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Belgede Pay senetlerinin halka arzı (sayfa 75-79)

Em sua plataforma presidencial, Graccho Cardoso, ao se referir à instru- ção pública, atestava o muito já feito em Sergipe, mas, ao mesmo tempo, salientava a insuficiência das ações. Declarava por exemplo que “[...] bem distanciados nos achamos ainda dos principios em que actualmente se baseia a escola nova, fundada no estudo objectivo e experimental da cre- ança” (Diario Official [...], 27/10/1922, p. 17).

Em relação à educação, Graccho expunha uma proposta. Exibia como objetivos do seu futuro governo: a redução do número de horas do traba- lho escolar, aplicando o excesso a jogos, desportos, exercícios ao ar livre e diversões educativas; a reforma dos métodos e o descongestionamento dos programas, estabelecendo o princípio da diferenciação entre o ensino e os respectivos núcleos; a implantação do autogoverno na escola e o desenvol- vimento da vocação dos alunos, num ambiente saturado de boa vontade e alegria; e a criação do ensino para a vida cívica e para a escolha de uma profissão futura (Diario Official [...], 27/10/1922, p. 18).

Em suas críticas à escola do período, o presidente eleito recentemente afir- mava que a ação dela se restringia à alfabetização, não retirando a criança da ignorância a respeito da vida. A instrução, segundo ele, deveria estar relacionada com as forças do indivíduo, integrando-se ao seu ser, bem como se manifestar nas suas aptidões e anseios, em outras palavras, uma instrução que atendesse às características próprias da profissão que cada um viesse a assumir futuramente (Diario Official [...], 27/10/1922, p. 17). Defendia igualmente o ensino primário regional, atento às peculiaridades das diversas cidades do estado e na crença dos diferentes destinos tomados pelas crianças em profissões liberais, no comércio, artes ou indústria. Para tanto, dizia:

Crearemos, assim, primeiro que qualquer outro Estado, no Brasil, o ensino regional, tomada a creança do ponto de vista da sua procedencia: da cidade ou do suburbio, da zona indus- trial, agricola ou pecuaria, conforme o ramo da vida e influen- cia de cada uma dellas (Diario Official [...], 27/10/1922, p. 18). Nesse sentido, o administrador público detinha-se na defesa da educação profissional, que, segundo ele, deveria ser trabalhada como complemento mesmo do ensino primário, “de maneira que o alumno da escola primaria tenha ao seu alcance os meios de adquirir os conhecimentos práticos que lhe permittam o exercicio de uma profissão neste ou naquelle ramo da industria nacional” (Diario Official [...], 27/10/1922, p. 23).

Graccho Cardoso assumia a administração do Executivo estadual em outubro de 1922, referindo-se à instrução pública primária em tom de denúncia. As críticas à distribuição das cadeiras pelo governo eram enfáti- cas. De acordo com o presidente, muitas das escolas estavam situadas em pontos de exígua ou nenhuma população escolar, em lugares ermos e des- tituídos das condições de salubridade e higiene exigidas pela vida humana (SERGIPE. Mensagem [...], 1923, p. 6).

No intuito de resolver o problema, comprou casas para melhor locali- zar as escolas isoladas, dando-lhes condições de conforto, de higiene, e iniciou a construção de novos grupos escolares no estado. A atenção aos prédios destinados às escolas demonstrava assimilação das ideias referen- tes ao ensino primário presentes no Brasil desde o final do século XIX. Dessas concepções, destacava-se a proposta de reforma do ensino no Rio de Janeiro elaborada por Rui Barbosa, de cuja obra Graccho Cardoso apresentava indícios de apropriação.

As escolas isoladas permaneceram em funcionamento e, no último ano do governo Graccho, novas chegaram a ser abertas. A ampliação do número de grupos escolares foi de certo responsável pelo único período de declínio do número de isoladas em Sergipe nas três primeiras décadas do século XX. Em 1925, por exemplo, ano de maior queda, foram extintas quatro escolas isoladas em Propriá, todas as de Annápolis (Simão Dias) e as de Boquim, localidades onde grupos foram implantados. Com a ampliação do número de grupos, as escolas isoladas caíram de 254 em 1922 para 227 em 1923 e, em seguida, para 201 em 1925, voltando a subir somente no final de 1926, em um movimento contínuo até o final da Primeira

República, quando não foram mais erguidos grupos escolares, voltando estes a serem construídos apenas após 1930.

As críticas de Graccho atingiam os serviços de inspeção do ensino. Exemplificava o feito com o caso das escolas de Santo Amaro, distante cerca de duas horas da capital, na época, as quais não recebiam visita de inspetores há alguns anos. Graccho Cardoso defendia na Assembleia Legislativa a necessidade também de implantação da inspeção higiênica nas escolas (SERGIPE. Mensagem [...], 1923, p.  6-8), proposta encon- trada também nos escritos de Rui Barbosa acerca de reformas no ensino (BARBOSA, 1883b, p. 53-62).

O intuito de reformar a instrução pública achava-se presente nas palavras do governante em 1923. Dizia ele:

E’ chegado o momento de encarardes o problema cuja solução tantas vezes se há buscado já, sendo-me infinitamente grato contribuir para a sancção de uma lei de reforma do ensino pri- mario em geral, lei que consulte sobretudo a índole e as ten- dencias do povo para que for votada (SERGIPE. Mensagem [...], 1923, p. 8).

As denúncias de Graccho eram, no entanto, acompanhadas de ações. Era exemplo a transformação de prédios de antigas cadeias em escolas. Tal ação era anunciada e louvada na imprensa da época (Sergipe Jornal, 10/03/1923). Os municípios beneficiados foram: Itabaiana, Laranjeiras, Estância, Capela, Villanova (atual Neópolis), Lagarto, Santo Amaro das Brotas e São Cristóvão. Efetivamente, as cadeias de Lagarto e de São Cristóvão passaram pela transformação e se constituíram em grupos escolares.

O ensino primário ministrado em grupos escolares, a partir de 1923, ganhava novas instituições. Em março de 1923, foi inaugurado o Grupo Escolar Gumersindo Bessa, em Estância; em julho do mesmo ano, o Grupo Escolar Sílvio Romero em Lagarto; e em setembro, o Grupo Escolar Vigário Barroso na cidade de São Cristóvão. Estavam iniciadas as construções dos Grupos Manoel Luís, em Aracaju, e Severiano Cardoso, em Boquim.

Figura 3 – Grupo Escolar Manoel Luís – inaugurado em 1924 Fonte: Acervo do Memorial de Sergipe.

Em discurso, na inauguração do Grupo Escolar Vigário Barroso, em setembro de 1923, relacionava o desenvolvimento da instrução com o ideal republicano e a própria sistematização da República no Brasil. Na opinião do governante, enquanto o país possuísse um elevado número de analfabetos, a República não se realizaria plenamente. A educação daria ao povo a noção exata de seus direitos e dessa forma a República adquiriria, de fato, a consistência e a firmeza que as democracias adiantadas encon- travam nas funções do sufrágio. A cidadania, concebida em moldes dife- rentes do que se vivia no Brasil monárquico, passava pelo conhecimento e respeito às leis, adequações disciplinares e alfabetização. Esta última era tarefa essencial da escola e preceito da condição de eleitor. Tal aspecto contribuía para tornar a função da escola alvo de permanente discussão entre os republicanos.

A inauguração do Grupo Vigário Barroso foi um momento propício tam- bém para o presidente defender a necessidade da construir lugares próprios para as escolas. Afirmava o governante:

A construcção de casas para escolas assume esta dupla impor- tância: hygienica e pedagógica, e, portanto, deve competir á

acção continua e systematica do Estado. Edifiquemos casas para escolas em todas as localidades em que estas existirem, e teremos resolvido cincoenta por cento o problema do cultivo do espírito popular. Ruy Barbosa escreveu: “Não há instrucção sem escolas, nem escolas sem casas escolares”. Mas, á situação do prédio, convem que se alliem o arejamento perfeito, a distri- buicao scientifica e orientada da luz, o mobiliario completo e adequado, os exercicios physicos e os jogos recreativos (Diario

Official [...], 4/9/1923, p. 2836-2837).

A defesa da existência de prédios próprios para as escolas, assim como o fazia Rui Barbosa, e a referência explícita a este na fala do governante em seus discursos eram demonstração da apropriação de ideias do jurista pelo administrador sergipano. Ao apropriar-se do pensamento de Rui Barbosa, Graccho Cardoso mostrava-se detentor de um projeto de educação e dava sinais de atualização acerca do que se discutia no período em relação à educação popular. A importância atribuída ao jurista com referência à ins- trução pública aparecia em Graccho Cardoso em outra situação: quando decretava, em homenagem póstuma, a alteração do nome da Escola Normal sergipana, que passava a se chamar, em 1923, Escola Normal Ruy Barbosa (Decreto n. 788 de 2 de março de 1923).

Diferente, no entanto, do que propunha Rui Barbosa, refere-se ao apoio do governo a religiosos. Rui Barbosa defendia o ensino público laico e nesse sentido condenava o subsídio do Estado para com os estabelecimentos de ensino vinculados a institutos religiosos. Graccho, apesar de não subsidiar esse tipo de instituição de ensino, auxiliou o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, das irmãs sacramentinas, quando operou a doação do terreno destinado à construção do seu prédio. Da mesma forma, Rui Barbosa criticava a existência de religiosos na direção de instituições de ensino secular, o que privaria a escola do caráter de neutralidade que deveria pos- suir (BARBOSA, 1883a, p.  345). O presidente de Sergipe, no entanto, não seguia esse pressuposto, visto que chegou a nomear, em 1926, para a direção dos grupos escolares Sílvio Romero e Olympio Campos os padres Possidônio Pinheiro da Rocha e Arthur Alfredo Passos22, respectivamente

(Of. de 18/10/1927 do GESR; Of. 3/11/1925 do GEOC).

22 No GEOC, após a saída do padre Arthur Alfredo Passos da direção da instituição, assumiu o padre Miguel M. Barbosa, conforme Ofício n. 10, de 08/03/1929, da Diretoria do GEOC para a DGI.

O presidente de Sergipe apropriava-se de Rui Barbosa sem desvincular-se da sua postura católica. Esse fato revelado nos discursos do governante ser- gipano era um demonstrativo de que as práticas de apropriação são formas diferenciadas de interpretação dos eventos culturais. Segundo Chartier (1990, p. 27-28), as práticas discursivas são “como produtoras de ordena- mento, de afirmação de distâncias, de divisões. Compreendê-las exige, na verdade, que se tenham em conta as especificidades do espaço próprio das práticas culturais”.

O fato é que o governo Graccho Cardoso, em relação ao ensino primário, encontrou construídos em Sergipe os grupos escolares General Siqueira (1914), Barão de Maroim (1917), General Valladão (1919), em Aracaju, e Coelho e Campos (1918), em Capela; e, em seguida, deu prossegui- mento à construção dessas instituições, ao inaugurar, a partir de 1923, no interior do estado, os grupos escolares Gumersindo Bessa (Estância), Fausto Cardoso (Simão Dias), João Fernandes de Brito (Propriá), Olympio Campos (Neópolis), Vigário Barroso (São Cristóvão), Sílvio Romero (Lagarto) e, na capital, os grupos escolares Manuel Luís e José Augusto Ferraz. Além disso, construiu as Escolas Reunidas Severiano Cardoso (Boquim) e Esperidião Monteiro (Santo Amaro).

Os grupos escolares, erigidos durante a administração Graccho, foram construídos, segundo Nascimento (1981, p.  100), “dentro de um estilo padronizado, sempre identificados por ‘águias’ de cimento colocadas ora no frontão central dos prédios, ora nas suas extremidades”. Sem dúvida, essas realizações eram produtos de muito trabalho, mas também alvo de muita publicidade. O Diario Official em 27/09/1925 mostrava o gover- nante como “incansável protetor da instrução pública em Sergipe”.

Figura 4 – Grupo Escolar José Augusto Ferraz – Inaugurado em 1925 Fonte: Acervo do Memorial de Sergipe.

A preocupação com a construção dos edifícios escolares denotava uma busca do administrador público pela influência de representações sobre educação e modernidade para além dos muros das instituições. A arqui- tetura deveria abarcar valores de ordem e disciplina, constituindo-se em signo de modernização do ensino.

Devido à reprovação do governo quanto à estrutura de determinados pré- dios escolares, foi determinada a construção de novos também para ins- tituições já existentes, a exemplo do Grupo Escolar Coelho e Campos. Criado em 1918 e posto em funcionamento em prédio adaptado23, apre-

sentava em 1924, alguns problemas conforme regulamento da instrução (Cf. TV ao GECC de 08/09/1924).

O novo prédio para onde foi transferido o grupo, em 1926, atendia às necessidades do ensino primário público e graduado. Segundo o delegado do ensino Ascendino Argollo, localizado no centro da cidade, oferecia fácil

23 O prédio consistia na residência do Desembargador Coelho e Campos. Foi doado pelo seu proprietário ao governo do estado para a construção de um grupo escolar.

acesso à população escolar e possuía características de higiene, conforto, luz e condições de aeração (TV de 02/06/1927; TV de 25/11/1927). A preocupação do governo com o provimento de prédios adequados para os serviços de instrução materializou-se em obras também no que se refere ao ensino secundário. A administração Graccho dedicou-se à construção, na linguagem da Gazeta do Povo de 08/01/1926, do “suntuoso edifício que vai servir para a instalação do Ateneu Pedro II”, estabelecimento marcado por grandes diretores, entre eles o professor Abdias Bezerra, Diretor da Instrução Pública na administração Graccho.

Figura 5 – Atheneu Pedro II Fonte: Acervo do Memorial de Sergipe.

O edifício, também encimado por uma águia, era grandioso. Suas dimen- sões, inclusive, excediam as necessidades do ensino secundário no perí- odo que contava, por exemplo, com matrícula total de setenta e cinco alunos em 1925 e de apenas quarenta e sete em 1926 (vinte e um no 1º ano, quinze no 2º ano, oito no 3º ano, um no 4º ano e dois no 5º ano). Tal desproporção entre grandiosidade do edifício e público a ser atendido por ele era um fato consciente para o administrador, que a reconhecia e

a justificava afirmando que a instituição corresponderia aos seus fins por mais de um século (SERGIPE. Mensagem [...], 1925, p. 115).

Além do ensino primário e do ensino normal, alvos da Reforma da Instrução de 1924, as ações do governo voltadas aos assuntos educacio- nais atingiram outros níveis da instrução pública. Um exemplo disso foi o ensino profissionalizante, oferecido à população por meio da criação da Escola de Comércio Conselheiro Orlando (1923), do Instituto de Química (1923) e do ensino agrícola promovido pelo Patronato São Maurício (1923) e da transformação do Lyceu Profissional Coelho e Campos em Instituto Profissional Coelho e Campos (1924).

Outro exemplo trata do ensino superior, inaugurado em Sergipe em 1924 com a criação da Faculdade de Direito Tobias Barreto. Esse ensino foi estendido, em 1925, com a implantação da Faculdade de Farmácia e Odontologia. Os projetos do ensino superior, no entanto, não foram adiante, apesar do entusiasmo inicial dos planos e do caráter cerimonial que motivava a população para uma ideia de progresso da sociedade sergi- pana daquele início de século.

A trajetória política bem-sucedida de Graccho Cardoso levava o gover- nante sergipano a ser concebido como um fator de renovação para o povo sergipano, rumo a situações e práticas mais modernas, promovendo um ambiente progressista no estado. A criação do ensino superior significaria o refinamento da vida sergipana, euforicamente celebrado, imortalizando o administrador.

Nos relatórios oficiais, a política educacional estava sempre presente. Outros governos dedicaram-se aos trabalhos da instrução pública. Seus antecessores, Oliveira Valladão (1914-1918) e Pereira Lobo (1918-1922), por exemplo, decretaram novos regulamentos para a instrução – Decreto n. 587 de 09/01/1915 e Decreto n. 724 de 29/10/1921, respectivamente. Contudo, o presidente Graccho Cardoso os superou, quantitativa e qualitativamente.

Exemplo do que foi afirmado acerca da produção legal no governo Graccho foi a promulgação da Lei n. 852 de 30/10/1923. Tal diploma legal estabelecia as bases para a reforma do ensino primário e normal do estado. A lei estabelecia definições e diretrizes essenciais para a reformulação do ensino. Vemos, assim, que em meio a diversas ações um projeto de reforma começava a ser gerado.

As diversas iniciativas do governo no campo da instrução demonstravam preocupação também com a formação dos professores, posto que regula- mentou, por duas vezes, o ensino normal (Decreto n. 867 de 11 de março de 1924; Decreto n. 934 de 4 de maio de 1926).

A respeito da Reforma de 1924, para uma melhor compreensão dela e do seu lugar dentro do projeto modernizador do governo Graccho Cardoso, procuramos verificar quem eram os diretores da instrução pública no perí- odo e as concepções deles acerca da educação escolar. Também buscamos perceber a relação entre a Lei (852/1923) que estabeleceu as bases para a reforma e a recente organização do ensino paulista (Reforma de 1920), da qual o governo Graccho Cardoso buscou orientação.

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