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Kéyt (Yargılama) MeĢrebi

C. AraĢtırma Konusu ile Ġlgili ÇalıĢmalar

2.2. Doğu Türkistan Coğrafyasının Belirli Bölgelerinde Ġcra Edilen MeĢrepler

2.2.1.1. Kéyt (Yargılama) MeĢrebi

Com base em artigos publicados no jornal A República, em julho de 1956, em uma sessão específica na terceira página e todos sem autoria mencionada, é possível observar a fragilidade econômica que o Rio Grande do Norte se encontrava, como também observar os anseios e o pensamento vigente da elite local que criticava a situação do estado potiguar.

É válido assinalar que o jornal A República, fundado em 1889, pela iniciativa de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, representava os políticos que detinham o poder no período. Contudo, por tratar-se de um periódico formado por diversos indivíduos, encontramos vários artigos que criticam a gestão municipal e estadual vigente.

O artigo Produção e Pesquisas, por exemplo, recrimina de forma bastante direta a administração política do Rio Grande do Norte. De acordo com o texto, a administração se caracteriza como uma “administração apressada”, por realizar obras e ações sem possuir o devido conhecimento básico das condições geológicas, agronômicas, meteorológicas, como também das condições sociais do estado. “Ninguém poderá em nossos dias pensar em produção, quantitativa e qualitativamente, sem primeiro pensar nos meios de pesquisa que devem preceder a qualquer trabalho objetivando essa finalidade”48.

46 O prefeito Djalma Maranhão (1956-1959) também defendia a importância da produção do algodão para o Rio Grande do Norte. Um dos discursos mais lembrados de sua carreira política, já como Deputado Estadual, em 1959, é em defesa do algodão nordestino. Nele, Djalma Maranhão faz análise econômica do papel do algodão no Brasil, especialmente no Nordeste, denunciando a existência dos trustes internacionais, e apresenta o Projeto de Lei que defende o produtor nacional.

47 ARAÚJO, op. cit. p. 80.

Conforme o texto, essa pressa tem sido um dos principais motivos do atraso na solução de certos problemas recorrentes no estado, como a seca. Criticando o que ele chama de “método de empirismo rotineiro”, o texto sugere ao governador Dinarte Mariz a contratação de pesquisadores especializados para que seja feito, primeiramente, o levantamento de dados exatos e seguros para que só então quaisquer obras pudessem ser executadas.

Importante destacar que o problema das secas na região Nordeste do Brasil é considerado pela historiografia da ciência como um dos quadros que mais mobilizou cientistas, médicos e engenheiros. Isso porque a construção de açudes e de estradas de rodagem de terra demandou a presença de diversos especialistas para conduzir “estudos de hidrologia e climatologia, além de técnicas para a construção de barragens”49. Para a historiadora Marilda Nagamini, o problema das secas é responsável, em parte, pela criação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, em 1907, vinculado ao Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, e que tinha entre os seus objetivos o estudo científico

da estrutura geológica, mineralógica, meios e recursos minerais do território da República, tendo sobretudo em vista o aproveitamento dos recursos minerais e das águas superficiais e subterrâneas e a coleta de informações sobre a natureza geológica e fisiográfica do terreno que possam servir de base à organização de projetos de vias de comunicação e outras obras públicas, especialmente as de prevenção contra os efeitos das secas50.

Visando solucionar o problema das secas, também foi criada, em 1909, a Inspetoria Federal de Obras contra a Seca (IFOCS), formada por duas equipes, uma encarregada dos estudos ecológicos, econômicos e sociais, e outra dos aspectos técnicos. Em Natal, funcionou o 5º Distrito do órgão, que na década de 1950 já se chamava Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).

Apesar dos quase cinquenta anos de atuação no Rio Grande do Norte, o DNOCS, em 1956, ainda não possuía sede própria em Natal, funcionando em um “incômodo” casarão no bairro da Ribeira. Seu diretor, o engenheiro Carlos Cabral de Andrade, em reportagem ao jornal A República, relata a dificuldade em distribuir os setores técnicos e os equipamentos de laboratório, assim como grave problema no armazenamento de materiais para análise: “os

49 NAGAMINI, Marilda. 1889-1930: Ciência e Tecnologia nos processos de urbanização e industrialização. In: MOTOYAMA, Shozo. (Org.). Prelúdio para uma história - ciência e tecnologia no Brasil. São Paulo: Edusp/ Fapesp, 2004, p. 205.

equipamentos e veículos permanecem em depósitos emprestados ou alugados, dificultando a boa marcha dos trabalhos”51.

As dificuldades do órgão são, em parte, reflexos na mudança da política administrativa do mesmo. Seu objetivo, quando criado, além da construção de açudes, estradas e pontes, era também promover a pesquisa e estudos básicos da região. Sob a orientação do seu primeiro diretor, o engenheiro Miguel Arrojado, o IFOCS, em seus primeiros anos de funcionamento, promoveu, sobretudo, a pesquisa científica na região. Para tanto, foram contratados topógrafos, geólogos, engenheiros, botânicos, hidrólogos, sociólogos, entre outros especialistas para estudar e desvendar os “mistérios dos solos e clima da região”. Para Arrojado, os trabalhos realizados pelo IFOCS, deveriam ser conduzidos para permitir

[...] abranger, em conjunto, as condições diferentes das regiões flageladas, sob os seus vários aspectos, geográfico, climatérico, botânico, social e econômico, e assim poderá a inspetoria traçar o programa dos seus serviços apoiada em fatos de pura e real observação no terreno.

No entanto, o Governo Federal e os Governos Estaduais esperavam do órgão resultados imediatos e não concordavam com o alto custo das atividades de natureza científica. Com a mudança de orientação do IFOCS, Arrojado foi exonerado e os trabalhos de pesquisa científica reduzidos de maneira drástica, permanecendo em um plano secundário, visto que “a tônica era construir obras”52.

Tem-se notícia da existência de alguns laboratórios funcionando em departamentos públicos em Natal, como o Laboratório Distrital de Solo do 14º Distrito Rodoviário Federal ligado ao Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER). Instalado no bairro do Alecrim, sob a direção do engenheiro Malef Victório de Carvalho, o laboratório tinha como finalidade realizar a análise do solo e a escolha de materiais que seriam utilizados na pavimentação rodoviária, requisito preliminar nas obras da engenharia que aconteciam pelo interior do Estado.

Natal possuía um terceiro laboratório que, também, enfrentava problemas de funcionamento. O Laboratório de Produção Mineral, chamado também de Laboratório de

Análise de Minérios, filiado ao Departamento Nacional de Produção Mineral. Apesar de

concluído em 1956, um ano depois continuava parado sem realizar as suas finalidades por falta de equipamentos e pessoal técnico necessário. A ausência desses elementos obrigava o Rio Grande do Norte a subordinar ao estado da Paraíba a sua produção de minérios, que

51 AMPLIA OS SEUS RUMOS O 5º DISTRITO DO DNOCS, A Republica, 05 agosto 1956, p. 4.

52 DEPARTAMENTO NACIONAL DE OBRAS CONTRA AS SECAS – DNOCS. Disponível em: <http://www.dnocs.gov.br/>. Acesso em: 15 jul 2013.

seguia para análise em Campina Grande e era exportada via porto de Cabedelo, situação que colocava em detrimento a economia potiguar53.

A produção de minérios representava um promissor futuro econômico para o Estado, sobretudo pela forte procura de scheelita e o berilo pela indústria bélica mundial. Apesar de o Estado ter um dos subsolos mais ricos do Brasil, a extração industrial era feita de forma rudimentar54.

Em janeiro de 1957, o Governador Dinarte Mariz apresentou ao Ministro da Agricultura uma exposição de motivos em que reivindicava para o Laboratório de Produção

Mineral a autonomia de analisar o minério do Estado para que o mesmo fosse exportado via

porto de Natal: “Em precárias situações em que vive o Laboratório local não pode realizar funções que lhe deveriam estar atentas, nem sequer fornecer certificado para que os exportadores possam embarcar os produtos”55.

Na exposição, o Governador solicitava a designação de um químico e de outros técnicos que formariam o quadro de pessoal, assim como a aquisição do material e equipamentos para a realização de análise dos minérios. Segundo Dinarte, essas seriam as condições básicas para que a produção e a economia de minérios do Rio Grande do Norte não sofressem mais com limitações e dificuldades provenientes do exame e exportação de seus produtos.

No Rio Grande do Norte, os trabalhos de pesquisa empírica dos laboratórios citados acima, com exceção do último, ocorreram, sobretudo, por meio dos estudos geológicos da região de Mossoró. A história de grande parte dessas pesquisas pode ser encontrada nos seis volumes da coleção Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense, organizada por Vingt- un Rosado, intelectual potiguar da cidade supracitada, que se dedicou aos estudos dos fósseis e da cultural local. Entre os especialistas que passaram pela região, nomes como Luciano Jacques de Moraes, reconhecido engenheiro e geógrafo mineiro, e Llewellyn Ivor Price, um dos primeiros paleontólogos brasileiros e considerado o pai da paleontologia de vertebrados no Brasil, são lembrados constantemente na narrativa das pesquisas geológicas e paleontológicas do Estado. Ambos são descritos por Vingt-un Rosado como “homens de

53 FUNCIONAMENTO, BREVE, DO LABORATÓRIO..., Jornal de Natal, 08 Janeiro 1957. p. 1.

54 SANTOS, Paulo Pereira dos. Evolução econômica do Rio Grande do Norte: século XIX ao XX. Natal: Clima, 1994. p. 130.

ciência” e “grandes Geólogos do Brasil”. São chamados também de “sábios estudando com as luzes de sua cultura especializada, os nossos problemas de Geologia e Paleontologia”56.

Porém, como apontado anteriormente, por mais que muitos especialistas estivessem interessados na pesquisa empírica, o governo se interessava pela Geologia econômica e estrutural, que possuía importância imediata para o desenvolvimento econômico. A utilidade da pesquisa geológica era vista pelo Estado como um meio de mapear os depósitos minerais e descobrir plantas e animais que pudessem ser consumidos ou exportados.

Apesar de esses espaços estarem associados a uma produção científica utilitária, que servia às necessidades imediatas, que tanto o texto analisado recrimina, não podemos deixar de apontar a sua importância no desenvolvimento da ciência local durante a década de 1950. Isso porque, foi nesses espaços, que alguns dos cientistas locais iniciaram suas atividades. Como exemplo, Antônio Campos e Silva, considerado um dos principais paleontólogos do Rio Grande do Norte, contratado pelo DNOCS para realizar o trabalho técnico de levantamento e análise de solo, também desenvolvia, por iniciativa própria, pesquisas no campo da geologia e paleontologia. Antônio Campos permaneceu trabalhando no DNOCS até o ano de 1962, quando foi convidado a integrar a equipe de pesquisadores de uma recém- criada instituição científica, o Instituto de Antropologia da Universidade do Rio Grande do Norte, objeto de nossa pesquisa.

Voltando ao artigo em análise, ele ainda ressalta a ausência de instituições voltadas à pesquisa e, também, à formação técnica de especialistas no estado. Enquanto Recife é elogiada pelo seu Instituto Joaquim Nabuco, criado no ano de 1949 e descrito como um espaço “empenhado na solução dos mais graves problemas sociais, políticos e econômicos do Nordeste brasileiro”, Natal e o Rio Grande do Norte continuavam, segundo o texto, estagnados em uma fase de “empirismo colonial, administrando com os simples dados da experiência, do esforço pessoal, da intuição, sem nenhuma base científica”57.

No cenário nacional do início do século XX, a ciência já era considerada a mais elevada manifestação da inteligência humana. É nesse momento que, no Brasil, os diferentes territórios da ciência foram, aos poucos, sendo demarcados com o surgimento de associações profissionais, instituições de pesquisa, revistas especializadas, conferências e congressos. Duas das principais instituições científicas nacionais são criadas: o Instituto Soroterápico, em 1900, responsável pela fabricação de soros e vacinas contra a peste bubônica, e que se tornou

56 ROSADO, Vint-Un. Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense: 1935 a 1962. Mossoró: Fundação Vignt-Um Rosado. Coleção Mossoroense. Série C, 2. v., 1999. p. 27-30.

a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e o Instituto Butantan, com mesma missão institucional da Fiocruz, e hoje um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo58. Nesse período, a ciência deixava de ser uma atividade praticada somente por indivíduos, de forma isolada, e passava a ser praticada por grupos de cientistas reunidos em institutos, laboratórios, departamentos e repartições do governo.

Apesar do Rio Grande do Norte não possuir instituições específicas voltadas à ciência e à formação de cientistas, o Estado contava com alguns espaços de atuação científica e cultural que serviam de vitrine para as pesquisas de alguns intelectuais. Podemos citar, como exemplo, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), fundado em Natal em março de 1902, a partir da iniciativa da elite intelectual e política, como Manuel Dantas, Henrique Castriciano, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, Eloy de Souza, dentre outros. Com a finalidade de reunir e divulgar, por meio da sua Revista, documentos e estudos relacionados à história, geografia, arqueologia e etnografia, principalmente do Rio Grande do Norte, o IHGRN era o principal espaço de sociabilidade e consagração dos intelectuais locais. Um segundo artigo, intitulado Pesquisas Sociais, foi publicado pelo A República, reforçando o discurso do anterior, ou seja, da necessidade de introduzir métodos de pesquisa “em vários campos de atividade do homem nordestino”. O texto enfatiza a importância do trabalho em conjunto dos técnicos das áreas como Geologia, Agronomia e de especialistas em Antropologia, Sociologia e Folclore nas ações no interior do estado. Uma descrição de como deveria funcionar uma instituição científica naquele momento: um espaço com cientistas de diferentes áreas, trabalhando em conjunto na resolução de problemas específicos.

O texto finaliza mencionando a Escola de Serviço Social de Natal, criada em 1945, como um espaço local de atuação de alguns intelectuais que realizam estudos científicos, como o professor Otto Guerra59. No entanto, pela forte ligação com a igreja e pelo cunho extremamente assistencialista da referida instituição, o texto incube à Escola e aos seus professores o papel de apenas fornecer apoio para os almejados técnicos, e não como um espaço capaz de formar os especialistas tão necessários60.

As escolas e faculdades de nível superior existentes em Natal destacavam-se nesse período como espaços de atuação de muitos potiguares dedicados à ciência. Além disso, as

58 CARVALHO, Zulmara Virgínia de; PANTALEON, Efrain; RODRIGUES, Ramon César; ORRICO, Pablo Pekos Costa; NOBRE, Augusto Cesar Bezerra. História econômica brasileira do empreendedorismo e inovação

potencialidades e impactos no Estado do Rio Grande do Norte. 2012. Disponível em <

http://www.aahe.fahce.unlp.edu.ar/Jornadas/iii-cladhe-xxiii-jhe/>.

59 Desde a década de 1930, Otto Guerra vinha publicando no jornal local A Ordem, onde atuava como jornalista e editor, artigos, fruto de seus estudos sobre questões regionais – particularmente dos problemas ligados à economia e à questão da seca.

aulas e conferências que abriam o ano letivo desses espaços atraiam autoridades e intelectuais por serem ministradas por professores renomados, principalmente de instituições de ensino de outros estados. Vários diretores e professores das faculdades locais, quando participavam de eventos, congressos e reuniões profissionais pelo Brasil e exterior, ganhavam destaque nas páginas dos jornais impressos da capital.

Porém, com exceção das pesquisas conduzidas isoladamente por alguns intelectuais ligados às faculdades do estado, esses espaços e seus professores eram vistos, nesse período, apenas como pontos de apoio para pesquisas e pesquisadores de instituições de outros estados que constantemente excursionavam pelo interior potiguar.

Encontramos alguns exemplos que foram noticiados pela impressa escrita local. Quando, em janeiro de 1957, o Instituto Joaquim Nabuco de Recife enviou ao Rio Grande do Norte geógrafos para estudar o Rio Ceará Mirim, no município de mesmo nome, com o objetivo de estudar os rios da região canavieira do Nordeste brasileiro, a equipe, chefiada pelo Prof. Gilberto Osorio, recebeu apoio de Edgar Barbosa, Luiz da Câmara Cascudo e Boanerges Soares, diretor e professores da Faculdade de Filosofia de Natal, e que acompanharam in-loco os cientistas pernambucanos61. Em setembro do mesmo, um grupo da Faculdade de Filosofia da Paraíba também visitou o Estado para realizar estudos acerca da cultura local, contando novamente com o apoio do professor Edgar Barbosa, diretor da Faculdade de Filosofia de Natal62.