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Distingue-se, aqui, a invalidade do negócio jurídico causado pelo erro das

circunstâncias que geram a revisão contratual, de acordo com as teorias a seguir

379 SIMÃO, José Fernando. Requisitos do erro como vício de consentimento no Código Civil. In:

DELGADO, Mário Luiz; ALVES, Jones Figueiredo. Questões Controvertidas – Parte Geral do Código

Civil. São Paulo: Método, vol. VI, p. 442: “Na hipótese de erro quanto ao objeto ou sobre a qualidade a ele essencial, in ipso corpore rei, a coisa é outra, diferente daquela que o declarante tinha em mente ao emitir a declaração, ou, ainda, falta-lhe uma qualidade importante. (...) O defeito é subjetivo, há uma falsa idéia da realidade. Em última análise, o comprador não queria comprar. No caso de vício redibitório, o negócio é ultimado tendo em vista um objeto com aquelas qualidades que todos esperam que possua,

comum a todos os objetos da mesma espécie. Porém, àquele objeto específico falta uma dessas qualidades, apresenta um defeito oculto, não comum aos demais objetos da espécie. Nesse caso, o comprador realmente queria comprar aquela coisa, mas há defeito no objeto, o defeito é objetivo. Não há disparidade entre a vontade e a declaração.”

380 O exemplo foi tirado da obra de Massimo Bianca (Diritto Civile. Il Contrato. Milano: Giuffrè, 1987,

seguintes: (i) a teoria da imprevisão, do sistema francês; (ii) a teoria da superveniente

onerosidade excessiva da prestação, do direito italiano e, (iii) a teoria da quebra da base

objetiva do negócio jurídico, do sistema alemão.

A teoria da imprevisão, denominada cláusula rebus sic stantibus, permite a

alteração do contrato, sobretudo o de trato sucessivo, mediante intervenção judicial,

quando as circunstâncias fáticas supervenientes se modificarem drasticamente, trazendo

para as partes um desequilíbrio contratual não previsto. Tem como pressupostos: (i) a

imprevisibilidade

381

; (ii) excepcionalidade da álea; (iii) desequilíbrio entre as

prestações.

A teoria da superveniente onerosidade excessiva, originária da doutrina italiana e

previstas nos artigos 1.467

382

e 1.468

383

, para os contratos de execução diferida e trato

sucessivo, exige “uma notável alteração entre as prestações, devido a acontecimentos

extraordinários e imprevisíveis, que modifiquem o valor de uma prestação em relação a

outra.”

384

Já a quebra da base objetiva do negócio jurídico pode ser entendida como “o

conjunto de circunstâncias cuja existência ou persistência pressupõe devidamente o

contrato, sabendo ou não os contratantes, pois, não sendo assim, não se alcançaria o fim

do contrato.”

385

A teoria da quebra da base objetiva do negócio jurídico possui requisitos mais

fluidos do que os impostos pelas outras teorias, sobretudo porque não se exige como

requisito que o fato seja imprevisível

386

. Karl Larenz fornece dois exemplos de quebra

381 Mário Júlio de Almeida Costa crítica o pressuposto da imprevisibilidade, dizendo que sua aplicação se

torna de difícil ocorrência no caso concreto (Direito das Obrigações. 9. ed. Coimbra: Almedina, 2001, p. 292): “O requisito da imprevisibilidade restringe a aplicação da teoria, deixando sem amparo situações que seriam merecedoras de tutela.”

382 Art. 1.467. Nei contratti a esecuzione continuata o periodica ovvero a esecuzione differita, se la

prestazione di una delle parti è divenuta eccessivamente onerosa per il verificarsi di avvenimenti straordinari e imprevedibili, la parte che deve tale prestazione può domandare la rizoluzione del contrato, com gli effeti stabiliti dall’articolo 1458.

383 Art. 1.468. Nell’ipotesi prevista dall’articolo precedente, se si trata de un contrato nel quale una sola

delle parte ha assunto obbligazioni, questa può chiedere una riduzione dela sua prestazione ovvero una modificazione nelle modalità di esecuzione, suficiente per ricondurla ad equità.

384 FRANTZ, Laura Coradini. Revisão dos Contratos – Elementos para sua Construção Dogmática. São

Paulo: Saraiva, 2007, p. 68.

385 LARENS, Karl. Base del Negocio Jurídico y Cumplimiento do Contrato. Trad. Carlos Fernandes

Rodriguez. Madrid: Editorial Revista de Derecho Privado, 1956, p. 37.

386 FRANTZ, Laura Coradini. Revisão dos Contratos – Elementos para sua Construção Dogmática. São

Paulo: Saraiva, 2007, p. 51: “A teoria da base objetiva facilita a revisão dos contratos por alteração das circunstâncias, visto que a imprevisibilidade do evento causador do desequilíbrio, elemento nem sempre de fácil comprovação na prática, não é exigido com toda a veemência como na teoria da imprevisão.”

da base objetiva do negócio, a saber, a destruição da relação de equivalência do negócio

jurídico originário e a impossibilidade de se alcançar o fim do contrato.

387

Enquanto o erro essencial sobre os motivos do contrato incide sobre uma

equivocada noção da realidade, a aplicação das teorias da imprevisão, da excessiva

onerosidade da prestação e da quebra da base objetiva do negócio, não deriva de uma

falsa noção da realidade do contrato, mas, sim, de uma modificação das circunstâncias

sobre as quais houve a decisão de contratar.

388

A aplicação das referidas teorias,

especialmente a da quebra da base objetiva do contrato, “admite a revisão judicial do

contrato, retomando sua economia inicial, abalada por circunstâncias não consideradas

pelas partes no momento da celebração.”

389

387 LARENZ, Karl. Derecho de Obligaciones. Madrid: Editorial Revista de Derecho Privado, 1958, v. I,

p. 266.

388 GUGGENHEIM, Daniel. Le droit suisse des contrats – la conclusion des contrats. 2. ed. Genève:

Georg Editeur, 1982, t. I, p. 157: “Ce qui distingue cette théorie de celle de l’erreur essentielle sur les motivs est que la persone dans l’erreur a une falsse representation de la réalité, alors qu’en matière d’imprévision comme son nom l’indique, il y a’bouleversement’ des données de base sur lesquelles était fondée la décision de contracter.”

389 FRANTZ, Laura Coradini. Revisão dos Contratos – Elementos para sua Construção Dogmática. São