a necessidade de sobrevivência do indivíduo dentro da sociedade, o trabalho doméstico foi sempre desprestigiado no âmbito trabalhista.
Inicialmente executado por escravos, o trabalho doméstico não evoluiu muito no transcurso do tempo. Dele tem-se notícia no feudalismo, com a existência dos servus rusticus e dos servus ministerialis ou famili a quem incumbia as tarefas domésticas.
Da mesma forma, no século VII, várias eram as pessoas dedicadas ao trabalho doméstico, podendo exemplificar com as aias, despenseiros, amas, amas- de-leite, amas-secas, cozinheiros, secretários, criados, damas de companhia.
Fazendo um apanhado histórico sobre o tema, SÉRGIO PINTO MARTINS 86 informa que a primeira lei que tratou dessa normatização do trabalho doméstico foi o Código Civil português, em 1867, que disciplinou de modo completo o contrato de trabalho doméstico. Posteriormente esse Diploma Legal português inspirou o Código Civil Germânico o qual tratava da locação de serviços e regulamentava o trabalho doméstico, impondo obrigações ao empregador em caso de doença do empregado.
No Brasil, o trabalho doméstico surge com os negros escravos que eram utilizados para fazer os trabalhos domésticos, principalmente as mulheres escravas, que cozinhavam e serviam como empregadas.
No interior dos casarões, adquiriam um status diferenciado, uma vez que mesmo na condição de escravas, gozavam do convívio familiar dos senhores e participavam da intimidade, principalmente, das senhoras e da criação – inclusive amamentação - de seus filhos, diferentemente dos demais negros que serviam nas lavouras.
Cumpre registrar, ainda,. que os serviços desempenhados pelas mulheres não se limitavam àqueles necessários ao funcionamento da casa, mas também eram obrigadas a se submeter às exigências sexuais de seus senhorios, sob pena de severos castigos.
Registre-se, ainda, que o sistema escravocrata, vigorou no Brasil por muito tempo, contrariamente às idéias abolicionistas que vingavam na Europa, somente sendo abolido em solo pátrio em 1888, embora não seja errônea a afirmativa de que, ainda hoje, registram-se casos desse tipo de trabalho no Brasil.
No que se refere ao trabalho doméstico no Brasil, estudo datado de 1993, sobre tal forma de trabalho na América Latina e Caribe, alguns dados foram encontrados e trazidos a esta análise, conforme a seguir.
Segundo noticiado abaixo, uma das primeiras fontes de registro de trabalho doméstico no Brasil, deu-se no Rio de Janeiro, no início do século XX, conforme quadro estatístico aqui publicado:87
87
Elsa M Chaney. e Mary Garcia Castro. Trabajadoras Del hogar em América Latina y el Caribe. Venexuela: Editora Nueva Sociedad, 1993. p.69.
Mujeres Trabajadoras según Ocupación, Rio de Janeiro, 1870-190688
(En Porcentajens)
1870 1872 1906
Libres Esclavas Libres Esclavas
Servicio domestico 61 90 68,5 91,6 76 Costura --- ---- 25,5 8,3 ---- Manufactura 31 9,1 ---- 19 Comercio 3 0,1 1,2 0,2 1 Profesional 2 ---- 1,8 ---- 3 Trabajo autónomo 2 ---- 2,8 --- 1 Agricultura --- 0,2 0,2 0,1 ---- Trabajos casuales 1 0,4 0,4 --- ---- Total 100 100 100 100 100 (N) (28.537) (14.347) (33.886) (14.672) (101,496)
Nota: los porcentajes no suman 100% debido a la aproximación efectuada
Fuente: Brasil, Directoria Geral de Estatística 1871, Mappas A-K, n.p.; 1873-76; 1-33; 1907, 174-317
Porém, somente no ano de 1830 que regulou-se, por escrito, a prestação de serviços feitos por brasileiros e estrangeiros, dentro ou fora do Império, incluindo nessa norma todo o tipo de trabalhador, inclusive os domésticos.
Através do Código de Posturas do Município de São Paulo de 1886, ficou então definido que qualquer pessoa que trabalhasse, mediante salário convencionado, teria direito de ter ocupação em serviços domésticos.
O Decreto-lei n. 3.078/41, tratou do empregado doméstico como sendo “...todos aqueles que, de qualquer profissão ou mister, mediante remuneração, prestem serviços em residências particulares ou a benefícios destas.”
88 Quando no quadro se refere à cidade do Rio de Janeiro, refere-se às paróquias urbanas que em 1870 eram
Sacramento, São José, Candelária, Santa Rita, Santo Antonio, Espírito Santo, Engenho Velho, São Cristóvão, Gloria, Lagoa; para 1906 também foram incluídos os bairros da Gávea, Engenho Novo, Santa Tereza, Gamboa, Andaray, Tijuca e Meyer.
Determinou, ainda, que o empregado deveria ser registrado perante a Secretaria de Polícia, que expedia uma caderneta para efeito de identificação, para a qual se exigia: a) prova de identidade; b) atestado de boa conduta renovados no decorrer de dois anos sob pena de caducidade da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), salvo se o empregado continuar a trabalhar para o mesmo empregador (§3º, §4º do art. 2º); c) atestado de vacina e saúde com firma reconhecida (art. 2º, §1º).
A quitação dos salários era feita na própria CTPS, que se constituía em instrumento hábil para a reclamação perante o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Outrossim, havia, ainda o direito a aviso prévio na rescisão de Contrato de Trabalho de prazo indeterminado, de 5 dias pelo empregador e 8 dias, pelo empregado.
Nessa mesma norma, era considerada justa causa para o rompimento do contrato, a doença que impedisse o empregado de trabalhar ou se o empregado saísse de casa a passeio ou a negócio, sem a licença do patrão, inclusive à noite. Deveria pagar multas pelo inadimplemento do contrato, que eram convertidas em prisão simples das partes, quando não houvesse o respectivo pagamento.
O contrato entre as partes recebia o nome de locação de serviços doméstico e poderia ser rescindido em caso de atentado à honra ou integridade física, mora salarial ou falta de cumprimento da obrigação do empregador de proporcionar-lhe ambiente higiênico, alimentação e habitação, tendo direito a indenização de oito dias.
A partir de 1923, através do Decreto n. 16.107, de 30/07 do mesmo ano, foi regulamentado os serviços dos domésticos, no âmbito do Distrito Federal, especificando quais eram esses trabalhadores, incluindo então: os cozinheiros, copeiros, arrumadores, lavadeiras, jardineiros, porteiros, serventes, ...
Em caso de ser dispensado do emprego, deveria apresentar sua Carteira de Identificação Profissional expedida pelo Gabinete de Identificação e Estatística à delegacia do respectivo distrito policial, no prazo de 48 horas, para dar baixa, sob pena de multa. Nela deveria conter a conduta e aptidão profissional do empregado, que era feito pelo empregador. A locação do serviço doméstico era conceituada de acordo com a atividade do locador ou locatário. Havendo maus antecedentes poderia seu pedido de emprego ser recusado, com base nas anotações contidas na Carteira Profissional (falta grave), inclusive se respondesse por processo criminal inafiançável.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943 expressamente excluiu o doméstico do seu âmbito de aplicação (art. 7º, a), apenas definindo o empregado doméstico. Destarte, esse trabalhador ficou sem proteção alguma mediante as leis trabalhistas, inclusive, a Lei n. 605, de 5/janeiro/1949, que dispõe sobre o repouso semanal remunerado, em sua alínea a do art. 5º, determinou que tais dispositivos não se aplicavam aos empregados domésticos, pois eram considerados de caráter geral, aqueles que prestam serviços de natureza não econômica a pessoa ou família, no âmbito residencial desta. Portanto, não possuíam esse direito.
Por força do disposto na Lei n. 2.757 de 1956, excluiu-se algumas atividades como porteiros, faxineiros, que antes eram classificadas como domésticas, conforme as disposições do art. 7º, alínea a da CLT, e art. 1º do Decreto nº 3.078/41.
Em 1973, com o Decreto n. 71.885, deferiu-se ao doméstico as férias de vinte dias por ano, os Benefícios da Previdência na qualidade de segurados obrigatórios e o dever do empregado apresentar ao empregador Carteira do Trabalho e Previdência Social.
Em 1984, a Lei n. 7.195, veio tratar da responsabilidade civil das agências de empregados domésticos, esclarecendo em seu art. 1º que “...as agências especializadas na indicação dos empregados domésticos são civilmente responsáveis pelos atos ilícitos cometidos por estes no desempenho de suas atividades.”
O art. 2º determinava, ainda, que “...no ato da contratação, a agência firmará um contrato com o empregador, obrigando-se a reparar qualquer dano que venha a ser praticado pelo empregado contratado, no período de um ano.”
Anote-se, ademais que, esse dispositivo legal foi extremamente positivo no sentido de transferir às agências a função de selecionar o doméstico, verificar informações do trabalhador em serviços anteriores, responsabilizando-se pelo empregado doméstico, de modo a demonstrar idoneidade possível.
Atualmente, o empregado doméstico encontra-se amparado no Texto Constitucional vigente, no Capítulo II, que trata dos Direitos Sociais, por força do parágrafo único do art. 7º do mencionado texto que determina:
São assegurados à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VIII,XV,XVII,XVIII,XIX, XXI e XXIV, bem como sua integração à Previdência Social.
No que tange à Previdência Social, o art. 4º da Lei n. 5.859/72 estabelecia que o empregado doméstico tinha garantido os benefícios e serviços da Lei Orgânica da Previdência Social, na qualidade de segurado obrigatório, devendo contribuir para o Sistema da Previdência e, no mesmo sentido a Lei n. 8.212/91, afirma, em seu art. 12, inciso II.
São segurados obrigatórios da Previdência Social, as seguintes pessoas físicas: II – como empregado doméstico: aquele que presta serviço de natureza contínua a pessoa ou família, no âmbito residencial desta, em atividades sem fins lucrativos.
Recentemente, com a edição da Lei n. 11324, de 19 de julho de 2006, alguns dispositivos legais , notadamente aqueles constantes da norma que regulamenta a profissão, foram alterados, sendo os principais:
Art. 4º. A Lei 5.859, de 11 de dezembro de 1972, que dispõe sobre a profissão de empregado doméstico, passa a vigorar com a seguinte redação:
...
“Art. 3º.O empregado doméstico terá direito a férias anuais remuneradas de 30 (trinta) dias com, pelo menos, 1/3 (um terço) a mais que o normal, após cada período de 12 (doze) meses de trabalho, prestado à mesma pessoa ou família”.
....
“Art. 4-A É vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa da empregada doméstica gestante desde a confirmação da gravidez até 5 (cinco) meses após o parto.”
Embora tratando-se de grande avanço, outros dispositivos não menos importantes foram vetados no Congresso, principalmente aqueles referentes a obrigatoriedade de recolhimento de depósitos fundiários para os empregados domésticos.