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Na análise da Didática magna, um dos temas que traz dificuldades quanto ao pensamento de Comenius refere-se à sua concepção soteriológica.

Costa (2000, pp. 29-30), ao comentar em seu ensaio a respeito da Reforma Protestante, afirma que Comenius foi um pastor calvinista:

Creio ser desnecessário lembrar que o “Pai da Didática Moderna”, João Amós Comênio (1592-1670), o “Bacon da Pedagogia”, - ou, como também foi chamado, “o Galileu da educação” -, era um pastor calvinista, tendo como um dos princípios educacionais, “ensinar tudo a todos”, começando desde bem cedo, já que é mais difícil reeducar o homem na vida adulta.

Por outro lado, Lopes (2003, p. 152) chega a afirmar que Comenius foi pelagiano ou no máximo semi-pelagiano:

É claro, portanto, que Comenius, em sua concepção soteriológica, não concebe uma teologia calvinista, como talvez alguns desejariam. Comenius está mais próximo de uma concepção pelagianista ou semipleagianista, no máximo, visto que afirma que, em nós, foram

deixadas as “raízes” para o retorno ao Paraíso, e por extensão a Deus.

Comenius preconiza que o homem, sendo criatura excelsa de Deus, somente poderá encontrar realização plena de todas as suas capacidades intelectuais, racionais, morais quando for reconduzido ao estado primitivo e original, ou seja, ao Jardim do Éden, em harmonia com o Criador (COMENIUS, 1997, p. 57), de maneira que o homem deve o amor a Deus acima de todas as coisas.

Para que o homem cumpra esse objetivo final de sua vida, isto é, amor a Deus acima de todas as coisas, Deus estabeleceu três fundamentos principais: a sabedoria (instrução), as virtudes, a religião (moral e a piedade) (COMENIUS, 1997, p. 58).

Estes princípios são inseparáveis, pois o homem é, em seu todo, harmonia. De forma que corpo e alma agem semelhantes a um enorme relógio onde todas as engrenagens funcionam em conjunto (COMENIUS, 1997, p. 65).

O corpo possui, como primeiro móvel, o coração, fonte de vida e de ações, do qual os outros membros recebem movimento e a medida do movimento. O peso que imprime o movimento é o cérebro que atrai e retrai as outras rodas, que são os membros.

A alma, por sua vez, cuja roda principal, na concepção de Comenius, é a vontade, tem os pesos que a fazem pender para um lado ou para outro, que é a razão, a que, por sua vez, mede e determina o que deve acolher ou não.

Sendo assim, na junção do corpo e seu peso principal que é o cérebro, morada das reflexões e da alma, e a alma, que por sua vez, possui como peso a razão, a qual determina o que é bom e o que não é bom, ocorre o equilíbrio perfeito das virtudes, ou seja, equilíbrio conveniente entre ações e paixões, resultando no princípio de que “o homem nada mais é que harmonia!” (COMENIUS, 1997, p. 66).

Comenius indica que, havendo harmonia entre o corpo e a alma, isto é, equilíbrio entre as ações e as paixões, e Deus agindo com sua graça, tal junção resultará na compreensão de que os homens não poderão estar totalmente corrompidos pelo pecado, a ponto de não poderem ser reparados com meios oportunos: “Que ninguém, portanto, enquanto se procuram remédios para corrupção, nos oponha a corrupção, porque Deus, por obra do seu Espírito e com a intervenção de meios adequados, prepara-se para a fazer desaparecer” (COMENIUS, 1997, p. 68).

Diante do exposto, a concepção soteriológica comeniana, apesar de ser protestante, parece não contemplar a teologia calvinista, pois ele demonstra que o pecado enfraqueceu as forças internas, isto é, as sementes da ciência, da moral e da piedade, que são inerentes a todos os homens do homem, mas não as extinguiu, pois, por meio de pequeníssimos estímulos e de sábia orientação podem ser despertados (COMENIUS, 1997, p. 113).

Não se faz um mercúrio com qualquer madeira, dizem alguns; eu respondo que de qualquer homem se faz um homem, desde que não haja corrupção. Mas (replica outro) nossas forças internas foram enfraquecidas pelo pecado original. Respondo: mas não foram extintas (COMENIUS, 1997, p. 114).

Não é objetivo desta pesquisa estabelecer a apologia calvinista ou não de Comenius, mas é mister que se acene para o princípio de que a teologia calvinista afirma que o homem, após o pecado dos nossos primeiros pais, caiu totalmente, de forma que estamos totalmente corrompidos pelo pecado e mortos espiritualmente, de maneira que nada há de bom no homem e somente Deus, ao escolhê- lo gratuitamente para a salvação eterna, pode conceder- lhe vida, fazendo com que ele se volte para o Paraíso Celeste.

Com o mesmo pressuposto, Comenius (1997, p. 66) deseja demonstrar uma concepção soteriológica, diferente daquela apresentada pelos calvinistas:

[...] assim como um instrumento musical, construído pelas mãos de hábil artista quando se estraga ou não toca bem, não dizemos imediatamente que não pode mais ser usado (pode ser consertado e temperado), também no homem, por mais corrompido que esteja pelo

pecado, deve-se dizer que por virtude de Deus, com meios oportunos poderá ser reparado.

Nota-se que, para Comenius, o homem, por mais corrompido que esteja pelo pecado, pela virtude de Deus e com meios oportunos, pode ser reparado, permitindo preconizar que, em sua concepção, o homem não está morto espiritualmente e depravado em todas as suas faculdades mentais e espirituais, conforme afirmação dos calvinistas.

Pode-se ainda colaborar com a discussão até aqui demonstrada, citando as seguintes palavras de Comenius (1997, pp. 14, 15):

Sem dúvida a empresa é muito séria e, assim como deve por todos ser desejada, também deve ser ponderada pelo juízo de todos, e todos em conjunto devem leva-la adiante, pois ela diz respeito à salvação comum do gênero do humano [...] Por isso peço aos meus leitores, ou melhor, em nome da salvação do gênero humano, esconjuro todos os que melêem, em primeiro lugar, a que não qualifiquem de temeridade o haver alguém ousado não só tentar coisas grandiosas, mas sobretudo promete-las, visto que tudos isso é feito com um fim salutar.

Por outro lado, analisando outra afirmação de Comenius na mesma Didática magna, objeto da presente pesquisa, pode-se identificá- lo como calvinista:

Deve-se reconhecer que esse natural desejo de Deus, como bem supremo, foi corrompido pela queda do pecado original e precipitou-se em tal abismo que não tem mais condições de voltar à retidão apenas com as próprias forças; todavia, naqueles que Deus ilumina de novo com o Verbo e seu Espírito, esse desejo volta a ser tão aguçado que Davi clama, dirigndo-se a Deus: A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. Minha carne e meu coração desfalecem, mas Deus é a fortaleza do meu coração e a minha porção para sempre (Sl LXXIII, 25,26) (COMENIUS, 1997, pp. 67,68)

Na Didática magna de Comenius, preconizar se ele possuía ou não uma concepção calvinista quanto à soteriologia, trata-se de uma questão complexa, principalmente pelos anos que ele viveu em Herbon e Heidelberg, academias calvinistas, sofrendo, inclusive, influência de Alsted, seu mestre e amigo, cuja teologia parecia estar fundamentada em uma concepção calvinista quanto à soteriologia.

Torna-se ainda mais complexa a temática em discussão, se não houver equívoco na citação de Kulesza (1992, p. 87), a qual afirma que Comenius, em sua obra Clamores Eliae (Queixumes a Elias) teria nomeado Martinho Lutero e João Calvino entre os tiranos da humanidade, ao lado do papa.

Por isso é que não se pode ter certeza quanto à concepção soteriológica de Comenius na Didática magna, e ao que parece era esse o propósito de Comenius ao deixar registradas suas palavras (19997, p. 68):

Portanto, que ninguém, ao começarmos a expressar nosso parecer sobre os remédios para a degeneração, nos oponha precisamente a degneração [...] É coisa torpe e nefanda, sinal evidente de ingratidão, insistir na degeneração e esquecer a regeneração! E com esse pretexto aduzir o poder que tem sobre nós o velho Adão, sem experimentar o poder do novo Adão, Cristo!

Entretanto, pode-se ao menos compreender que, para Comenius, o importante era demonstrar que, no homem, o conhecimento é inerente, e que nele está toda a possibilidade quanto às diversas formas do conhecimento e que, ao invés de haver preocupação com a degeneração, a regeneração deveria ser enfatizada.

Seu pensamento fundamental, neste contexto, refere-se àquilo que é bom no ser humano. Verifica-se tal proposta na afirmação de Comenius (1997, p. 71):

Fique estabelecido que para o homem é mais natural e mais fácil tornar-se sábio, honesto e santo pela graça do Espírito Santo do que desse progresso ser impedido pela sobrevinda perversidade. Isso porque tudo volta facilmente à sua própria natureza [...] E é muito conhecida a sentença do poeta de Venosa: “Ninguém é tão selvagem que não possa melhorar, se der ouvidos, docilmente, aos ensinamentos”.

Na concepção de Comenius, se o aluno não aprende corretamente as coisas, mesmo estando no novo Adão (COMENIUS, 1997, pp. 68,69), portanto com todas as condições de aprender, o que falta é o despertar ou acender o pavio da inteligência por meios adequados, para que se busque o retorno à dignidade enaltecida do homem, corrompida após a queda dos primeiros pais; e esta é a função do docente e da escola.