• Sonuç bulunamadı

Yansıma kelimelerden çeşitli adlar ve nitelik bildiren sıfatlar türetir.

TÜRKİYE TÜRKÇESİ AĞIZLARINDA SÖZ YAPIM

1. İSİMDEN İSİM YAPMA EKLERİ

1.8.8. Yansıma kelimelerden çeşitli adlar ve nitelik bildiren sıfatlar türetir.

Fernão Pessoa Ramos (2005) observa que a definição do campo documentário se estabelece na oscilação entre duas estruturas: a enunciação e a tomada. O alicerce teórico sobre a camada enunciativa é bastante profícuo e encontra alguns de seus principais suportes em Bill Nichols (com seu conceito de “voz”) e Noël Carrol (com o conceito de “asserção”). No entendimento de Ramos (2005, p. 163), as abordagens pelo viés da enunciação entendem o documentário como singularidade narrativa, dentro de sua transformação histórica, e a camada enunciativa se caracteriza por estabelecer enunciados/asserções/argumentos sobre o mundo.

O documentário [estudado pelo viés da enunciação] pode ser definido, de forma breve, como uma narrativa que estabelece enunciados sobre o mundo histórico: “assim vive Nanook”, “assim se entregam cartas na Inglaterra”, “assim Randall Adams se viu envolvido no assassinato de um policial”, “assim encontrei, nos anos 1980, Elizabeth Teixeira e os camponeses que filmaram, em 1964, Cabra marcado para morrer, “assim Picasso compõe seus quadros”. (RAMOS, 2005, p. 163)

Para Ramos, o pensamento sobre o documentário tem privilegiado excessivamente a dimensão enunciativa, deixando em segundo plano a reflexão sobre a “matéria” que singulariza a enunciação.

Ao lado da dimensão enunciativa, a caracterização da narrativa documentária tem necessariamente em seu núcleo a questão do modo particular que a imagem, mediada pela câmera, se constitui através da “tomada”. É a dimensão da tomada que nos permite dar pleno significado às questões relativas à enunciação documentária, como “voz” ou “asserção” sobre o mundo. (RAMOS, 2005, p. 167)

A caracterização do documentário como uma narrativa composta por enunciados sobre o mundo é incompleta, pondera Ramos. Por quê? Porque “deixa de lado a carne mesma do documentário, qual seja, a matéria através da qual a enunciação se efetiva. E essa matéria chama-se imagem. E, mais particularmente, imagem mediada pela máquina-câmera.” (RAMOS, 2005, p. 167). A imagem-câmera, por sua vez, materializa-se na tomada. A “carne” do documentário, então, passa a existir a partir de uma relação complexa entre sujeitos, aparelhos e circunstâncias. Nenhuma dessas dimensões existe isoladamente; apenas quando mutuamente implicadas.

A câmera não existe de per si em sua relação com o mundo. Em suas diferentes maneiras de interagir com o que lhe é exterior, responde necessariamente à manifestação de uma vontade que emana exteriorizada em uma ação com a câmera (ou em uma opção de mantê-la estática). [...] Importa realçar que há sempre um sujeito que acompanha o evoluir da câmera no mundo, em maior ou menor proximidade. A câmera e seu sujeito compõem, portanto, uma unidade indissolúvel. Não há câmera sem sujeito, ou melhor, há câmera, mas não tomada, não imagem. A câmera sem sujeito é uma coisa, um objeto inerte a mais no mundo. Quando incorpora aquele, ou aqueles, que vão detonar seu mecanismo, e intencionalmente inseri-la, estática ou movente, na circunstância que a circunda, ela passa a existir em razão de sua potencialidade de constituir imagens para um espectador futuro. (RAMOS, 2012a, p. 77)

Ramos utiliza diversos termos para construir seu pensamento: “câmera”, “imagem-câmera”, “sujeito-da-câmera”, “tomada” e “circunstância da tomada”. Visto que essas palavras e expressões são recorrentes no presente trabalho, julgo necessário precisar o conceito de cada uma delas.

1) Câmera: é o aparelho capaz de registrar em suporte sensível imagens em movimento. Por questões de praticidade, Ramos (2005, p. 159) propõe que o conceito “câmera” englobe a máquina de captação de imagens e a aparelhagem de captação sonora que, em geral, lhe acompanha. Da mesma forma, neste trabalho, quando utilizo “câmera” me refiro ao conjunto de aparelhos que captam imagem e áudio, exceto em casos em que a diferenciação se faça necessária. Ramos ressalta que a câmera “existe sempre inserida no mundo e que é parte do mundo que a circunda, do qual a objetiva elabora um corte” (RAMOS, 2012a, p. 78). Também enfatiza que “o existir da câmera no mundo traz consigo inevitavelmente a dimensão subjetiva de uma presença que

constitui intrinsecamente a câmera como sujeito-da-câmera” (RAMOS, idem, loc. cit.).

2) Imagem-câmera: é a imagem em movimento resultante da inscrição da luz em material sensível presente no aparelho câmera. Para este termo expressar também a dimensão sonora, Ramos pondera que a designação mais precisa seria “imagem-câmera sonora em movimento” (RAMOS, 2012a, p. 19). Também aqui, por questão de praticidade, a expressão reduzida “imagem- câmera” compreende também o som. Ramos ressalta ainda que a imagem- câmera deve ser entendida como “um todo formado pela tomada e pela presença de um sujeito nessa circunstância, sustentando uma máquina com o nome de câmera” (RAMOS, 2012a, p. 73).

3) Sujeito-da-câmera: é, ao mesmo tempo, a pessoa, o corpo físico que sustenta a câmera durante a tomada e a subjetividade envolvida no ato de filmar. Ramos ressalta que o sujeito-da-câmera, para existir, necessita do espectador: “O sujeito-da-câmera não existe em si, embora se configure como presença subjetiva que sustenta a câmera na tomada. Ele existe para, e pela, experiência do espectador.” (RAMOS, 2005, p. 186). Visto que o documentário Bateia não foi lançado e, portanto, não existe ainda para o espectador, a utilização do termo “sujeito-da-câmera”, nesta tese, leva em conta tal aspecto. Por isso, “sujeito-da- câmera”, neste trabalho, refere-se à primeira etapa de sua constituição, que é sua presença (objetiva e subjetiva) na circunstância da tomada. “O sujeito-da- câmera é o conjunto da equipe que está atrás da câmera no momento da tomada, quando o mundo e seu som vêm deixar sua marca no suporte da câmera, sensível à materialidade do mundo e seu som.” (RAMOS, 2008, p. 84) A pessoa que opera a câmera pode ser o próprio diretor do documentário ou outra pessoa da equipe. Em qualquer dos casos, o importante é ressaltar que o conceito de sujeito-da-câmera engloba uma dimensão objetiva (o estar lá, operando o equipamento de captação) e outra subjetiva (as intenções e a visão do realizador). A subjetividade então, aqui, é a do documentarista e não a do espectador. Ramos observa que, embora existam imagens-câmera “sem

presença”10, para a maior parte das imagens-câmera “é a presença de um sujeito que funda sua constituição” (RAMOS, 2005, p. 185-186).

4) Tomada: é o momento formador da imagem-câmera (RAMOS, 2012a, p. 13). Na prática da produção ficcional, a palavra tomada (ou o termo take, em inglês) é utilizada para identificar cada uma das vezes em que se roda um plano previsto na planificação. Na prática da produção documentária, a tomada pode ter esse mesmo sentido, quando se trata de um documentário de encenação construída. Já no documentário de encenação direta, a tomada estará aberta para a indeterminação. Em todos os casos, a tomada compreende o tempo decorrido entre o ligar e o desligar do “botão gravar” da câmera. Na imagem documentária, a tomada é definida “pela presença de um sujeito sustentando uma câmera/gravador na circunstância de mundo, em que formas e volume deixam seu traço em um suporte que ‘corre’ (trans-corre) na câmera/gravador, seja esse suporte digital, videográfico ou película” (RAMOS, 2008, p. 82). Ramos defende que a abordagem sobre o que é tomada deve ser realizada dentro de um viés histórico e diacrônico, uma vez que sua forma e articulação narrativa evoluem em diferentes conjuntos estilísticos. Assim, a tomada realizada na estilística do cinema direto e a tomada para um documentário institucional, por exemplo, possuem estatutos completamente diferentes entre si. (RAMOS, 2008, p. 82)

5) Circunstância da tomada: é o recorte de espaço/tempo em que a(s) tomada(s) é/são efetuada(s). Assim, deve ser entendida na confluência entre os eixos do transcorrer e da presença. “A presença do sujeito-da-câmera na tomada dá-se invariavelmente no transcorrer do mundo que existe para o sujeito-da- câmera, que, por sua vez, sustenta a câmera, com sua presença.” (RAMOS, 2008, p. 90).

Conforme apontado, Ramos defende que a tomada deve ser estudada em perspectiva diacrônica. Assim, a “ética documentária” que tenha predominado em determinado período histórico resulta em traços estilísticos particulares para

10 Ramos apresenta como exemplo a imagem da Terra feita por uma câmera posicionada em

os documentários (ou para a maior parte deles) produzidos no respectivo período. Ramos relaciona “três grandes constelações” que nortearam a ética11 do documentário do século XX. Primeiramente, a “ética da missão educativa”, que dominou a realização documentária na primeira metade do século passado.

A ação da educação traz inerente a percepção do outro pelo vínculo altruísta. Esse “outro”, para quem o discurso educativo enuncia suas verdades, é o povo, definido como polo passivo. Esse polo recebe e tira proveito da condescendência de quem educa. A alteridade definida como “povo” existe a partir da ação altruísta do sujeito que educa. (RAMOS, 2005, p. 173) [Aspas do original]

Os traços estilísticos dessa primeira etapa do documentário são: 1) enunciação predominantemente não dialógica, estabelecida através da presença de uma voz-fora-de-campo (também denominada “voz de deus” e “voz

over”), sem motivação diegética de personagem; 2) influência das propostas de

montagem no estilo da escola soviética; 3) estilo fotográfico marcado pela luz presente nas composições de estúdio; 4) a câmera tende a ser estática ou é movimentada em travellings tradicionais; 5) o som direto é exceção.

O segundo campo ético apontado por Ramos é o do recuo – que corresponde, eminentemente, ao cinema direto norte-americano. Esse novo modo de documentário, que surgiu no fim dos anos 1950 e início da década de 1960, se constitui em franca oposição ao documentário educativo.

Contra o saber, a ética do recuo oferece a ambiguidade; contra o aprendizado, a liberdade e responsabilidade; contra a voz-de-Deus, o recuo do discurso documentário e a estética mosca-na-parede; contra a voz fora-de-campo, a fala do mundo. (RAMOS, 2005, p. 177)

A terceira constelação é a ética participativo-reflexiva, que, por sua vez, se contrapõe a diversos princípios da ética do recuo.

O que nos ensina a cartilha participativo-reflexiva? Que é eticamente insustentável enunciar sem deixar de estampar as pegadas que

11 Ramos (2005, p. 168) define ética para o contexto da sua abordagem como “o conjunto de

regras morais de conduta que são valorizadas positivamente dentro de determinado período histórico”.

marcam a conformação dessa enunciação. Que o sujeito que enuncia, o cineasta, inevitavelmente imprime sua visão de mundo ao discurso que veicula, e que o espectador deve estar atento a esse fato. (RAMOS, 2005, p. 178)

Negando a validade da posição de recuo, a ética participativo-reflexiva vai preconizar “a necessidade de um corpo-a-corpo com a circunstância do mundo em situação da tomada” (RAMOS, 2005, p. 179). Em vez da tomada observativa do direto, o “procedimento estilístico por excelência” da ética participativo- reflexiva será a entrevista. Além dessa estratégia de abordagem, também é próprio dessa ética expor o “como se faz o documentário”. Para tanto, surgem imagens da própria câmera realizando as tomadas e a imagem do sujeito-da- câmera interagindo com os demais personagens. Um terceiro traço estilístico recorrente é a imagem do próprio documentário sendo exibido para os personagens.

Pensar a questão ética no documentário exige uma reflexão detida sobre a mediação da câmera e a singularidade que essa mediação confere à imagem-câmera no universo das imagens. A mediação da câmera conforma um universo de imagens que possui uma singularidade: traz, em sua aparência imagética, pelo espectador, a dimensão da tomada. (RAMOS, 2005, p. 185)

Para cada concepção ética, procedimentos de produção diferentes e traços estilísticos distintos. Assim, a ética dos documentaristas em determinado período e a forma dos documentários que produzem estão amalgamados. Não se deve esquecer, contudo, que as estratégias de abordagem e a forma resultante também estão imbricadas à tecnologia disponível em cada época – esse aspecto é abordado no capítulo 2. Por ora, importa reforçar que da reflexão sobre as três éticas resulta que a “tomada”, sendo a instância que constitui a matéria sensível para os olhos e ouvidos do espectador, deveria adquirir maior destaque na reflexão sobre o documentário – e é nessa linha que a presente pesquisa se encaminhou.