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Já as cláusulas pétreas implícitas, aquelas não expressamente declaradas como tal mas que são inerentes aos princípios norteadores da Constituição e que, segundo NELSON SOUZA SAMPAIO, citado por CELSO RIBEIRO BASTOS29 estão caracterizadas em quatro categorias:

1ª) as relativas aos direitos fundamentais, os quais, por força do Título II, Capítulos I, II, III e IV, da Constituição, abrangeriam os Direitos Individuais e Coletivos, os Direitos Sociais, os Direitos de Nacionalidade e os Direitos Políticos;

2ª) as concernentes ao titular do poder constituinte; 3ª) as referentes ao titular do poder reformador;

4ª) as relativas ao processo da própria emenda ou revisão constitucional.

Além do elenco mencionado, o saudoso jurista30 informa, ainda, que se trata

de cláusula implícita proibitiva aquela que estabelece o órgão competente para modificação constitucional, ou seja, aquele titular do poder de reforma.

1.5.2 Revisão

Embora a doutrina brasileira utilize indiferentemente os termos reforma, revisão e emendas para se referir às alterações efetivadas nas Constituições, e com JOSÉ AFONSO DA SILVA, PINTO FERREIRA e MEIRELLES TEIXEIRA, entende- se que a expressão reforma se trata de gênero do qual são espécies a emenda e a revisão, com significados distintos.31

Desta forma, revisão há de ser entendida como uma alteração considerável mediante processo específico, mais lento e com maior grau de dificuldade de reforma com o fim precípuo de estabilidade do texto constitucional.

Para a grande maioria de constitucionalistas a Lei Fundamental de 1988 somente comporta revisão (comportou) na forma do capitulado no Art. 3º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que expressamente previu a possibilidade, o tempo e a forma de revisão permitida em seu texto. Assim, tem-se:

A revisão constitucional será realizada após cinco anos contados da promulgação da Constituição, pelo voto da maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional, em sessão unicameral.

1.5.3 Emendas

Por seu turno, a reforma constitucional na forma de emenda há de ser entendida como aquela em que os pontos a serem reformados não possuem grande 29 Celso Ribeiro Bastos. Curso de direito constitucional. 22.ed. São Paulo: Saraiva, 2001. P.38.

relevância no que tange a garantia da estabilidade constitucional, podendo ser efetivada por processos mais específicos e dificultosos que os previstos para a elaboração das leis ordinárias, porém menos que na elaboração da revisão constitucional.

Em arremate, se o texto constitucional já previu expressamente a única forma de revisão, todas as demais modificações somente poderão ser levadas a efeito mediante emendas, na forma do art. 60 do texto vigente, sem contudo abandonar a preocupação de que um excessivo número de emendas pode levar a uma revisão constitucional por via indireta.

1.5.4 Princípio de vedação ao retrocesso social

Por conseguinte resta a indagação:, os preceitos constantes no Título II – Dos direitos e garantias fundamentais, Capítulo II – Dos direitos sociais, deferidos aos trabalhadores, são passíveis de reforma, por via de emenda ?

E mais: quando o legislador constituinte limitou o poder de reforma, previsto no art. 60, utilizando a expressão “aos direitos e garantias individuais” teria a intenção de se referir aos “direitos e garantias fundamentais”?

De acordo com o entendimento esposado por CARLOS HENRIQUE BEZERRA LEITE32, o princípio ali contido comporta uma interpretação extensiva e sistemática da expressão.

31

José Afonso da Silva. Curso de direito constitucional, cit.,p.64.

Segundo o autor, é extensiva porque os direitos e garantias fundamentais previstos no Título II compreendem, entre outros, aqueles elencados no Capítulo I – Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, portanto protegidos contra o Poder Reformador.

Também entende que a interpretação há de ser sistemática uma vez que os direitos sociais individuais são intangíveis, pois que guardam conexão com o princípio da isonomia insculpido no caput do art. 5º da Lei Magna e que traduzem o espírito norteador da Assembléia Nacional Constituinte, conforme traduzido no Preâmbulo da Constituição de 1988:

“... instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias...”

Dessa forma, admitir que sejam passíveis de reforma os direitos elencados no Capítulo de Direitos e Deveres Individuais e Sociais, seria na visão defendida por JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO, citado por MARCUS ORIONE GONÇALVES CORREIA, uma “contra-revolução social ou evolução reacionária.”33 Dessa forma, pretende o autor informar que, em relação aos direitos sociais, assim entendidos como os direitos dos trabalhadores, direito à assistência, direito à

33

J.J.Gomes Canotilho apud Marcus Orione Gonçalves Correia, Direito Adquirido Social, in Revista do

Advogado,n. 80, p.50 e inserido na obra Curso de Direito da Seguridade Social .São Paulo: Saraiva, 2007.

educação, uma vez que atingido determinado grau de satisfação, passam a constituir, ao mesmo tempo, uma garantia institucional e um direito subjetivo.

São direitos conquistados por avanços da sociedade, não por dádivas estatais.

Assim, os direitos fundamentais, aí compreendidos os direitos sociais, incorporam o patrimônio jurídico de um povo, não podendo, portanto, serm destruídos, anulados ou reformados de forma a diminuir seu alcance, de forma a um retrocesso. Somente poderão se substituídos por outro princípio mais importante na potencialização desses direitos.

CAPÍTULO II

PROTEÇÃO E SEGURIDADE SOCIAL

A situação do empregado doméstico perante a previdência social, objeto principal do presente trabalho, não pode ser abordada sem ser levado a efeito um breve estudo sobre a seguridade social, uma vez que a proteção ao homem nos momentos de infortúnio, em que se busca ampará-lo e dar-lhe os meios necessários para uma subsistência com um mínimo de dignidade, passa invariavelmente pelo sistema de seguridade social, o qual, no ordenamento jurídico brasileiro, traduz-se como a mais importante forma de proteção do homem pelo Estado, e, portanto, merecedora desse capítulo.