A questão referente à possibilidade do erro futuro e não somente do atual
conduzir à anulação do contrato é ainda bastante discutida na doutrina.
No Código civil português, grande parte dos autores, ressalvado o entendimento
de Durval Ferreira
462, afirma que o erro deve recair sobre a equivoca representação de
uma realidade presente no momento da formação do contrato. Como salienta João
Mendes,
se o caso consiste na falsa representação duma realidade futura, que se não chega a verificar – A compra x para doar a B, supondo que este casará, e este não vem a casar – este caso (chamado por vezes inexactamente error in
futurum) não é de erro mas de outra figura jurídica, que chamaremos com WINDSCHEID e o Prof. Manuel de Andrade, pressuposição
(Voraussetzung).463
O direito italiano também distingue o erro que recai sobre as circunstâncias
presentes à época da formação do contrato, da pressuposição, que recai sobre
circunstâncias futuras. Francesco Galgano e Enzo Roppo
464negam a possibilidade do
erro futuro ensejar a anulação do contrato. Para o primeiro, o erro
si deve trattare di falsa rappresentazione della realtà presente perché l’errore sulla realtà futura, ossia l’errore di previsione, non è errore in senso técnico e non dà luogo ad annullabilità del contratto, ma è semmai rilevante sotto altro aspetto e può dare luogo alla figura della presupposizione.465
462 FERREIRA, Durval. Erro Negocial. Objecto – Motivos – Base Negocial e Alteração de
Circunstâncias. 2. ed. Coimbra: Almedina, 1998, p. 15: “mas, quer por razões específicas de cada tipo de erro, como se realçará a quando do seu tratamento, quer por razões genéricas – psíquicas, volitivas e máxime, ‘jurídicas’, como no número seguinte se desenvolverá – o error in futurum, é e ‘deve’ ser, perfeitamente equiparável ao erro sobre as circunstâncias do presente ou do passado.”
463 MENDES, João. Teoria Geral do Direito Civil. Lisboa: AAFDL, 1979, vol. II, pp. 78-79.
464 ROPPO, Enzo. O Contrato. Coimbra: Almedina, 2009, p. 237: “Resulta daí a irrelevância do,
chamado erro de previsão, que incida sobre o desenrolar futuro de determinadas circunstâncias: por exemplo, Tizio adquire, a um preço superior ao actual no mercado, uma grande quantidade de cereais, na convicção de que a próxima colheita será má, que o preço daquela mercadoria subirá consideravelmente e que ele poderá, por isso, revender, com notáveis margens de lucro, a quantidade adquirida; se, contrariamente às suas (erróneas) previsões, a colheita for boa e o preço não subir, Tizio não poderá, certamente, pedir que a sua aquisição seja anulada por erro.”
465 GALGANO, Francesco. Commentario del Codice Civile Scialoja-Branca. Della Simulazione. Della
nullità del contrato. Dell’annullabilità del contratto. Roma: Soc. Ed. Del Foro Italiano, 1998, vol. IV, p. 277. O autor cita jurisprudência italiana no mesmo sentido de sua posição: “l’errore, sia di fatto che di diritto, è concepibile con riferimento a situazioni presenti e certe o almeno ritenute tali, non già con riferimento a situazioni future e meramente ipotetiche che, in quanto tali, non sono suscettibili di essere
A pressuposição, desenvolvida pela teoria tedesca de Windscheid
466, ligada ao
tempo em que a definição do negócio jurídico era vinculada à idéia de vontade, foi
erigida como fundamento do contrato e pode ser definida, em linhas gerais, como “a
circunstância ou estado de coisas que qualquer dos contraentes, ao realizar dado
negócio, teve como certo verificar-se no passado ou no presente ou vir a continuar a
verificar-se no futuro, quando de outro modo não teria contratado.”
467É uma circunstância externa que, sem ser prevista como condição do contrato,
constitui um pressuposto objetivo do mesmo. Geralmente, divide-se em: (i)
pressupostos objetivos gerais que são as condições de mercado e da vida social que
incidem sobre a economia e, (ii) pressupostos objetivos específicos que são as
circunstâncias particulares sobre as quais o vínculo contratual está subordinado. Dentre
os pressupostos objetivos específicos, Massimo Bianca fornece o exemplo de um
contrato de venda estipulado sobre o pressuposto de que o comprador obteve, ou é certo
que obterá, um determinado financiamento, sem que tal circunstância seja indicada
como uma condição do contrato.
468A teoria da pressuposição foi objeto de críticas por autores como Clóvis do
Couto e Silva
469, Mario Bessone
470e Pontes de Miranda
471, por entenderem que o que se
buscava era uma tutela jurídica em relação aos motivos, acabando por prejudicar a
segurança das relações jurídicas.
A distinção entre a pressuposição e o erro recai sobre um elemento sutil. Quando
a circunstância pressuposta pela parte para a realização do negócio jurídico pertencer ao
conosciute (possono essere soltanto supposte) e non suscettibili neanche, conseguentemente, di una errônea rappresentazione (Cass., 10 maggio 1985, n. 2915, Giur., agr. it., 1986, 285).”
466 WINDSCHEID, Bernardo. In: MENEZES CORDEIRO, Antonio Manuel Da Rocha e. Da Boa Fé no
Direito Civil. Coimbra: Almedina, 2001, p. 969: “quando alguém dá alguma coisa ou se obriga ou, também, efectua uma prestação sob a pressuposição de que algo seja, tenha sido ou venha a ser, ou, também, não seja, não tenha sido ou não venha a ser e a realidade não corresponda a esta pressuposição, ou deixe de lhe corresponder, então ele pode repetir ou reter ou recuperar em valor o que tenha dado, a obrigação assumida ou a atividade desenvolvida.”
467 ANDRADE, Manuel de. Teoria Geral da Relação Jurídica. 7. reimpressão. Coimbra: Almedina,
1987, vol. II, p. 405.
468 Para uma exposição mais detalhada da matéria no direito italiano, cf. BIANCA, Massimo C. Diritto
Civile. Il Contrato. Milano: Giuffrè, 1987, vol. III, p. 436; MESSINEO, Francesco. Contratto. Milano: Giuffré, 1961, pp. 52-53 e SACCO, Rodolfo. Il Contratto. 3. ed. Torino: UTET, 2004, t. I, pp. 542-545.
469 COUTO E SILVA, Clóvis do. A Teoria da Base do Negócio Jurídico. In: FRADERA, Véra Maria
Jacob de (Org.). O Direito Privado Brasileiro na Perspectiva de Clóvis do Couto e Silva. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1977, p. 91.
470 BESSONE, Mario. Adempimento e Rischio Contrattuale. 2 ed. Milano: Giuffrè, 1998, pp. 62/63. 471 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcante. Tratado de Direito Privado. 2. ed. Rio de Janeiro:
passado ou ao presente, será o caso de erro vício ou erro sobre os motivos.
472Diversamente,
se a circunstância ou situação de facto pressupostas pertencerem totalmente ao futuro e forem no presente inverificáveis, estaremos então num domínio de problemática muito vizinha do da clausula rebus sic stantibus, ou da chamada ‘superveniencia contratual’.473
O que nos parece importante ressaltar é que a pressuposição não é objeto
expresso de nenhuma estipulação entre as partes.
Se é consciente e expressa e foi declarada, temos porventura uma cláusula acessória, uma condição, como elemento do negócio. Se é apenas subconsciente e tácita, temos então a verdadeira e característica
pressuposição: a idéia da coisa estava pressuposta na mente e vontade do
declarante; subentendia-se. Como diz Windscheid, é uma ‘condição não
desenvolvida’.474
Parece-nos que a teoria do erro não pode excluir peremptoriamente a
possibilidade de sua invocação sobre as circunstâncias futuras desde que estas tenham
sido objeto de estipulação entre as partes. Não se pode deixar de sublinhar, entretanto,
que os riscos do negócio estão presentes em todos os contratos onerosos. Vem à lume
novamente o posicionamento de Humberto Theodoro Júnior, ao dizer que
o erro, por natureza, pressupõe a possibilidade do exato conhecimento da realidade, e, então, não pode incidir senão sobre o que já existe, ou já existiu e nunca sobre simples previsões ou expectativas de problemáticos resultados econômicos do negócio. Residem, fora, portanto, do âmbito do erro substancial, os equívocos de previsão econômica.475
Desta forma, o contrato não pode ser anulado apenas porque as expectativas
futuras criadas por uma das partes não foram atendidas.
476472 Cabral de Moncada ressalva que haverá erro sobre os motivos “mesmo que a dita circunstância ou
situação pertençam ao futuro, mas sendo já certa no presente a sua não verificação” (Lições de Direito
Civil – Parte Geral. 4. ed. Coimbra: Almedina, 1995, p. 704). Em sentido idêntico, Manuel de Andrade considera que “estaremos no domínio da pressuposição se a circunstância ou situação pressuposta se referir ao futuro; estaremos já na teoria do erro se tal acontecimento ou estado de coisas se referir ao presente ou ao passado. Porventura, teremos ainda erro se a mesma circunstância ou situação se referir ao futuro, mas já é certa no presente a sua não verificação.” (Teoria Geral da Relação Jurídica. 7. reimpressão. Coimbra: Almedina, 1987, vol. II, p. 405).
473 CABRAL DE MONCADA, Luis. Lições de Direito Civil – Parte Geral. 4. ed. Coimbra: Almedina,
1995, p. 705.
474 CABRAL DE MONCADA, Luis. Lições de Direito Civil – Parte Geral. 4. ed. Coimbra: Almedina,
1995, p. 704. O autor fornece os seguintes exemplos de pressuposição: “uma pessoa aluga uma janela duma casa em certa rua para ver passar um cortejo, mas acontece que por qualquer circunstância o cortejo não vem depois a passar ali. Uma pessoa adquire um estabelecimento de bebidas em certo sítio para vender ali vinho, mas acontece que a autoridade posteriormente proibe naquele sítio a venda de álccol.”
475 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Comentários ao Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003,
vol. III, t. I, p. 60.
476 GUGGENHEIM, Daniel. Le droit suisse des contrats – la conclusion des contrats. 2. ed. Genève: