Vícios redibitórios podem ser conceituados, em linhas gerais, como vícios
ocultos da coisa vendida, que a tornam imprópria para o uso a que é destinada ou que
lhe reduzem o valor, de forma a que o comprador, se soubesse dos vícios, não a teria
querido ou, ao menos, não ofertaria o preço por ele despendido.
375O antigo Código português de Seabra de 1867 aplicava aos vícios redibitórios o
regime geral do erro. O Código português de 1966 não contém uma orientação geral
sobre o tema, mas, em determinadas hipóteses, como adverte José de Oliveira Ascensão,
373 GHESTIN, Jacques. Traité de Droit Civil – Les Obligations. Le Contrat. Paris: L.G.D.J, 1980, p. 285:
“La nullité pour vice du consentiment intervient lorsque les raisons qui ont empêché l’exécution du contrat existaient dès sa formation. La résolution, la garantie et la responsabilité contractuelle s’appliquent, en revanche, lorsque leur appartiion a été postérieure.” O próprio autor reconhece a dificuldade na prática em se precisar o campo limítrofe de divisão dos institutos. Como adverte, saber a distinção teórica é fundamental. Para ele, “la réalité concrète, cependant, rend parfois difficile cette distinction théorique fondamentale. C’est ainsi que, lorsque l’objet vendu est livre immédiatement, par exemple une voiture d’occasion, son inaptitude à répondre aux preoccupations de l’acheteur, sur lesquelles reposait l’accord des parties, donne lieu selon les circonstances et l’imagination des plaideurs, soit à une action en nullité pour erreur ou dol, soit à une action en garantie des vices cachês ou en résolution judiciarie, soit encore à une action en dommages-intérêts pour responsabilité pré-contractuelle (done délictuelle) ou contractuelle.
374 ASSIS, Araken de. Resolução do Contrato por Inadimplemento. 4. Ed. São Paulo: RT, 2004, p. 94. 375 ANDRADE, Manuel de. Teoria Geral da Relação Jurídica. 7. reimpressão. Coimbra: Almedina,
traz preceitos sobre vícios redibitórios com especificidades em relação ao regime geral
do erro, como, por exemplo, o art. 907.º, 1
376, que trata da venda de bens onerados.
Podemos dizer que o vício redibitório resulta de um dado objetivo resultante de
um defeito na coisa negociada que lhe diminui o valor ou interfere negativamente em
sua utilização. O erro, ao contrário, decorre de um dado subjetivo, consistente na
equivocada interpretação da realidade, levando-o a parte a contratar com base em
circunstâncias imaginadas porém não existentes.
A linha divisória entre os institutos é traçada por Humberto Theodoro Júnior ao
ensinar que
no caso do vício oculto, o agente, ao adquirir a coisa, não incorre em erro, visto que recebe exatamente aquilo que pretendia comprar. Apenas a coisa é que porta defeito oculto, que, por isso, não pôde ser antes percebido e que a deprecia ou a torna imprópria à sua utilização normal.377
O Superior Tribunal de Justiça distingue o vício redibitório do erro nestes
termos:
DIREITO CIVIL. VÍCIO DE CONSENTIMENTO (ERRO). VÍCIO REDIBITÓRIO. DISTINÇÃO. VENDA CONJUNTA DE COISAS. ART. 1.138 DO CC/16 (ART. 503 DO CC/02). INTERPRETAÇÃO. TEMPERAMENTO DA REGRA.
O equívoco inerente ao vício redibitório não se confunde com o erro substancial, vício de consentimento previsto na Parte Geral do Código Civil, tido como defeito dos atos negociais. O legislador tratou o vício redibitório de forma especial, projetando inclusive efeitos diferentes daqueles previstos para o erro substancial. O vício redibitório, da forma como sistematizado pelo CC/16, atinge a própria coisa, objetivamente considerada, e não a psique do agente. O erro substancial, por sua vez, alcança a vontade do contratante, operando subjetivamente em sua esfera mental.
O art. 1.138 do CC/1916, cuja redação foi integralmente mantida pelo art. 503 do CC/02, deve ser interpretado com temperamento, sempre tendo em vista a necessidade de se verificar o reflexo que o defeito verificado em uma ou mais coisas singulares tem no negócio envolvendo a venda de coisas compostas, coletivas ou de universalidades de fato.
Recurso especial a que se nega provimento.378
Consta do voto proferido pela Ministra Nancy Andrighi que
o vício redibitório, da forma como sistematizado pelo CC/16, cujas regras foram mantidas pelo CC/02, atinge a própria coisa, objetivamente considerada, e não a psique do agente. O erro substancial, por sua vez, alcança a vontade do contratante, operando subjetivamente em sua esfera
376 Art. 907.º. 1. O vendedor é obrigado a sanar a anulabilidade do contrato, mediante a expurgação dos
ônus ou limitações existentes.
377 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Comentários ao Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003,
vol. III, t. I, p. 38.
378 RESP 991317/MG, Relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJ: 03/12/2009, DP:
mental. (...) Seja como for, os institutos não se confundem. No vício redibitório o contrato é firmado tendo em vista um objeto com atributos que, de uma forma geral, todos confiam que ele contenha. Mas, contrariando a expectativa normal, a coisa apresenta um vício oculto a ela peculiar, uma característica defeituosa incomum às demais de sua espécie. Vale dizer, os vícios redibitórios não se relacionam com a percepção inicial do agente, mas com a presença de uma disfunção econômica ou de utilidade do objeto do negócio.