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3.3. Veri Toplama Araçları

3.3.1. Çocuklar İçin Öz-yeterlik Ölçeği

3.3.1.3. Geçerlik Çalışması

3.3.1.3.3. Ölçüt-bağımlı Ölçek Geçerliği

O levantamento bibliográfico das publicações dos últimos anos relativos à questão que concerne à presente pesquisa evidenciou que existem publicações importantes de diversas áreas da saúde. Dentre elas destacam-se três publicações:

Pesquisa desenvolvida na área de Fisioterapia destaca a importância da avaliação do processo de evolução do quadro clínico de PFP (GARANHANI, CAPELLI e RIBEIRO, 2007). O objetivo deste estudo foi descrever e analisar, retrospectivamente, os resultados do tratamento por meio da cinesioterapia de indivíduos com PFP, por meio do levantamento de dados clínicos de 23 prontuários, no período de janeiro de 1999 a junho de 2003.

Na casuística foi identificado o predomínio do sexo feminino (14 casos), média de idade de 32,3 anos, paralisia facial unilateral (22) e envolvimento da hemiface direita (12). Quanto à etiologia da PFP constatou-se: causa idiopática (14), traumatismo (05), tumor (03) e quadro inflamatório (01).

27 Este estudo demonstrou que 12 pacientes apresentaram melhora do quadro inicial após tratamento com recursos de cinesioterapia, sugeridos pela prática clínica e literatura científica.

Já o trabalho de Bernardes, Gomez, Pirana e Bento (2004), na área da Fonoaudiologia, teve como objetivo delinear as contribuições dos exercícios miofuncionais durante a fase flácida da PFP.

Para tal, foram analisados 147 prontuários de pacientes portadores de PFP dividindo-os em 04 grupos, de acordo com a época do início da reabilitação miofuncional (RM): no primeiro os que iniciaram a RM até 30 dias da instalação da PFP, no segundo os que começaram a RM de 31 até 60 dias após a instalação da PFP, no terceiro os pacientes que iniciaram a RM de 61 até 90 dias após a instalação da PFP e no quarto os que iniciaram a RM após 91 dias da instalação da PFP.

Os autores concluiram que a RM revelou-se mais eficaz na recuperação do primeiro grupo de pacientes, que tiveram melhor resposta dos movimentos mímicos faciais após a reinervação na PFP do que aqueles que iniciaram o atendimento fonoaudiológico a partir de 30 dias após a instalação do quadro.

Em outra pesquisa na área da Fonoaudiologia de Tessitore e cols. (2009) foi avaliado a efetividade do uso de um protocolo para a reabilitação orofacial na PFP. O tonus muscular foi usado como marcador de resultados, sendo que a modificação do tonus ao longo dos atendimentos foi aferida mediante o ângulo da comissura labial (ACL).

Estudou-se 20 pacientes de ambos os sexos, na fase flácida da PFP de grau IV, segundo a classificação House & Brackman (grupo pesquisa/GP). Os atendimentos foram realizados uma vez por semana, durante um ano e, ao final do processo, os resultados das medições de ACL foram comparados com as do grupo controle (GC); composto por 09 pacientes já com sequelas da PFP igualmente de grau IV.

28 significativos na medição do ACL em relação ao GC. Assim, os pesquisadores sugerem que a criação de protocolos e marcadores de resultados clínicos, validados cientificamente, deve subsidiar as práticas fonoaudiológicas com essa população.

A bibliografia apresentada ilustra o predomínio de pesquisas focadas em medidas quantitativas para avaliar a efetividade dos procedimentos clínicos utilizados no atendimento dos portadores de PFP, com destaque para o período do início da reabilitação e peculiaridades do quadro clínico.

Contudo, vale ressaltar a articulação de dois critérios importantes para a avaliação desses processos terapêuticos: a regeneração neural não pode ser descartada como fator que contribui para a recuperação, visto que 95% dos casos de PFP tem bom prognóstico (BENTO, 1998). Porém, é inegável que a reabilitação miofuncional promove o favorecimento/otimização dos resultados físicos, o que contribui significativa e positivamente para os aspectos psíquicos e sociais.

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CAPÍTULO 2 – O ROSTO E SUA IMPORTÂNCIA HISTÓRICA E

CONTEMPORÂNEA

“Nosso rosto será o nosso mais atraente enigma pessoal.” (TRINTA, 1999, p. 120)

Esse capítulo tem o intuito de evidenciar a importância do rosto como objeto de estudo da interioridade do ser humano. Nesse sentido, a abordagem histórica e social evidencia o grande valor atribuído à face como marca subjetiva, mas sobretudo salienta o caráter devastador que uma ineficiência funcional da musculatura facial pode causar ao indivíduo.

Segundo Cureau de la Chambre (1659 apud COURTINE e HAROCHE, 1988), o rosto seduz mais sutilmente que as palavras. Assim, o autor afirma que não é apenas a voz e a língua que servem ao propósito de interpretar o pensamento do homem, mas também nele falam “a testa e os olhos” (CUREAU DE LA CHAMBRE, 1659 apud COURTINE e HAROCHE, 1988).

Nesse sentido, Maluf-Souza (2009), em estudo sobre a história do rosto, rememora que, entre os séculos XVI a XVIII, os manuais de retórica, as obras de fisiognomonia, os livros de civismo e da arte da conversação apontam o rosto como espaço da percepção de si. “Em todas essas obras o que se anunciava era a certeza de que o rosto fala, ou seja, que o sujeito exprime-se pelo rosto” (MALUF-SOUZA, 2009, p. 1).

Fisiognomonia, palavra orignária do grego (physis = “natureza” e gnomon = “conhecer”), é uma arte que permite a dedução de características subjetivas do indivíduo por meio da observação criteriosa dos traços fisionômicos (TRINTA, 1999). Como já dito anteriormente, o rosto denota uma comunicação não-verbal (FOUQUET, 2000) pois, devido a sua maleabilidade muscular, é possível deduzir os sentimentos de um indivíduo somente se atentando às feições do rosto (MALUF-SOUZA, 2009).

30 Por isso, a fisiognomonia, campo de estudo aperfeiçoado por Johann Kaspar Lavater no século XVIII (TRINTA, 1999), era uma ciência que buscava conhecer o caráter das pessoas por meio do semblante e traços fisionômicos. E propunha que a partir da análise das relações entre os movimentos aparentes do rosto poderia-se deduzir os pensamentos do sujeito (MALUF-SOUZA, 2009). Nessa direção, surge a famosa expressão de Cícero De Oratore “o rosto é a expressão da alma” (TRINTA, 1999).

Assim, a fisiognomonia sugeria uma interpretação judicial ao rosto, afirmando que ele revela o caráter (bom ou ruim) de um indivíduo (MALUF- SOUZA, 2009).

Na Idade Média, também com essa intenção judicial, a metoposcopia propunha-se como forma de ler a alma materializada no rosto, a partir do argumento de que os planetas imprimiam as marcas do destino de cada homem em sua face, cabendo à metoposcopia decifrar essa escrita poderosa, ligada a Deus, aos astros ou a natureza. (MALUF-SOUZA, 2009).

Voltando ao estudo da fisiognomonia, ela também foi utilizada por Aristóteles para designar o que definiu como uma “arte prática”, que permitia a dedução de caracteres espirituais dos indivíduos por meio da observação criteriosa dos traços evidentes de suas fisionomias (TRINTA, 1999).

No Renascimento, Leonardo da Vinci estudou a fisiognomonia com o intuito de descobrir se, por meio dela, poderia desvendar os mistérios mais íntimos do homem (TRINTA, 1999).

Outra área que se pautou no estudo da fisiognomonia no século XVIII foi a Medicina, considerada “como determinante, no corpo, das paixões da alma” (MALUF-SOUZA, 2009, p. 6).

Os desenhos do pintor francês Charles Le Brun, ilustram essas “paixões da alma” expressas pela fisionomia:

31 Um temperamento quente, por exemplo, torna a alma audaciosa e violenta e um frio a torna medrosa e pusilânime. A alma pode, então, modificar o corpo, pois o rosto é efeito das paixões que o espírito suscita, desenhando-lhe os traços, moldando-lhe a forma (LE BRUN, 1727 apud MALUF-SOUZA, 2009, p. 6).

Figura 1: Desenho de Charles Le Brun – Expressions des passions de l’Ame (1727) (Extraído da comunicação de MALUF-SOUZA, 2009)

Em síntese, a fisiognomonia se define, então, como a “ciência das paixões naturais da alma e dos acidentes do corpo” (COCLÈS, 1.504 apud COURTINE e HAROCHE, 1988).

Assim, considerando-se que “o rosto é a expressão da alma”, o indivíduo então:

[...] é visto por uma dualidade que o toma como visível e invisível, como interior e exterior. Mas, existe um laço entre sua interioridade oculta e sua exterioridade manifesta, ou seja, os movimentos das paixões, que habitam o interior do homem, se revelam na superfície de seu corpo.

32 Dessa forma, a fisiognomonia faz uma relação entre a alma e o corpo, entre o superficial e o profundo, o oculto e o manifesto, o moral e o físico, o conteúdo e o contido, a paixão e a carne, a causa e o efeito. Ou seja, o homem possui duas faces: uma visível e outra que escapa ao olhar, e é da última que se ocupa a fisiognomonia (MALUF-SOUZA, 2009, p. 7).

Nessa perspectiva, as técnicas de decifração da aparência humana defendiamque ela podia revelar as intenções de cada sujeito, incluindo os seus defeitos e qualidades. Assim, as partes do rosto, como olho, boca, nariz, por exemplo, serviam “[...] como uma espécie de mapa daquilo que hoje chamamos de subjetividade” (SANT’ANNA, 2004, p. 114).

Em paralelo aos estudos da fisiognomonia, a descrição do rosto nas obras de Gustave Flaubert, escritor francês e importante representante do romance realista, assinalava que o rosto era o “reflexo da alma” (TRINTA, 1999, p. 117), revelando ao leitor a situação social e moral de um personagem, assim como sua maior ou menor complexidade psíquica (TRINTA, 1999).

Voltando ao contexto histórico do rosto, também no século XVIII, surge a chamada “sociedade da máscara”, onde a vantagem política e o poder eram adquiridos a partir do que o sujeito aparentava ser, e não pelo que era realmente. (COURTINE e HAROCHE, 1988).

Maquiavel há séculos atrás havia previnido a sociedade de que: “Toda a gente vê bem o que pareces, mas bem poucos têm o sentimento do que tu és” (MACHIAVEL, 1516 apud COURTINE e HAROCHE, 1988).

Fazendo uma crítica a essa civilização, Rosseau afirmou que a origem do mal vem do olhar (ROSSEAU, 1750 apud COURTINE e HAROCHE, 1988).

Foi dessa maneira que o rosto perdeu-se, ficando condensado sob máscara por meio do olhar público (COURTINE e HAROCHE, 1988). “As aparências tornaram-se opacas, as virtudes enganosas; as qualidades

33 desvaneceram-se e os vícios dissimularam-se. Cada indivíduo se tornou outro, estranho a si mesmo” (COURTINE e HAROCHE, 1988, p. 195).

A denúncia de Rosseau de que a sociedade da corte era dominada pela máscara teve consequências consideráveis quanto à formação do sentimento e da consciência do eu do indivíduo moderno, aquele que demonstra seus sentimentos íntimos de maneira autêntica e sincera (COURTINE e HAROCHE, 1988).

No século XIX há o estabelecimento de novas proximidades do eu, feitas de escuta do homem singular e sensível. Ao mesmo tempo porém, o homem afastou-se de si mesmo quando passou a controlar seus sentimentos reais. Bichat (1801 apud COURTINE e HAROCHE, 1988) complementa que o indivíduo sente e experimenta essa separação sob a forma de “conflito entre os movimentos “simpáticos” e os movimentos “voluntários”, uma luta das vísceras e do cérebro, um corpo a corpo entre paixões e vontade” (COURTINE e HAROCHE, 1988, p. 219).

Há pois dois pólos essenciais na expressividade individual, dois limites expressivos no espaço dos quais as representações e as práticas do rosto adquirem todo o seu sentido. Por um lado, o de uma expressividade súbita, brutal, incontrolada, quando o rosto manifesta que o indivíduo está fora de si mesmo; por outro, o da impassibilidade de um rosto impenetrável. Trata-se evidentemente de duas possibilidades extremas que se podem encarnar em figuras opostas: as da paixão, do arrebatamento, da privação da posse do eu, da “perturbação” de que falava Courtin; e, pelo contrário, as da temperança, da moderação, do comedimento e da posse do eu (COURTINE e HAROCHE, 1988, p. 226).

Nestas figuras opostas há uma necessidade psíquica que subentende as possibilidades expressivas. Assim, a história do rosto contribui para pensar a

34 historicidade de estruturas fundamentais da personalidade moderna, como a histeria e a obsessão (COURTINE e HAROCHE, 1988).

Passando para a atualidade, o recente trabalho do fotógrafo e videasta Arthur Omar, na obra Antropologia da face gloriosa, se empenha em captar “momentos de êxtase” indicativos de “uma ordem de existência” nas celebrações de Carnaval. “Tirar um retrato equivale a extrair um rosto. Um retrato é um “retraçado” da fisionomia, sua fixação numa pose ou sua fugidia mobilidade num instantâneo. (…) São faces gloriosas, movendo-se, em transe e êxtase, entre o entusiasmo e o recolhimento, a comoção e o delírio, a verdade e a mentira, o sagrado e o profano. A arte trans-figura rostos maquiados” (TRINTA, 1999, p. 118).

No campo da cosmética, constata-se um aumento significativo na oferta de produtos que garantem o rejuvenescimento facial, por meio do apagamento de traços que acompanhavam o indivíduo durante anos (TRINTA, 1999). As exigências contemporâneas de rostos cada vez mais harmônicos e esteticamente padronizados, promove a intensificação das cirurgias plásticas faciais, visando um ideal de beleza (TRINTA, 1999).

Vale ressaltar que essa exigência de adequações estéticas é muito maior em relação ao rosto feminino, pois o rosto masculino, sempre mais “forte” ou mais “incisivo” em seu modo próprio de comunicar, é menos “sorridente”, “luminoso” ou “sedutor”, denotando menor expressividade facial (TRINTA, 1999, p. 118).

Com relação aos procedimentos cirúrgicos estéticos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)3, nos últimos cinco anos cresceu de 5% para 30% o número de homens que buscam cirurgias plásticas. E pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística

3 Extraído do site: http://www2.cirurgiaplastica.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=248:busca-por-

35 (IBOPE) aponta que das 650 mil cirurgias feitas no ano de 2009, 119 mil foram em homens.

"O mundo competitivo, a mídia impondo padrões e a busca da autoestima são os principais fatores que fazem homens realizarem cirurgias", disse o presidente da (SBCP) Sebastião Nelson Edy Guerra (2010).

Outra pesquisa, encomendada pela International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS)4, indica que o número de procedimentos não cirúrgicos estéticos aumentou em relação aos procedimentos cirúrgicos estéticos no ano de 2009, devido as inovações na cosmética e a busca de tratamento menos onerosos.

Os principais procedimentos não cirúrgicos estéticos são: injeções de neuromoduladores e toxinas (Botox, Dysport) (32,7%), injeções de ácido hialurônico (20,1%), remoção de pelos com a utilização de raios laser (13,1%), injeções de gordura autóloga; isto é, retirada da gordura de uma parte do corpo do paciente e transferência para outra parte do corpo do mesmo paciente (5,9%) e tratamento de luz pulsada intensa (4,4%).

A porcentagem ainda é mais significativa em pesquisa da SBCP encomendada pelo Instituto de Pesquisa DATAFOLHA. O objetivo foi caracterizar por meio de análise estatística a situação de procedimentos cirúrgicos estéticos, procedimentos cirúrgicos reparadores e procedimentos não cirúrgicos estéticos realizados no Brasil, do segundo semestre de 2007 ao de 2008.

Os resultados mostraram que os procedimentos cirúrgicos estéticos são utilizados em 73% dos casos, enquanto que os procedimentos cirúrgicos reparadores atingem 27%. Portanto, a média de procedimentos cirúrgicos estéticos realizados é quase três vezes maior (132 por ano) em relação às cirurgias reparadoras (58 por ano).

Com relação ao quadro comparativo dos procedimentos cirúrgicos

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36 estéticos e procedimentos não cirúrgicos estéticos, chegou-se a um resultado diferente da pesquisa do ISAPS referida acima. Na pesquisa da SBCP a maioria dos procedimentos é de caráter cirúrgico (86%) e os procedimentos não cirúrgicos estéticos atingem 14%, sendo que os mais realizados foram o preenchimento (92%) e a aplicação de toxina botulínica (91%).

Nesse contexto, é importante ressaltar que o Brasil está entre os cinco primeiros países que mais realizam procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos no mundo (ISAPS, 2009).

Reportagem realizada pelo Correio do Estado (Campo Grande/MS)5 evidenciou que os brasileiros estão entre os sujeitos mais vaidosos do mundo, o que se deve pelo fato de se tratar de um país tropical, onde ocorre maior exposição do corpo, com primazia da valorização da estética corporal.

No artigo de Poli Neto e Caponi (2007), o objetivo foi analisar o discurso médico em estudos publicados nas principais revistas de cirurgia plástica estética e relacioná-lo à idéia de medicalização, no sentido de incorporação de um novo tema pela racionalidade biomédica, que significa a organização de uma nova nosologia médica, a criação de padrões de normalidade e a legitimação da intervenção médica terapêutica.

Os pesquisadores encontraram uma mesma lógica nos artigos públicados: a denoninada “patologia da beleza”. Nos artigos pesquisados as alterações anatômicas que surgem ao longo do tempo e do envelhecimento facial, aparecem como estruturas responsáveis pela aparência externa indesejável e a base da beleza facial é simetria, equilíbrio e proporção.

Afirmação que exemplifica essa denominação é encontrada na publicação de Dayan e Clark (2004) destacada pelos autores:

Parece que determinadas características faciais, como simetria, juventude, e averageness, são universalmente aceitas como favoráveis.

5 Extraído do site: http://www2.cirurgiaplastica.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=93:brasileiras-

37 Biólogos evolucionários argumentam que determinadas características faciais são sinais físicos que indicam saúde e adaptação, que leva a uma vantagem seletiva para encontrar parceiros e na propagação da espécie. Indivíduos com essas características (...) provavelmente manejam as forças da seleção natural mais favoravelmente. Biólogos evolucionários também apontam modelos animais para demonstrar que simetria e características medianas são comumente encontradas nas espécies melhor adaptadas (DAYAN e CLARK, 2004, p. 304).

No exemplo acima, trata-se de justificar uma “medicina da beleza” com base em uma necessidade essencial ou natural: a de que há características nos seres humanos que são valorizadas em todas as culturas, e que seriam uma herança da luta pela sobrevivência e pela reprodução. Porém, normas sociais de beleza, ou seja, a influência ou a determinação da cultura na valorização da aparência física, raramente, são abordadas nesses artigos (POLI NETO e CAPONI, 2007).

Da mesma forma, alguns artigos trazem os resultados de satisfação ou de benefícios daqueles que se submeteram às intervenções sem levar em conta essas normas sociais, como se os resultados não dependessem de uma necessidade previamente criada, muitas vezes pela própria tecnicização. Como apontaram Dayan e Clark (2004):

As primeiras impressões estão muito baseadas nas características faciais, e a psicologia tem nos ensinado que um indivíduo mais atraente tem mais chance de receber um melhor julgamento e tratamento. Nós apresentamos evidências de que aqueles que se submetem à cirurgia plástica facial melhoram sua primeira impressão com base somente na sua aparência fotográfica (DAYAN e CLARK, 2004, p. 306).

38 de envelhecimento é inevitável, em algum grau, com as assimetrias e o escurecimento da pele que ocorrem com o passar dos anos. Dessa forma, quando se leva em conta as normas sociais que influenciam ou determinam padrões de beleza e se experiencia a diferença entre um ideal de beleza e a imagem do próprio corpo, pode ocorrer a gênese da baixa autoestima, do mal- estar e do sofrimento psíquico (POLI NETO e CAPONI, 2007). Vale ressaltar que esse aspecto está particularmente associado ao acometimento pela PFP.

Especificamente em relação a normas de beleza, Costa (2004) detaca que a imagem corporal substituiu os sentimentos. Sendo assim, para um sujeito que supervaloriza a aparência a sensação de defeito corporal leva ao sofrimento psíquico. Diz ele:

Hoje, é na “exterioridade” do corpo, no semblante da esfera corporal egóica, que o abjeto e o refratário ameaçam irromper. É neste novo lugar, o lugar das rugas; manchas; estrias; flacidez; barrigas; obesidade; textura indesejável da pele, tensão muscular; conformação óssea viciosa; “pneus”; pelos e cabelos a mais ou a menos etc., que o abjeto e o recalcitrante são exaustiva e implacavelmente vigiados, esquadrinhados e temidos de maneira fóbica, obsessiva, histérica ou persecutória (COSTA, 2004, p.78-79).

Nesse sentido, os pesquisadores chegam à conclusão de que a hipervalorização da beleza reforça a relação entre felicidade/satisfação e um corpo belo, porém o que a “medicina da beleza” não explica é por qual motivo as pessoas buscam a felicidade por meio do corpo. Os autores acreditam então que, as normas ditadas pela sociedade – principalmente pelos veículos de massa – são as responsáveis por essa incessante busca pela beleza. (POLI NETO e CAPONI, 2007).

Assim, no cenário contemporâneo de verdadeiro culto às aparências, vale refletir sobre como é visto e como se sente o sujeito acometido pela PFP,

39 admitindo-se que as linhas do rosto são tomadas como signos e, portanto, a fisionomia humana constitui-se numa espécie de escrita da personalidade do indivíduo (TRINTA, 1999).

Nas palavras do autor:

Traços facilmente observáveis de uma fisionomia sublinham a diferença, dão contornos precisos à identidade, circunscrevem com rigor uma particularidade. Em seu conjunto, acentuam a presença formal da pessoa, imprimindo a personalidade no rosto, quer ela provenha do caráter adquirido, quer da experiência social suposta. O envoltório do corpo, pela superfície privilegiada que o rosto constitui, tornaria disponível à visão exterior a conformação da mente, as predisposições do caráter e a vida do espírito (TRINTA, 1999, p. 120).

Considerando essa interpretação subjetiva endereçada ao rosto, destaca-se o impacto psicossocial causado pela PFP, que inibe de maneira drástica a expressão facial e em consequência disso, impossibilita que o sujeito