O negócio jurídico simulado também apresenta uma divergência entre a vontade
interna e a exteriorizada pelos declarantes. A divergência de vontades na simulação,
assim como na reserva mental, é intencional e querida pela parte. Para Nelson Nery
Júnior, o negócio simulado é
realizado por acordo de todos os contratantes em emitir declaração de vontade divorciada do que intimamente desejam, com a finalidade de enganar inocuamente (simulação inocente) ou em prejuízo da lei ou de terceiros (simulação fraudulenta ou ilícita).367
A doutrina portuguesa elenca como requisitos da simulação: “1) A divergência
bilateral; 2) O acordo entre declarante e declaratário para a produzir; 3) O intuito de
enganar terceiros.”
368A simulação caracteriza-se principalmente pelo acordo simulatório, ou seja, pela
compreensão e entendimento de ambas as partes em relação à discrepância entre o
contrato estipulado e o efetivamente pretendido. Esse entendimento deve
cronologicamente ser pré-existente ou, ao menos, coexistir em relação ao negócio
simulado.
369A simulação “só se configura quando a recíproca declaração das partes,
conscientemente, não corresponde à sua real intenção.”
370No erro, ao contrário do que
364 FERNANDES, Luis Carvalho. Teoria Geral do Direito Civil. Lisboa: Universidade Católica, 2010,
vol. II, p. 187.
365 ASCENSÃO, José de Oliveira. Teoria Geral do Direito Civil – Acções e Factos Jurídicos. Lisboa,
1992, vol. III, p. 242.
366 PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria Geral do Direito Civil. 3. ed. Coimbra: Coimbra Editora,
1988, p. 489.
367 NERY JÚNIOR, Nelson. Vícios do Ato Jurídico e Reserva Mental. São Paulo: RT, 1983, p. 46. 368 ASCENSÃO, José de Oliveira. Teoria Geral do Direito Civil – Acções e Factos Jurídicos. Lisboa,
1992, vol. III, p. 243.
369 CARINGELLA, Francesco; DE MARZO, Giuseppe. Manuale di Diritto Civile. Il Contratto. Milano:
Giuffrè, 2007, vol. III, p. 884.
370 As consequências da simulação incidem de forma diferente quando recaem entre as próprias partes do
negócio e quando recaem entre essas e terceiros. Perante as partes, “tem-se como inexistente o contrato aparente e como válido o negócio verdadeiro, desde que se disponha de provas para demonstrá-lo.” Em
se passa na simulação, não há o intuito de enganar terceiros e nem entendimento mútuo
entre as partes contratantes. O que há é uma divergência inconsciente entre a vontade
real e a vontade declarada pelo errante que, preenchidos os requisitos do art. 138, gera a
invalidade do contrato.
4.10. Erro e resolução por inadimplemento do contrato
Há a necessidade de se delinear com precisão o campo de aplicação do erro –
que enseja a propositura de ação anulatória – para àquele outro previsto para o
inadimplemento do contrato por uma das partes – na qual tem cabimento uma ação de
resolução do contrato.
O inadimplemento ocorrerá com a recusa ou a impossibilidade do devedor em
cumprir a obrigação surgida com a relação obrigacional pactuada entre as partes, desde
que superveniente ao surgimento do negócio jurídico. Segundo Marcos Jorge Catalan,
Não havendo mais a possibilidade de desempenho da prestação, pela inexistência física do objeto na obrigação de dar coisa certa por fato imputável ao devedor, ou ainda, pelo fato de este bem não mais pertencer à esfera de domínio do devedor, por ato por ele praticado; certo é que se estará diante do fenômeno do inadimplemento, posto que, em princípio, a obrigação não mais poderá ser entregue.371
Ruy Rosado de Aguiar classifica o inadimplemento do contrato, por ele
denominado incumprimento, como espécie de direito formativo extintivo
372. Distingue-
se da anulabilidade do contrato por erro em virtude de ter por pressuposto o fato
relação com terceiros, estes “não podem ser prejudicados pela falsidade do negócio aparente. Se este frauda direitos preexistentes, sua nulidade fará com que prevaleça a situação anterior, invalidando tudo o que simuladamente se arquitetou para lesar terceiros. Se, por outro lado, o terceiro de boa-fé adquiriu direitos supervenientes à simulação, negociando com a parte que detinha a aparente titularidade da situação jurídica, os autores da simulação não terão como opor-lhe o negócio dissimulado (art. 167, § 2º). Para esses terceiros de boa-fé, o que prevalece é a aparência, para eles invencível.” (THEODORO JÚNIOR, Humberto. Comentários ao Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003, vol. III, t. I, p. 476).
371 CATALAN, Marcos Jorge. Descuprimento Contratual – Modalidades, Consequências e Hipóteses de
Exclusão do Dever de Indenizar. Curitiba: Juruá, 2011, p. 169.
372 O autor entende que o direito formativo, conhecido na doutrina italiana como direito potestativo, é o
que tem como elemento a faculdade conferida a alguém para transformar um estado jurídico através de sua exclusiva manifestação de vontade. Uma das espécies desse direito é o direito formativo extintivo que tende a desfazer uma eficácia jurídica já produzida ou a própria relação jurídica, dos quais seriam exemplos a resolução dos contratos bilaterais por incumprimento, a resilição daqueles de execução continuada, o pedido de separação judicial ou de divórcio, o direito de pedir a decretação da anulação do ato ou a declaração de sua nulidade. (AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de. Extinção dos Contratos por