE, que ora se processa, para diversos professores do seu quadro docente.
Em 1982, foram criadas a Secretaria Executiva e a Seção de Expediente. As atividades do COLUNI são transferidas para um prédio alugado, fora da UFV, no centro da cidade. Teve início o projeto para a construção do prédio próprio, dentro do campus, o que viria a acontecer na gestão do professor Geraldo Martins Chaves (1984- 1988), que havia sido o primeiro Coordenador do Colégio Universitário.
E mais uma vez nos perguntamos: em que bases se fizeram a qualidade e a excelência, sonho de tantos que buscaram o COLUNI como espaço de conclusão do ensino secundário e de preparação para o vestibular? Seriam o currículo e a prática dos professores algo tão diferenciado, a ponto de garantir, a despeito de tantas dificuldades, a excelência tão proclamada? Por que, apesar dos tantos problemas administrativos e da duvidosa legalidade, o Colégio sobrevive e se consolida?