• Sonuç bulunamadı

uma clara exposição quanto à sua concepção do homem, demonstrando que este fora formado do pó da terra, e, portanto, ele é um jardim de delícias para o Senhor.

No princípio, Deus, formando o homem da lama da terra, instalou-o no Paraíso de delícias, que implantara no Oriente, não só para que o guardasse e cultivasse (Gn II,15), mas também para que fosse um jardim de delícias mesmo para seu Senhor. Assim como o Paraíso era a parte mais amena do mundo, também o homem era a mais delicada das criaturas. O Paraíso foi posto no Oriente; o homem era feito à imagem daquele que existe desde o início dos dias da eternidade [...] no homem foram reunidos todos os elementos materiais e todas as formas e seus graus, para exprimir toda a arte da divina Sabedoria (COMENIUS,

1997, pp. 21,22).

Um dos focos da Didática magna refere-se à antropologia, talvez por esta razão, é que muitos estudiosos têm preconizado que a antropologia é o coração da filosofia de Comenius (KAVKÁ, 1992, p. 247). O próprio Comenius indica que o homem parece ser a tônica da Didática, pois reserva pelo menos seis capítulos para discorrer a respeito do ser humano, afirmando que ele é um microcosmo, isto é, “a síntese do universo, que em si encerra implicitamente todas as coisas que se vêem esparsas por todo o macrocosmo” (COMENIUS, 1997, p. 59).

Na visão comeniana, conforme visto, o homem é compreendido como um micromundo (COMENIUS, 1997, p. 59), mas, distinto das demais criaturas, pois possui características específicas, como ser criado para ser “imagem e semelhança de Deus”.

Uma das características que distingue o homem dos demais animais, na concepção comeniana, refere-se ao modo como o homem foi criado. Para Comenius, desde a criação do homem, este apresenta características distintivas em relação às outras criaturas de Deus, ou seja, a essência, a vida, o sentido, a razão. Por essa razão, afirma que o homem é a mais elevada, perfeita e excelsa das criaturas e que o próprio Deus veio em forma humana, sendo esta uma maneira de enaltecer o gênero humano.

Destinei-te a compartilhar comigo a eternidade; para ti criei o Céu e a Terra e tudo o que contêm; em ti somente reuni todas as naturezas, que são distintas nas outras criaturas, a essência, a vida, o sentido e a razão. Fiz-te soberano das obras de minhas mãos, tudo pus aos teus pés, ovelhas e bois, animais da terra, pássaros do ar, peixes do mar: por esse motivo te coroei de glória e honra (Salmo 8). Finalmente, para que

nada te faltasse, dei-te a mim mesmo em união hipostática, jungindo para a eternidade a minha natureza com a tua: sorte que não coube a nenhuma das outras criaturas, visíveis ou invisíveis. Que outra criatura, no Céu e na Terra, pode ufanar-se de que Deus manifestado na carne

apareceu aos Anjos? (1 Tm 2.16) [...] Entende, pois, que és o termo

absoluto, a síntese admirável, o Deus que representa minhas obras, a coroa da minha glória (COMENIUS, 1997, pp. 41, 42).

À luz dessas palavras, pode-se compreender que, para Comenius, o homem é a mais importante das criaturas de Deus. Isto porque a sua criação foi de forma totalmente distinta das outras criaturas, de maneira que ele é a coroa da criação e representante das obras de Deus, um ser racional, que traz consigo o privilégio de ufanar-se de Deus haver se encarnado como homem, conforme declaração do texto bíblico do evangelho de João capítulo 1.14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”.

Há, ainda, outra característica do homem, na concepção de Comenius, que o distingue das demais criaturas de Deus: a aptidão inerente para entender as coisas através da mente. Deus não somente o criou de forma distinta dos outros seres, mas também o dotou de características que o torna enaltecido.

Essa característic a é ensinada na Didática da seguinte maneira. Para autor da Didática o homem nasceu com a capacidade de adquirir a ciência das coisas, isto é, com disposição para aprender as diversas formas do conhecimento. Isto ocorre pois o homem é a imagem e semelhança de Deus.

Todo homem nasceu com capacidade de adquirir a ciência das coisas, antes de mais nada porque é imagem de Deus. De fato, a imagem, se acurada, representa necessariamente as feições do arquétipo, ou não seria imagem. Portanto, uma vez que entre as outras propriedades de Deus sobressai a onisciência, necessariamente algo semelhante resplenderá no homem (COMENIUS, 1997, p. 58).

Na continuação de seu argumento, Comenius preconiza que a forma de chegarmos ao conhecimento é por meio de uma mente lúcida, visto que ela é semelhante a um espelho, que recebe as imagens de todas as coisas, não só as que estão próximas, mas também, aproxima as imagens que estão distantes de si.

Na verdade nossa mente não apreende só as coisas próximas, mas também aproxima de si as distantes (em lugar e tempo), alça-se às mais difíceis, indaga as ocultas, descobre as veladas, esforça-se por investigar também as imperscrutáveis; é algo infinito e sem limites. Se fossem concedidos ao homem mil anos, durante os quais, adquirindo sempre novos conhecimentos, ele passasse de um conhecimento a outros, ainda asssim teria novos objetos para conhecer, tal é a inexaurível capacidade da mente humana, que no conhecimento é como um abismo. Nosso pequeno corpo é circunscrito por limites muito exíguos: a voz pouco alcança, a visão só circunscreve a altura do céu, mas à mente não se pode impor limite algum, nem no céu nem além do céu; ela ascende além dos céus dos céus assim como desce ao abismo dos abismos, ela seria capaz de penetrá-los com incrível velocidade. E queremos negar que tudo lhe seja acessível? Queremos negar que ela seja capaz de tudo conter? (COMENIUS, 1997, p. 59).

Comenius parece argumentar que a mente humana já possui a semente do conhecimento, de forma que o homem nada recebe do exterior, mas que a semente do conhecimento parte de dentro para fora (COMENIUS, 1997, p. 59), como sugeria a filosofia socrática no método da maiêutica. De modo semelhante, Comenius afirmará:

1) Princípios filosóficos – Na argumentação de que a mente humana já possui a semente do conhecimento, Comenius recorre ao pressuposto de Pitágoras. Pitágoras, segundo Comenius, afirmava que qualquer criança de sete anos, sendo interrogada convenientemente sobre qualquer problema filosófico, estaria em condições de responder com segurança a tudo (COMENIUS, 1997, p. 60).

Sendo assim, Comenius parece indicar que o conhecimento é inato ao homem, pois “no homem é inerente o desejo de saber[...]”(COMENIUS, 1997, p . 60). Ao mesmo tempo, não se pode esquecer de que Comenius, ao ser influenciado por Bacon, enfatizava a importância dos sentidos, mas não com o pressuposto de que eles fossem a única forma de chegarmos às diversas formas do conhecimento, pois, para ele, os sentidos são como acessórios.

O próprio Comenius (1997, p. 60) preconizará que os sentidos são acréscimos ou acessórios à alma racional que cooperam para o alcance do conhecimento:

Ademais, à alma racional que temos em nós foram acrescentados órgãos, que servem de emissários ou observadores; são elas a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato, e por seu intermédio ela chega a todos os objetos externos, para que nada possa ficar oculto. Como no mundo sensível nada existe que não possa ser visto, ouvido, cheirado, degustado ou apalpado e cujas essências e qualidade não possam ser conhecidas, segue -se que nada há no mundo que um homem dotado de sentidos e razão não possa compreender.

Na concepção de Comenius, Deus, ao criar o mundo e tudo o que existe, e ao dotar o homem de uma mente, objetivou prover alimento não só para o corpo, mas também para a mente humana (COMENIUS, 1997, p. 50) a fim de que esta tivesse a oportunidade de adquir as diferentes formas do conhecimento, resultando no inerente desejo humano pelo saber.

No homem é inerente o desejo de saber e também de enfrentar (e não apenas de suportar) os esforços que isso implica. Tal já ocorre na primeira infância e nos acompanha por toda a vida. Quem não deseja escutar, ver, fazer sempre algo de novo? A quem não agrada ir todo dia a um lugar qualquer, conversar com alguém, fazer perguntas ou contar coisas? Assim é que: os olhos, os ouvidos, o tato e a própria mente, buscando sempre alimento, estão sempre sendo levados para fora de si, e para a natureza vivaz nada é mais intolerável que o ócio e a preguiça. E além disso, para maior prova disso, por que os indoutos admiram os doutos, senão porque sentem os agradáveis atrativos de um desejo natural e também gostariam de ser partícipes, se possível? Mas como não têm espernaça, anseiam e admiram os que consideram superiores (COMENIUS, 1997, p. 60).

Neste mesmo contexto, Comenius (1997, p. 62) afirmará que a mente humana é infinita e que quanto maior a diversidade do conhecimento, mais agradável será a vida humana:

[...] quanto maior a variedade, mais agradável é o espetáculo para os olhos, mais suave o perfume para as narinas, maior o consolo para o coração. Aristóteles comparou o espírito do homem a uma tábua rasa na qual nada está escrito, mas onde tudo pode ser escrito [...] e há uma diferença, pois numa tábua só é possível traçar linhas até onde as margens o permitam, enquanto na mente nunca se encontrarão limites, ainda que se escreva ou grave o tempo todo, porquanto, como já foi dito, ela não tem limites.

2) Os autodidatas - Outra forma de argumentar a favor do conhecimento como inato são os exemplos dos autodidatas, que, na concepção de Comenius (1997, p. 61), jamais necessitaram de preceptores, mestres ou professores, mas aprenderam com os carvalhos, passeando pelos bosques e meditando.

Os exemplos do autodidatas mostram com muita clareza que o homem, com a orientação da natureza, tudo pode alcançar[...] alguns[...] tendo como professores os carvalhos e as faias (ou seja, passeando pelos bosques e meditando), aprenderam mais que outros através do laborioso ensino dos preceptores. Isso não nos ensina que tudo realmente está no homem? [...] São inatas em nós as sementes de todas as artes, e Deus, nosso mestre, extrai engenhos do oculto.

É na mente, portanto, que estão todas as capacidades e condições necessárias ao homem para alcançar o verdadeiro conhecimento, e ela só exerce essa função porque o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Presume-se, assim, que Comenius não nos proporciona uma visão puramente antropocêntrica, como alguém poderia objetar, mas teológica, visto que, se o homem é tão exaltado, deve-se ao fato de ter sido criado com a atenção singular do Criador. Portanto, para Comenius, o homem é enaltecido não por suas próprias forças ou méritos, mas porque Deus enalteceu-o no ato da sua criação.

Percebe-se ainda que, para Comenius, Deus não somente criou o homem com uma mente infinita, mas adicionou os órgãos do sentido que servem para ajudá-lo na questão do conhecimento. É por intermédio desses órgãos que a mente chega a todos os objetos externos, para que nada possa ficar oculto. Segue, assim, que “nada há no mundo que um homem dotado de sentidos e razão não possa compreender” (COMENIUS, 1997, p. 60).

Não obstante ser a nossa mente infinita e receber milhares e milhares de imagens, o impressionante é que a massa do nosso cérebro não é muito grande. Nisso, podemos notar, na compreensão de Comenius, a sabedoria e onipotência de Deus, visto que as informações adquiridas com a leitura e a experiência estão todas no cérebro.

[...] O que é essa imperscrutável sabedoria da onipotência de Deus? Salomão admira-se de que todos os rios desemboquem no oceano e, no entanto, não encham o mar (Eclesiastes 1.7); e quem não admirará o abismo de nossa memória, que engole tudo e tudo restitui, e não obstante nunca está vazio nem cheio? Por isso, em verdade nossa mente é maior que o mundo, do mesmo modo que o continente é necessariamente maior que o conteúdo (COMENIUS, 1997, p. 63).

Nas palavras de Comenius, observa-se que, para ele, o próprio cérebro humano foi criado por Deus e, com Sua sabedoria, o Criador fez com que o cérebro jamais fosse “completado”; antes, criou-o como uma espécie de abismo na questão do conhecimento. Somado ao cérebro, deparamo- nos com os olhos, comparados por Comenius, como a nossa alma. O olho é representante de nossa mente e não se cansa em ver, tampouco é obrigado a abrir-se, mas isso é seu processo natural, como a mente humana que é sequiosa por conhecer, está aberta para o conhecimento, deseja ardentemente explorar, compreender, é incansável (COMENIUS, 1997, pp. 63,64).

Todavia, à luz desse argumento, alguém poderia objetar quanto à razão pela qual algumas pessoas, aparentemente, não conseguem aprender as coisas. Responderia Comenius que a mente humana, por natureza, te m a semente do conhecimento, entretanto, devemos despertá- la para tal fim.

Na concepção comeniana, tudo realmente está no homem: “Estão lâmpada, candeeiro, óleo e pavio, e tudo o que é necessário: quem souber produzir a centelha, acolhê- la, acender a luz poderá ver – belíssimo espetáculo – os maravilhosos tesouros da divina sabedoria” (COMENIUS, 1997, p. 61).

Em outra parte de sua Didática, Comenius (1997, p. 62) afirma:

Aristóteles comparou o espírito do homem a uma tábua rasa na qual nada está escrito, mas onde tudo pode ser escrito. Então, assim, como numa tábua rasa o escritor pode escrever o que desejar e o pintor que não ignore a arte pode pintar o que quiser, também para quem não ignora a arte de ensinar é fácil gravar o que quiser na mente do homem. Se isso não ocorrer não será por culpa da tábua (mesmo que seja grosseira), mas por ignorância do escritor ou pintor.

Isso se deve ao fato de que a mente humana é como a terra e como a cera. Como a terra, pois ela está sempre disposta a receber todo tipo de semente e, “quanto maior a

variedade, mais agradável é o espetáculo para os olhos, mais suave o perfume para as narinas, maior o consolo para o coração” (COMENIUS, 1997, p. 62).

Portanto, na concepção de Comenius, a mente está sempre disposta a apreender as variedades do conhecimento, desde que seja arada e despertada. Quanto à cera, esta é comparada ao cérebro (COMENIUS, 1997, p62). A cera pode ser moldada e remoldada, da mesma forma que a mente, pode compreender, aprender e reaprender as diferentes formas de conhecimento, de modo que, se temos toda esta capacidade, e não aprendemos, o erro só pode estar no pintor (preceptor).

Comenius afirma que, depois do pecado, nossa mente ficou “obscurecida e involuída e não é capaz de expandir-se livremente; e aqueles a quem caberia a sua libertação estão inibindo-a cada vez mais” (COMENIUS, 1997, p. 60).

Com esse pressuposto, afirma que “no mesmo instante em que nascemos e somos reconhecidos, estamos já envolvidos em toda espécie de mal, de tal modo que parecemos quase sugar os erros com o leite da ama” (COMENIUS, 1997, p. 64).

Diante disto, pode-se indagar se a não-aprendizagem é proporcionada pelo preceptor ou pelo pecado do homem. Entretanto, a resposta de Comenius refere-se ao preceptor, visto que a sua função é despertar a mente dos discentes para o conhecimento: “[...] para quem não ignora a arte de ensinar é fácil gravar o que quiser na mente do homem. Se isso não ocorrer não será por culpa da tábua (mesmo que seja grosseira), mas por ignorância do escritor ou do pintor” (COMENIUS, 1997, p. 62).