Política é o espaço institucionalizado da disputa pelo poder. Mas, embora se trate de característica essencial, não se pode reduzir o conceito de política a esse aspecto. Como alerta BOBBIO, “reduzir a categoria da política à
atividade direta ou indiretamente relacionada com a organização do poder coativo é restringir o âmbito do político quanto ao social”. 31 E também não se pode reduzir o significado da política enquanto disputa pelo poder à atividade político-partidária que objetiva a ocupação de cargos públicos, eletivos ou não, no âmbito dos poderes legislativo e executivo.
O termo é usado indistintamente de variadas formas na linguagem comum. Falamos em “política da boa vizinhança”, “política para troca ou devolução de mercadorias”, “política de um clube para angariar novos sócios”, “política de administração do lar”, etc. Uma coisa todos os usos tem em comum: se referem a alguma “ação”.
Toda política é agir. Não significa, obviamente, que todo agir é político. O agir é político quando dirigido a um fim. Mais uma vez, não qualquer fim, mas uma determinada categoria de finalidades. Quais? Como já mencionado acima, a sobrevivência da sociedade é uma finalidade precípua da ação política. Mas também a evolução da sociedade e o controle dos seus destinos.
Estas duas situações são identificadas por BERNARD WILLIAMS como as
duas funções essenciais da política. 32 A primeira função está associada indelevelmente ao pensamento de THOMAS HOBBES, para quem o Estado
deveria cumprir um papel quase policial, baseado nas idéias de ordem, segurança e proteção. 33 Esta primeira função é algo que precisa ser feito todo o tempo, a sobrevivência de uma sociedade é diária e eterna. No processo de
31
BOBBIO, Norberto. Et al. Dicionário de Política. Brasília: Ed. UNB, 1998. Pág. 960.
32 WILLIAMS, Bernard. In the Beginning Was the Deed: Realism and Moralism in Political Argument. New
Jersey: Princeton University Press, 2008. pag. 62 e segs.
33 HOBBES, Thomas. Leviatã: A Matéria, Forma e Poder de Um Estado Eclesiástico e Civil. 2a ed. São
formação e solidificação de um Estado, o primeiro objetivo é atingir um nível de segurança que permita então passar ao segundo ponto, pois característica importante dessa função é que ela é pressuposto para o exercício da segunda. Não se quer dizer, é claro, que, uma vez superada esta etapa, pode-se sentar nos louros e focar na segunda função. Na verdade, esta etapa não é nunca superada. O que acontece em Estados em que o processo político já atingiu um nível de maturidade, é que a primeira função passa a ser exercida de maneira menos controversa, quase como uma função administrativa, o que não quer dizer que os atos praticados no seu exercício não sejam políticos e que esta atividade esteja isenta do processo político em geral.
A atividade política e o exercício do poder a ela inerente fazem ressaltar a divergência, já tratada acima como característica essencial do ser humano. Não há acordo em como realizar as funções políticas ou sobre qual o melhor caminho para uma sociedade. Diante disto, só há duas soluções possíveis: o compromisso ou a dominação. Esta ultima tem sido, através da história, a mais comum. As explicações para isso podem ser muitas, desde a idéia de que a ganância é atributo do ser humano até o fato de que um compromisso que permita um consenso que envolva sacrifícios recíprocos em nome de um bem maior exige um truísmo até hoje não visto, mas principalmente, implica em um trabalho hercúleo e incessante.
O processo de amadurecimento dos regimes democráticos busca tornar possível este compromisso. Mas ele vem encontrando percalços de toda espécie naturais pelo projeto ambicioso que propõe e por esbarrar na natureza humana e, com mais força ainda, esbarrar na cultura humana construída em milênios de experiências totalitárias e anseios de dominação.
Esses temas se tornaram alvo do pensamento de HANNAH ARENDT e
CARL SCHMITT,dois pensadores que viveram o sonho da república de Weimar
tornado pesadelo na ascensão do nazismo, gerando uma quase necessidade de tratamento do assunto.
Para ARENDT, a preocupação maior é como explicar a violência
banalizada destes eventos e o choque da justificativa de Eichmann34 perante o tribunal de Nuremberg: estava cumprindo ordens. ARENDT recusa qualquer
identificação do poder com a violência, 35 negando que o uso de força suficiente para identificar que alguém esteja a exercer poder sobre outrem, pois “a força é unicamente um meio para um fim, e qualquer comunidade baseada unicamente na força entra em decadência quando atinge a ordem e a estabilidade”. 36 A perplexidade de ARENDT está na vontade de identificar
como as teorias políticas e filosóficas da modernidade contribuíram para levar ao mundo àqueles acontecimentos.
Por outro lado, SCHMITT procura analisar estes mesmos fatos e teorias
de outra perspectiva, fazendo um caminho diferente ao revisitá-los. Inconformado com as “formulas abstratas” 37 em que estão contidos os conceitos fundamentais da teoria política, pretende chamar atenção para as incongruências entre estas e a realidade prática da atividade política e do exercício do poder. SCHMITT crítica as teorias jusnaturalistas e juspositivistas
demonstrando que ambas desconsideraram a realidade política do Direito,
34 ARENDT, Hannah. Eichmann in Jerusalém: A Report on the Banality of Evil. 2aed. Londres: Penguin
Books, 2006.
35 ARENDT, Hannah. Crises da República. 2aed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006. Cap. III.
36 ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, Imperialismo, Totalitarismo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2004. p. 171.
aquelas por centrarem a legitimação do poder em uma abstração metafísica e estas por deslocarem o poder para a normatividade e nas normas fundarem seus juízos de legitimação. 38 Mas a normatividade não esgota toda a realidade, não esgota nem mesmo o próprio Direito, muito menos determina o sentido do jurídico. O Direito se manifesta além da normatividade e além da conduta em adequação a essa. O descumprimento é parte essencial do Direito, a exceção é momento de expressão da ordem, não o oposto a ela. No agir exigido por estas situações excepcionais, se expressa o poder efetivo e real.
Aqui convergem HANNAH ARENDT e CARL SCHMITT. Para ambos, o
poder se manifesta através da ação. Para ela uma ação racionalmente justificada através de um processo de legitimação consensual; para ele uma ação exigida por um momento necessário de conformação da realidade política de determinado povo ou Estado. Poder é relação e a toda ação referente a esta é ação política, aqui incluindo, evidentemente, agora na minha opinião, toda a atuação dos profissionais do Direito, de advogados, juízes, membros do ministério público até os serventuários da justiça ou bacharéis que apenas penduraram o diploma na parede.